terça-feira, 10 de dezembro de 2013

" viagem de Vasco da Gama à Índia"

Em actualização....
O diário da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, entre 1497 e 1499, foi aceite pela UNESCO e integra agora a lista dos Registos da Memória do Mundo desta instituição.
Vasco da Gama, pintura autor desconhecido
O diário, que é atribuído a Álvaro Velho, é propriedade da Biblioteca Municipal do Porto e esteve já ali exposto. É possível fazer uma leitura online destes diários através da colecção Gâmica da Biblioteca Digital da Universidade do Porto.
O reconhecimento do diário da viagem de Vasco da Gama como Registo da Memória do Mundo resultou de uma análise, juntamente com mais de 80 outras inscrições, submetida ao Comité Internacional do Programa Memória do Mundo, que está reunido até sexta-feira em Gwangju, na Coreia do Sul. 
A candidatura do diário terá sido entregue com a premissa de fornecer um "testemunho da viagem marítima pioneira (...), um dos documentos decisivos que mudaram o curso da história". Para além do recente reconhecimento do diário de Vasco da Gama, outros três documentos portugueses, que fazem parte do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), já integravam o Registo Memória do Mundo.
rota da descoberta do caminho marítimo para a Índia da frota de Vasco da Gama, por Gago Coutinho
São estes a carta de Pêro Vaz de Caminha ao rei de Portugal D. Manuel I sobre a chegada ao Brasil (Terra de Vera Cruz, Brasil, 1 de maio de 1500),
local onde a guarnição de Vasco da Gama fundeou frente a Calecut, Índia a 21 de Maio de 1498
O Tratado de Tordesillas (na versão castelhana), de 7 de Junho de 1494, assim como um conjunto de 83.212 documentos, que datam de 1161 a 1699, que visam, segundo o ANTT, a "informação e esclarecimento sobre as relações entre os europeus, sobretudo as dos portugueses com os povos africanos, asiático e latino-americanos".
Torre de Belém, Lisboa, obra-prima do estilo manuelino, foi construída entre 1515 e 1521 na margem direita do rio Tejo sob o traço do arquitecto Francisco de Arruda. Foi concebida como baluarte mas tem uma elegância sóbria. Há muito que deixou de ter a sua função de defesa da barra do Tejo e durante a dinastia filipina foi usada como masmorra. A torre tem quatro pisos, com a Sala do Governador, dos Reis, de Audiências e a Capela que mantém as suas abóbadas quinhentistas. O pormenor que mais atrai os turistas é o rinoceronte esculpido em pedra. Em 1983 foi classificada pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade. 
mosteiro dos Jerónimos, Lisboa
Entre as 54 candidaturas agora reconhecidas pelo comité constam os escritos de juventude de Che Guevara e os arquivos do arquitecto brasileiro Óscar Niemeyer.
 A descoberta do caminho marítimo para a  Índia,  o dia a dia da viagem de Vasco da Gama:

08 Julho 1497 - cerca de 150 homens embarcam no Restelo nos quatro navios da armada de que é capitão-mor Vasco da Gama, então com uns 30 anos. À sua nau é a "São Gabriel", com o piloto Pêro de Alenquer, a nau "São Rafael" tem por capitão o seu irmão Paulo da Gama, e piloto João de Coimbra; a "Bérrio " uma caravela tem por capitão Nicolau Coelho e piloto Pêro Escolar: uma nau com um suplemento de mantimentos, leva por capitão Gonçalo Nunes.
15 Julho - a armada passa pelas ilhas Canárias
16 Julho - pescaria frente à Terra Alta dispersando-se depois a armada, frente ao rio de Ouro, devido a nevoeiro.
23 Julho - os navios começam a reagrupar-se na ilha do Sal, arquipélago de Cabo Verde.
27 Julho - a armada de novo reunida faz escala na ilha de Santiago, recolhendo-se a bordo carne, água e lenha.
03 Agosto - a armada deixa o arquipélago de Cabo Verde e começa uma larga volta pelo Atlântico Sul.
04 Novembro - os portugueses voltam a avistar terra na África do Sul.
07 Novembro - a armada chega à Angra de Santa Helena, onde os navios são limpos, recolhendo-se aí lenha e água.
 baía de Stª Helena, África do Sul, local do desembarque da guarnição da frota de Vasco da Gama a caminho da Índia
12 Novembro - incidente com os indígenas, que atacam os portugueses ferindo Vasco da Gama, depois de Fernão Veloso ter ido para  o interior com eles, no desejo de conhecer as suas formas de vida.
16 Novembro - partida de Angra de Santa Helena.
22 Novembro - o cabo da Boa Esperança é ultrapassado.
25 Novembro - chegada à Angra de São Brás, onde se faz aguada e foi destruída a nau dos mantimentos, depois destes serem distribuídos pelas outras embarcações.
06 Dezembro- colocação dum padrão e de uma cruz na Angra de São Brás. Foram destruídos no dia seguinte.
07 Dezembro - partida da Angra de São Brás.
12 Dezembro - grande tempestade.
15 Dezembro - chegada aos ilhéus Chãos.
17 Dezembro - chegada ao rio Infante, o último sítio descoberto pela guarnição de Bartolomeu Dias, 12 de Março de  1488.
25 Dezembro - chegada à Terra do Natal.

