terça-feira, 1 de outubro de 2013

" o fá d'Ambó, a fala da ilha de Ano Bom, a 200 Km a Sudoeste das ilhas de S. Tomé e Príncipe"


 ilha de Ano Bom
O Fá d'Ambõ 

Fala da ilha de  Ano Bom

Quando da última cimeira da CPLP a Guiné Equatorial pediu a adesão a essa comunidade. Houve quem estranhasse.

O facto é que este país tem mais afinidades com Portugal do que com Castela, a sua última potência colonizadora.

Os Portugueses foram os primeiros europeus a chegar à região, em 1471, a povoar nomeadamente as ilhas de Fernando Pó ( actual Bioko)e Ano Bom ( Annobon).

Tanto as ilhas como a parte continental pertenciam a Portugal, mas foram trocadas pela região que hoje é o Rio Grande do Sul , no Brasil.

 - Foi pelos tratados de Santo Ildefonso (1777) e do Prado(1778) que os Castelhanos renunciaram à ilha de Santa Catarina (Brasil) e aceitaram a fronteira do Sul do Brasil, tal como hoje ainda existe; os Portugueses renunciaram a Sacramento (Uruguai) e aos direitos sobre as ilhas Marianas e as Filipinas - .


ilha de Ano Bom
Foi por esses tratados que foi feita essa troca.

A troca não foi aceite pelas populações e derem "água pela barba" aos de Castela.

Essa é uma das razões porque hoje se fala o Fá  d' Ambõ, um Português quase medieval, em Ano Bom.

O Fá d'Ambõ é um património imaterial da lusofonia, de valor incalculável, pois conserva as características originais da língua mãe.

Foi devido à sua resistência e ao isolamento a que estiveram sujeitos durante alguns séculos , que ainda se fala o idioma dos primeiros povoadores.

Luís Santana

Comentários de interesse:

Etelvina Ferreira

Há dias estive a ler sobre o Tratado de Madrid assinado a 14 de Fevereiro de 1750 e sobre o" mapa das cortes" de 1749, construído habilmente em Lisboa por Alexandre de Gusmão.

Perdemos Sacramento mas ganhamos mais território graças à habilidade negocial do Visconde de Vila Nova, Tomás da Silva Teles e José de Carvalhal e Lencaster e às provas que então tinham sido preparadas para as reuniões, nomeadamente os mapas.

Património Português no Mundo não sei se ganhamos território?

Perdemos Ano Bom e Fernando Pó, a parte continental da actual Guiné Equatorial, Sacramento, os territórios anexos de Santa Teresa e São Miguel, e os direitos sobre as Marianas e as Filipinas. Olhe que não sei...não.

Houve realmente um emparcelamento no Sul do Brasil, mas não sei se recompensou. Pelos menos em meus humanos foi constrangedor, já que como disse, os povos da Guiné não aceitaram autoridade dos Castelhanos, fizeram guerra e conseguiram que fossem nomeados cinco nativos como governadores, mas depois de muita luta.

Etelvina Ferreira

Pelo menos tudo foi feito pelos negociadores para fazer crer que os territórios a ceder pelos portugueses parecessem maiores que o que realmente eram. Os portugueses conheciam melhor o território que os espanhóis, quer através dos mapas existentes, quer através dos relatos orais. Anteriormente à assinatura do tratado os espanhóis não tinham mapas elaborados em Espanha o que aliado a alguns lapsos nos mapas, e que eram do conhecimento de Portugal, permitiu manobrar a causa portuguesa a nosso favor.

Numa cerimónia realizada ontem (15), durante o primeiro dia do Colóquio Internacional “A Língua Portuguesa, o multilinguismo e as novas tecnologias das línguas no século XXI” foram lançados o livro “Fa d’ambô: herança da Língua Portuguesa na Guiné Equatorial” e o livro “ O Exame de Proficiência Celpe-Bras em Foco”.

Resultado de acção prevista no Protocolo de Cooperação Técnica entre o Governo da Guiné Equatorial e o IILP, em decorrência da oficialização da língua portuguesa naquele país, o livro “Fa d’ambô: herança da Língua Portuguesa na Guiné Equatorial”  apresenta as pesquisas realizadas em Março do presente ano, em Malabo e Annobón, na Guiné Equatorial, bem como um panorama histórico da emergência daquele crioulo de base portuguesa.

A missão no país foi dirigida por Isabel Oyana Ayomo, na altura Directora Geral de Lusofonia da Guiné Equatorial, tendo como pesquisadores de campo a Doutora Rosângela Morello, do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL), coordenadora da missão no terreno. A equipe local foi formada por Isabel Oyana Ayomo, Armando Zamora Segorbe, linguista e professor da Universidade Nacional da Guiné Equatorial, Anastasia Nansie Esono, licenciada em filologia ibérica e investigadora no Centro de Estudios Afro-Iberoamericanos (CERAFIA) de Libreville, Bienvenido Ebang Otogo, licenciado em Ciências Políticas e funcionário do Ministério de Assuntos Exteriores na Direcção Geral de Lusofonia, Alicante Mba, oficial de protocolo do Ministério de Assuntos Exteriores e Aparicio Sima e Diosdado Echupo, jornalistas da TVGE.

Concentrando-se em Malabo e arredores, de 10 a 18 de Março de 2012, e em Santo António de Palé, na Ilha de Annobón de 19 a 25 do mesmo mês, os investigadores realizaram diferentes acções visando conhecer mais detalhadamente a situação linguística das comunidades annobonenses, incluindo, por um lado, um trabalho descritivo da língua por eles falada (constituição de corpora) e, por outro, os âmbitos de uso e de circulação dessa língua, observando também a taxa de sua transmissão a jovens e crianças (diagnóstico sociolinguístico).

A obra estará disponível em breve no sitio do IILP.

Organizado pela professora Dra. Regina Lúcia Péret Dell’Isola, da UFMG, o livro “ O Exame de Proficiência Celpe-Bras em Foco” reúne uma coletânea de trabalhos que, sob diferentes prismas, levanta uma série de reflexões acerca do exame Celpe-Bras. O objectivo é alimentar o debate acerca do tema a partir de uma abordagem provocativa, que perpassa a discussão sobre a qualidade do material do exame, a dinâmica da interacção face a face e o desempenho do candidato, tanto na parte escrita quanto na parte oral.

Ilha de Ano Bom


Cunha Matos

Acha-se situada em a latitude de 1 grau e 28 minutos meridionais, e aos 20 graus e 45 minutos de longitude do meridiano da Ilha do ferro (Canárias).

[Dados do Google Earth:    Latitude 1º24’51,49” Sul   Longitude 5º37’04,75”Este (Greenwich)]

Diz-se que foi descoberta pelos navios de João de Santarém e de Pedro Escobar em 1 de Janeiro de 1472 posto que Martim Behaim no seu globo planisférico de Nuremberg declarasse ter sido encontrada pelos navios de Diogo Cão no ano de 1484 ou 1485, isto no caso de ser a mesma ilha de Ano Bom a de S. Martinho de que ele trata; é pequena e de figura quase oval e extremamente montanhosa.

Foi erigida em capitania donatária de juro e herdade a favor de Jorge de Melo. Gaspar da Silva segundo Capitão Donatário foi casado com Dona Maria de Almeida e foram pais de D. Luísa da Silva casada com António de Melo e tiveram a Dona Maria da Silva que casou com Martim da Cunha d’Eça e estes: D. Maria da Silva casada com Pedro de Brito e Ataíde. É isto o que eu encontro no Teatro Genealógico dos Grandes de Portugal respeito de Gaspar da Silva; mas recorrendo às memórias mais autênticas e circunstanciadas que pude alcançar achei um assento junto ao auto do Sínodo Diocesano celebrado em S. Tomé no dia 15 de Junho de 1617 que unido a outras notícias põem-nos ao facto do senhorio desta ilha.

Consta pois que durante o tempo de Jorge de Melo, primeiro Senhor Donatário, ajustava com ele Baltazar de Almeida morador na Ilha de S. Tomé povoar-se a ilha de Ano Bom como era obrigado pelo título da sua doação. Baltazar de Almeida remeteu alguns casais para a mesma ilha e seu sobrinho Luís de Almeida também morador em S. Tomé fez compra do senhorio dela em 1570 a Jorge de Melo pela quantia de 400$000 réis com permissão de El-Rei D. Sebastião. Este Luís de Almeida instituiu o Morgado das Laranjeiras da ilha de S. Tomé e entre outras obrigações impostas aos futuros administradores foi a de conservarem um sacerdote na ilha de Ano Bom, repararem a igreja e terem os ornamentos que fossem necessários. Ao Morgado das Laranjeiras achavam-se incorporadas umas propriedades de casas as quais ficaram para residência dos Curas ou Vigários da Freguesia da Conceição que por isso seriam obrigados a dizerem uma missa rezada em cada semana e um responso sobre a sepultura de Miguel de Vasconcelos, irmão do referido Luís de Almeida que estava enterrado na mesma igreja de N. Sª da Conceição. Como estas casas eram de madeira foram abrasadas quando os holandeses incendiaram a cidade de S. Tomé.

Luís de Almeida faleceu sem descendentes e deixou a administração do Morgado das Laranjeiras a D. Maria de Almeida, sua prima, em cuja linha andou até que foi sequestrada no dia 25 de Março de 1744 a Martinho da Cunha d’Eça e Almeida, por falta de título legítimo para aquela posse. Pelas memórias do Sínodo Diocesano de S. Tomé. mostra-se que D. Luísa da Silva era moradora na vila de Soure em Portugal.

Mui poucas são as notícias sobre o antigo estado da Ilha de Ano Bom. No ano de 1598 o Capitão holandês Jacques Maypay comandante de cinco navios que iam para a Índia saqueou a ilha. A povoação principal tinha nesse tempo 20 casas. O Capitão continuou a sua viagem no dia 12 de Dezembro. No ano de 1605 tornou a ser saqueada pelo Capitão holandês Matalief. Existiam aí dois portugueses e 200 moradores pretos. Pelo capítulo 42 do Regimento dos Governadores de S. Tomé, está determinado que aí se conserve sacerdote para administrar os sacramentos aos habitantes, cuja côngrua será paga pelo Donatário ou pelo Cofre da Fazenda Real. No ano de 1755 foi nomeado Pároco Missionário Fr. Francisco Pinto da Fonseca, Freire da Ordem de Cristo e irmão de D. Manoel Pinto da Fonseca, Grão Mestre da Ordem de S. João de Jerusalém, mas como falecera foi nomeado em Setembro deste ano o Padre Domingos Farias o qual não aceitando teve por sucessor o Padre Manoel do Nascimento Pais e Oliveira, e apenas chegou este eclesiástico, sublevaram-se os habitantes contra o mesmo e seus companheiros os quais para salvarem as vidas foram obrigados s fugir da Ilha. Outro tanto aconteceu aos cónegos de S. Tomé António Luís Monteiro e Gregório Martins das Neves, que ali foram por ordem do Governo Português em companhia do Capitão Mor das Ilhas de Príncipe e S. Tomé Vicente Gomes Ferreira e do Ouvidor Geral Caetano Bernardes Pimentel de Castro e Mesquita, no dia 26 de Setembro de 1770. Os Cónegos não puderam conservar-se na ilha por tempo excedente a um ano e quase sempre debaixo da mais cruel perseguição daquele povo indomável.

O mais célebre acontecimento acerca da ilha de Ano Bom foi a da entrega e posse que dela tomou a Coroa de Espanha em virtude do Tratado de 11 de Março de 1778 e participado ao Capitão-Mor das ilhas de Príncipe e S. Tomé em carta Régia de 2 de Novembro do mesmo ano, cuja execução foi pelo modo que se segue.

No ano de 1778 chegaram à Ilha de S. Tomé as Fragatas espanholas Soledade debaixo das ordens do capitão de Navio José Varela e Ulhoa, a Santa Catarina comandada pelo capitão de navio Joaquim Tapeta, um bergantim1 e uma charrua2. A bordo destes navios foi o Conde de Argelar Brigadeiro do exército espanhol nomeado Governador Militar e Político das ilhas de Ano Bom e Fernando Pó, cedidas a El-Rei Católico pelo sobredito Tratado. O Governador de S. Tomé Vicente Gomes que não tinha recebido a esse tempo ordens algumas da Corte de Lisboa para se fazer aquela entrega em que acreditava por ver as cópias das cartas régias, que o Governo português lhe havia dirigido, entreteve o Conde por algum tempo esperando que chegasse as fragatas portuguesas com o comissário desta nação que devia fazer a entrega das colónias ao espanhol; este Comissário era o Capitão de Mar e Guerra Bernardo Ramires Esquível que depois foi substituído pelo capitão de Mar e Guerra Luís Caetano de Castro, por motivo que ignoro. Algum tempo depois (em Julho de 1779) (de) chegaram as fragatas3 espanholas deu fundo a Fragata Portuguesa N. Sª. da Graça no fim do termo da viagem, comandada pelo dito Luís Caetano de Castro que foi munido de plenos poderes para fazer a entrega. Nesta fragata ia o Governador João Manoel de Azambuja. Os navios das duas nações largaram imediatamente para a ilha de Fernando Pó, onde o Comissário e Governador espanhol Conde de Argelar tomou posse da colónia. Daqui regressaram a S. Tomé e durante esta viagem faleceu o conde de Argelar. De S. Tomé foram para a ilha de Ano Bom cujos habitantes se opuseram à entrega o que deu motivo a retirar-se para a Bahia de Todos os Santos, a Fragata portuguesa Graça cujo comandante deu parte ao Governo de não quererem os espanhóis tomar posse de Ano Bom contra a vontade dos moradores. Na ausência da fragata Graça voltaram os espanhóis à ilha Fernando Pó, aí formaram o seu estabelecimento na enseada junto às ilhas Capras e deram-lhe o nome de S. Carlos e porque lhes morresse muita gente voltaram para S. Tomé. O Comandante da Fragata Graça recebeu na Bahia ordem para regressar a S. Tomé e quando ia na viagem encontrou-se com a Fragata S. João Baptista comandada por José de Sousa de Castelo Branco que lhe trazia ordens de Lisboa para fazer efectiva a entrega da ilha de Ano Bom por qualquer modo que fosse. Poucos dias depois da chegada em S. Tomé seguiram todas as embarcações para a ilha de Ano Bom cujos habitantes vendo tão numerosa esquadra fugiram para os matos e daí insultavam os espanhóis quando conheceram que a bandeira desta nação tinha cachorros (os leões) e entenderam que o Rei de Portugal havia feito venda deles como escravos para irem para a América. Alguns homens da Ilha de Ano Bom disseram-me que a fuga para o mato foi depois que viram prender um homem chamado Pedro Martins, mas outros me informaram que esta prisão tivera lugar dentro de uma casa em que ele se ocultara na ocasião da fuga do povo para o mato. A tropa que desembarcou e os navios fizeram algum fogo contra a terra.

Este acontecimento acabou de desacorçoar4 os espanhóis e como eles já então haviam perdido o Conde de Argelar o Ministro da Fazenda Real e 300 marinheiros e soldados, tendo os portugueses também perdido acima de 150 homens, houve uma sedição a bordo dos navios espanhóis dirigida por um sargento de artilharia e os sediciosos obrigaram ao Tenente Coronel D. Joaquim Primo de Rivera sucessor do Conde Governador, e ao Capitão do navio D. José Varela a regressar a S. Tomé donde fizeram (viagem?) para o Rio da Prata. Assim acabou a expedição da colonização espanhola das ilhas de Ano Bom e Fernando Pó, em prejuízo de ambas as monarquias que entraram no contrato. O aviso expedido a Luís Caetano de Castro para expedição das ilhas foi datado de 19 de Fevereiro de 1779 e o abandono pelos espanhóis foi em 1780. Estes disseram que largaram a colónia e recolheram-se a Rio da Prata por temerem serem aprisionados pelos ingleses com que (m) então começavam a ter guerra.

No ano de 1810 aportou à ilha de Ano Bom um bergantim da Bahia que regressava da Costa da Mina e pretendia tomar aí alguns mantimentos para os escravos de que se achava carregado. O Capitão-mor da ilha foi logo a bordo na forma do costume para receber os presentes ou pagamento da licença de negociar e com ele foram mais cinquenta pessoas pela maior parte homens e rapazes; como ventava muito o bergantim garrou, fez-se à vela e apesar de todas as diligências não pôde tomar o porto e viu-se obrigado a conduzir aqueles homens à Ilha de S. Tomé. O Governador Luís Joaquim Lisboa recebeu e arbitrou uma pequena mesada para sustentação do Capitão-mor e a outra gente agregou-se aos seus numerosos patrícios que por motivos semelhantes ou ainda piores vivem e sustentam-se pela pescaria na ilha de S. Tomé. O Governador deu parte destes acontecimentos ao Ministério do Rio de Janeiro, o qual em conformidade da opinião do mesmo Governador ordenou que o Capitão Mor e habitantes de Ano Bom fossem conduzidos à sua terra, que fossem acompanhados por um eclesiástico, que se conhecesse o modo de pensar da população acerca do Governo português e que depois do seu desembarque fosse o navio examinar as paragens em que se diz existir ou haver existido a ilha de S. Mateus. O Governador mandou logo aprontar a escuna artilheira comandada por José Joaquim Veloso, primeiro piloto da Armada Real e pediu que se nomeasse o Padre Simão de Sousa e Oliveira para ir como missionário. Este eclesiástico homem preto muito honesto e o mais próprio que na ilha existia para tal missão, não duvidou sujeitar-se aos riscos que acompanham aos clérigos brancos ou pretos que se estabelecem na ilha de Ano Bom cujos habitantes só respeitam os Barbadinhos Italianos, talvez por serem mais circunspectos acerca das mulheres, por terem barbas compridas e por falarem uma linguagem diferente da portuguesa. A escuna saiu para a ilha de Ano Bom no fim do ano de 1811 com toda a esperança de encontrar acolhimento, porque poucos dias antes de se fazer de vela aportou a S. Tomé uma canoa com seis homens da outra ilha os quais com outros 54 indivíduos de ambos os sexos e idades foram expostos às ondas em pequenas canoas por um fanático chamado André que os acusou de crime de feitiçaria e de serem causadores do desaparecimento do capitão Mor e dos 50 homens que agora estavam para regressar à sua terra. A exposição às ondas em pequenas canoas com uma cabaça cheia de água, alguma farinha e peixe é o castigo que se dá aos indigitados como feiticeiros na Ilha de Ano Bom; a corrente da água e o vento do sul para o norte conduziu algumas vezes até à ilha de S. Tomé, a qual se avista de mais de 30 léguas (150 km?) de distância, acontecendo porém não descobrirem a ilha por estar coberta de nevoeiros perecem infalivelmente como aconteceu aos 54 lançados ao mar pelo André. Quase todos os homens e mulheres da ilha de Ano Bom que existem em S. Tomé foram expostos às ondas como feiticeiros. Basta uma voz que acuse a qualquer pessoa de feiticeira para insensivelmente ser lançada ao mar.

A escuna artilheira teve uma viagem feliz até à ilha de Ano Bom, os ilhéus vieram logo a bordo encontrando o Capitão-mor e os seus patrícios, que reputavam perdidos; foram dar parte ao fanático André que estava governando a terra desde que desaparecera o capitão-mor. O André mandou logo proibir as comunicações da gente da ilha com os do navio e muito de longe fez dizer ao Comandante que - Deus lhe tinha dito que não recebesse o capitão Mor e os seus patrícios porque tinham aprendido feitiçaria em S. Tomé e que também não recebesse o padre, porque ele só queria Barbadinhos e não Clérigos Pretos. Nestas circunstâncias o Comandante regressou com os passageiros à ilha donde tinha saído, ficando assim frustrada não só esta comissão, como também a de indagar da existência e qualidades da ilha de S. Mateus. O mencionado André fez-se aclamar Rei da Ilha de Ano Bom no ano de 1814 e tomou como insígnias reais as vestimentas de celebrar missa.

Cunha Mattos contactou com o Capitão-mor em 1815 e obteve conhecimentos sobre a ilha que se transcrevem:

Na ilha há duas povoações principais e três aldeias. A Povoação principal recebe o nome de - Cidade da Praia - tem coisa de 300 braças de comprimento (cerca de 600 metros) e 100 de largura (cerca de 200 metros); mais de 400 barracas ou choupanas cobertas de folhas de palmeiras e 5 igrejas. Perto da cidade corre um ribeiro chamado - Água Pata - o qual nasce em uma pequena lagoa que existe nas abas do Pico da Mãe Serafina; e não no cume como dizem alguns geógrafos. As igrejas da cidade são:

- 1º N. Sª. da Conceição, a que chamam Sé, construída de madeira como são todos os quatro edifícios da ilha, e nela existem várias peças de prata antigas e uma píxide, cálice e vários ornamentos novos bem conservados. Há a matriz da ilha. O Padre Fr. Agostinho de S. Maria, no Tomo 10 do Santuário mariano falando da ilha de Ano Bom informa que antigamente tivera duas paróquias dedicadas a S. João e S. Pedro; por conseguinte a velha Cidade da Praia e a Paróquia de N. Sª: da Conceição ainda não existia nesse tempo, o que me parece improvável.

- A segunda igreja da cidade é a da Misericórdia junto da qual existia um belo e pequeno Hospício dos Capuchinhos Italianos, e aí conservavam as imagens de Santo Agostinho colocado pelos Missionários Eremitas Descalços quando lá estiveram e a de Santa Isabel.

- A 3ª igreja é a de S. José;

- a 4ª é a de S. António. De todas estas dá notícia o autor do sobredito Santuário Mariano;

- Mas falta-lhe a 5ª que é dedicada a Santa Ana e por isso é de construção mais moderna. As três últimas igrejas são muito pobres.

A Povoação de S. Pedro fica ao sul da praia; é pequena e está assentada junto à ribeira denominada Água Grande. Pelo que diz o autor de Santuário Mariano, foi paroquial no tempo antigo; Cunha Mattos não acreditou por não ver a côngrua designada nas Folhas Eclesiásticas antigos e modernas; só encontrou uma disposição e a Provisão de 4 de Março de 1755 determinando que ao Vigário Missionário se abonassem na Bahia 200$000 réis de côngrua anual. A igreja desta povoação é dedicada ao Apóstolo S. Pedro e apenas tem os indispensáveis ornamentos para se dizer a missa.

As aldeias da ilha são: 1ª a de N. Sª. das Neves, 2ª Santa Cruz e 3ª São João. Esta última é a que o autor do Santuário diz ter sido antigamente paroquial, o que não se acredita salvo se se reputar como paroquial por haver ali existido algum missionário. Estas aldeias são mui pequenas e os seus habitantes vivem da pesca e de uma agricultura mui acanhada.

Além dos ribeirões já indicados com os nomes de Água Pata e Água Grande, existem muitos outros, o mais célebre deles é chamado Água Bobo ou Água Amarela da qual só os missionários podiam fazer uso por ser reputada de água sagrada.

Esta ilha que apenas tem 6 léguas de circunferência (30 km), é composta de altíssimas montanhas, a mais elevada das quais é o Pico da Mãe Serafina que se pode descobrir da distância de 20 léguas (100 km), por ter 3000 pés de altura (900 m). A direcção destas montanhas formam nas costas as duas únicas enseadas da cidade e de S. Pedro, esta entre as Pontas do Ilhéu Grande e do Palmito, e aquela entre a Ponta do Palmito e a Grossa, que compreendem a Praia Grande e Pequena. As outras costas da ilha estão cheias de recifes ou são inabordáveis por causa das rochas em que batem o mar. O porto da Praia tem 18 braças de fundo e vai diminuindo até 4 sem risco nenhum.

A leste da Ponta do Palmito ficam os Ilhéus Grande e Pequeno. Na ponta do Norte fica perto da ilha o Ilhéu Batel. A oes-noroeste há três ilhéus que parecem pirâmides ou navios á vela e são o Ilhéu Mumo, o Castelo e o Ubua. Na costa do sul entre a Água Bobo e um ribeirão chamado Rio Grande ficam três ilhotas chamadas Três Irmãos. É isto o que mostra a planta da ilha copiada do original feita pelo Capitão Tenente Francisco Montaseaur e está anexa às instruções dadas pelo Ministro da Marinha Martinho de Melo e Castro ao Capitão de Mar e Guerra Luís Caetano de Castro em 19 de Fevereiro de 1778.

A agricultura da ilha é muito pequena mas chega para os habitantes e ainda para os estranhos sobretudo no que respeita a frutas e raízes de crescimento espontâneo. Há poucos cultivadores de milho, mandioca e outros géneros leguminosos e farináceos. Muitas galinhas, patos, carneiros, cabras e porcos. Nenhuns bois nem cavalos. Não existem animais venenosos nem feras e á inúmeros cães e gatos. Encontram-se madeiras de boa qualidade e uma delas é semelhante ao pinho da Europa. O peixe é imenso e quase a única comida dos habitantes.

Antigamente teciam-se muitos e belos panos de algodão semelhantes aos de S. Tomé e Príncipe e ainda hoje se tecem mas em menor quantidade. Existem alguns maus carpinteiros e ainda menor número de péssimos ferreiros; há vários oleiros e alfaiates e dois outros remendões que se chamam sapateiros. Os navios que ali tomam mantimentos, vendem ou trocam aquilo que é necessário para uso do povo.


A linguagem dos habitantes da Ilha de Ano Bom é (era) a portuguesa corrompida pela pronunciação e pelo ajuntamento de muitos termos dos idiomas africanos. Quando falam parecem-se com os pescadores algarvios mais cerrados e arremedam menos aos habitantes de S. Tomé do que aos da Ilha do Príncipe. A sua religião é a católica romana de mistura com os abusos e superstições inumeráveis.
Todos trazem grossas contas e cruzes ao pescoço, sabem infinitas orações que recitam em voz alta pela manhã e à noite. São os mais cobardes de todos os homens, nunca se servem de facas contra os seus patrícios, as suas desordens acabam por uma gritaria insuportável e quando chegam a vias de facto acometem-se às punhadas por um modo único no universo, põe-se um contendor defronte do outro e depois aquele que reputa ter maior razão diz ao antagonista - cópá dámi, prá mi dá cópá! - Compadre dá-me para eu dar no compadre - e assim aos murros alternados se desempoeiram até haver quem os aparte. O procedimento de exporem às ondas as pessoas indigitadas de feiticeiras, prova a sua cobardia e o seu fanatismo religioso., pois não se atrevem a derramar sangue. Quase todos são bêbados preguiçosos, insignes nadadores e limpos na roupa velha de que se cobrem. Nos domingos e dias santos ajuntam-se em família, assentam fora das portas das suas choupanas e começam logo a beber enormes quantidades de vinho de palmeira.

Terminado o banquete, o licor principia a perturbar-lhes os sentidos começam uma cantilena em voz baixa e monótona a qual se vai levantando pouco a pouco como quem chora e assim prosseguem até fazerem uma insuportável berraria em que se lembram da sua terra e dos seus amigos e parentes, até que de todo perdem a razão. Neste estado muitos dão murros na cara e corpo, espojam-se, batem com as cabeças nas paredes e fazem outros desatinos próprios de homens alienados do juízo. Para eles a ilha de Ano Bom a que chamam Anibô é o Paraíso terreal, tal é o amor que os existentes na ilha de S. Tomé conservam àquela pátria donde quase todos foram expulsos e expostos às ondas como feiticeiros. São ladrões sagazes mas com pouco se contentam porque é tão grande a sua inércia que nem sabem fazer ideia da abundância como acontece a outros povos selvagens. Não trabalham sem serem obrigados pela fome e no dia de hoje não se lembram do (dia) imediato. Dizem que as mulheres são virtuosas ou recatadas sem constrangimento. Os baptizados e os casamentos fazem-se nas ocasiões de aportar na ilha algum navio que leva capelão. Vários franceses intitulando-se capelães têm ali casado e baptizado os pobres pretos para encherem os navios de mantimentos. O sacristão da igreja de Ano Bom ajunta o povo no templo nos domingos e dias santos e em lugar da missa repete várias orações análogas que sabe de cor. Há alguns papéis escritos, para este sacristão ler, em letra redonda a qual é mais bem feita do que se podia esperar. A linguagem em que estão escritos é a do dialecto da ilha. O sacristão é quem publica na igreja os dias santos, de jejum, têmporas e festas mudáveis e por isso depois o Capitão-mor é a personagem mais importante do país e recebe certos estipêndios nas ocasiões de casamentos, baptismos e funerais.

O Governo de Ano Bom é puramente militar, procedido do antigo costume dos Donatários e Capitães-mores portugueses, os quais deixaram de existir antes do ano de 1744. Logo que deixaram de ir à ilha os Capitães-mores ou Tenentes dos Donatários que ali lhe administravam as suas fazendas, teve princípio a eleição do Capitão-mor natural do país, esta eleição era feita pelos Oficiais do Conselho e aprovado pelo povo, quando porém existiam missionários, influíam estes nas eleições que em tal caso recaíam nos que eram reputados mais devotos dos religiosos. O tempo de Governo era de 3 anos, mas depois alterou-se esta ordem e o Capitão-mor governa durante o tempo em que vão à ilha 3 navios que lhe paguem ancoragem. Por este modo alguns capitães-mores governam um ano, outros mais, outros menos para que os interesses cheguem a maior número de pessoas. O Capitão-mor tem o uniforme e o bastão do estado, é uma casaca de pano vermelho grosso com galões falsos amarelos, chapéu ornado com galão, sapatos, espada e bastão dourado. Quando é eleito recebe estas regalias ou jóias do poder e faz entrega delas ao seu sucessor imediato. Os Capitães-mores logo que saem do lugar, ficam membros do Conselho, são ouvidos pelos actuais e podem ser reeleitos. Nas aldeias há juízes e comandantes para administrarem a justiça ou decidirem as pequenas questões dos vizinhos, e deles se apela para o Capitão-mor. Todos os homens são soldados e fazem guardas quando o Capitão-mor julgar necessário, as mulheres solteiras são sujeitas aos serviços públicos como em S. Tomé e Príncipe, enfim os costumes são quase semelhantes. Os moradores da Ilha de Ano Bom sabem perfeitamente que são escravos descendentes dos do Donatário e por isso mesmo temem que o Rei de Portugal queira chamá-los à escravidão, tal é o motivo de não consentirem que ali existam outras pessoas de fora da terra além dos missionários quando os há. O Capitão-mor reputa como soldo as ancoragens que recebe dos navios. Os juízes e comandantes têm direito a pequenos serviços, os missionários e sacristães ao pé do altar. Não havendo tributos, não há contabilidade e como não há processos escritos, não existem escrivães, nem tabeliães, mas há um meirinho para citarem e prenderem os refractários. As posses dos terrenos são conhecidas pelas balizas e a tradição serve de escritura pública. Antigamente havia uma fortaleza no monte contíguo à povoação chamada Cidade da Praia. Os holandeses destruíram-na e é aí que ainda em 1813 se arvorava a bandeira portuguesa antiga com a Cruz de Cristo. (nesta data não era a ilha já espanhola?).

Ignora-se absolutamente o número dos habitantes da ilha de Ano Bom, mas pelo que me disse o Capitão -mor é provável que não excedam a duas mil almas ou ainda um menor número pois que ele contava 352 famílias tanto nas povoações como espalhados pelas roças. Eu não posso afiançar o cálculo do Capitão-mor pois que era um homem extremamente ignorante, ainda que entre os seus passava por um político (Grande Gente) abalizado. Bem se sabe que um selvagem pode ser o primeiro em conhecimento na sua nação e contar-se como o último em outro povo mais civilizado. Dizem que antigamente existiram famílias brancas na ilha, mas no ano de 1814 restavam só 4 mulheres pardas, talvez filhas dos estrangeiros que ali aportaram. Eu penso que estas famílias brancas eram pessoas pobres pois que não restam monumentos que atestem uma mediana opulência dos antigos moradores e é mui provável que os donatários tivessem poucos engenhos de açúcar. O autor do Santuário Mariano impresso no ano de 1722 diz que nesta ilha existiam mais de 700 homens e que as mulheres, meninas e mulatas seriam algumas duas mil. A diminuição que tem havido nos moradores talvez proceda do bárbaro e frequente costume de lançarem ao mar ou expatriarem os indivíduos acusados de serem feiticeiros. O clima da ilha é mui benigno e saudável por se achar longe da terra firme, gozar de ventos frescos e ser refrigerada pelos vapores das águas do oceano mais puras do que as que banham as costas do Golfo do Benim, que recebem as matérias pútridas arrojadas pelos inumeráveis e caudalosos rios existentes desde o Cabo das Duas Pontas até ao de Santa Catarina. Eu penso que os efeitos do Hermatan ou Vento Norte que é no Golfo do Benim e em outros lugares da Costa da África não alcançam a ilha de Ano Bom. Um escritor Mr. Bother diz que há 3000 habitantes.

Eis aqui o que Cunha Mattos conseguiu saber a respeito desta ilha cujos habitantes reputando-se livres, são os mais desgraçados homens do universo, tanto pelo abandono em que se acham, como pelo fanatismo religioso, que barbaramente os vai extinguindo. O mesmo Mattos pensava que esta ilha seria um excelente lugar para estabelecer muitos milhares de africanos livres de que o Brasil precisava de ser expurgado (Espanha pretendeu fazer isto levando de Cuba para Fernando Pó os libertos que lá havia em excesso) tanto por ser mui salubre, como ter grandes proporções para uma cultura.

 Ano Bom

É uma pequena ilha pertencendo actualmente à Guiné Equatorial, localizada a sudoeste e a cerca de 180 km de S. Tomé. Tem de comprimento máximo 6,4 km e de largura 3,2 km., sendo a sua área de 17,5 km2. Tem de população cerca de 5.000 habitantes e como capital S. António da Praia.

Pensa-se que a ilha foi descoberta por exploradores portugueses sob o comando de Fernão Pó, a caminho da Índia em 1473, tendo sido povoada com angolas em 1474.

Em 1778 foi dada a Espanha juntamente com a Ilha de Fernão Pó (actual Bioko) e toda a costa da Guiné em troca dos territórios espanhóis junto ao Brasil. Fez parte da Guiné Espanhola desde essa data, com a Ilha de Fernão Pó, as ilhas de Corisco, Elobey Grande e Elobey Pequeno, junto à costa da Guiné Equatorial.

Em 1968 a Guiné Espanhola emancipou-se de Espanha, formando o estado da Guiné Equatorial.

Actualmente tem o nome de Pigalu ou Pagalu que quer dizer papagaio em português. Devido à distancia de Bata, capital da Guiné Equatorial, e à proximidade de S. Tomé é natural que mantenha os laços culturais com Portugal O idioma é o espanhol mas o mais usado é o Fá-d’Ambô derivado do português e do crioulo antigo. Na data presente em Ano Bom ou Annobon, não há água corrente, electricidade, televisores, refrigeradores, hotéis, nem transportes regulares. O alimento básico é o peixe com arroz importado. Há muita fruta tropical.

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