11 Janeiro 1498 - chegada à Terra da Boa Gente, junto do rio do Cobre (Inharrime), onde a armada esteve cinco dias fazendo aguada e onde os indígenas se revelaram amistosos.
24 Janeiro - A "Bérrio" chega ao rio dos Bons Sinais (Quenimane). No dia seguinte entram as duas naus nesse rio. Os navios são depois limpos em terra, onde foram vistos indícios de que se aproximavam de um mundo  onde havia comércio rico. Antes de partirem Vasco da Gama mandou colocar em terra o padrão São Rafael.
24 Fevereiro -  A aramada deixa o rio dos Bons Sinais.
25 Fevereiro - descoberta das Ilhas Primeiras
01 Março - chegada à ilha de Moçambique. Esta ilha estava integrada na rede muçulmana de comércio do Índico e Vasco da Gama começou então a enfrentar adversidades resultantes das reacções hostis dos muçulmanos.
11 Março - missa no ilhéu de São Jorge (actualmente de Goa).
23 Março - escaramuça em frente da ilha de Moçambique, devido aos indígenas pretenderem impedir os portugueses de ali fazerem aguada.
29 Março - a armada deixa o ilhéu de São Jorge levando dois pilotos muçulmanos  embarcados, os quais tinham o propósito de conduzir os navios a um local onde pudessem ser atacados por uma potência islâmica da África Oriental.
06 Abril - depois da armada passar ao largo de Quilóa a nau "São Rafael" encalha no baixio que ficou com o seu nome.
07 Abril - chegada a Mombaça
10 Abril - a armada não consegue entrar no porto de Mombaça e os pilotos muçulmanos fogem dos navios portugueses, que, nessa noite, escapam a uma tentativa de assalto.
13 Abril - a armada deixa Mombaça.
14 Abril - são capturados os tripulantes de uma embarcação local. A aramada chega a Melinde.
18 Abril - Vasco da Gama encontra-se no batel  da sua nau com o rei de Melinde, que recebe cordialmente os portugueses.
22 Abril - embarca um piloto guzarate n armada portuguesa, que a passa a orientar durante a travessia do Índico.
24 Abril - a armada deixa Melinde iniciando a travessia do Oceano Índico.
18 Maio - a guarnição de Vasco da Gama avista " uma terra alta": era o Monte Deli. Tinha chegado à Índia.
20 Maio - a armada chega frente a Capua (Kappad), que o piloto guzarate confunde com Calecute.
 encontro de Vasco da Gama com o Samorim 
21 Maio - chegada a Calecute e desembarque de um degradado, que ali se deparou com dois mouros de Tunes, conhecedores da língua castelhana, a quem comunicou que o objectivo da viagem era encontrar cristãos e especiarias". Em apenas duas palavras resumiam-se os parâmetros religiosos e económicos que estavam subjacentes à missão de Vasco da Gama.
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Depois de meio século de viagens de reconhecimento ao longo da costa de África, os Portugueses chegam por fim ao Oriente, numa significativa¬¬¬ viagem de 13000 milhas de Lisboa à costa do Malabar. O êxito desta arrojada missão de dois anos põe termo ao monopólio árabe do lucrativo comércio de especiarias e instaura o poder europeu no Extremo Oriente, que se manteria por quatro séculos.
Pouco se conhece acerca dos primeiros anos de vida de Vasco da Gama, após o seu nascimento em Sines, em 1460. O seu pai fora escolhido pelo rei D. João II para comandar uma expedição à Índia, passando pelo Cabo da Boa Esperança, mas ambos morreriam antes que pudessem concretizar os seus planos. O novo rei, D. Manuel I, encarregou Vasco da Gama de empresa semelhante, pelo que uma frota composta por quatro navios largou de Portugal a 8 de Julho de 1497. A 20 de Maio de 1498, Vasco da Gama chegava a Calecute (hoje Kozhikode), na costa do Malabar, na Índia. Aí contactou com o soberano local, adquiriu uma quantidade razoável de especiarias e regressou a Lisboa como um herói. Vasco da Gama voltou à Índia duas vezes, a última das quais, em 1524, como vice-rei. Morreu nesse mesmo ano em Cochim. Ainda hoje, em Portugal, é considerado um herói nacional.
A missiva que o rei D. Manuel I recebeu em Julho de 1499 dizia sem mais preâmbulos “Vasco da Gama, fidalgo da vossa casa, veio à minha terra, com o que eu folguei. Em minha terra há muita canela, e muito cravo, e gengibre, e pimenta e muitas pedras preciosas. E o que eu quero da tua é ouro, e prata, e coral e escarlata.”
Esta breve mensagem, escrita numa folha de palmeira, fora ditada pelo samorim de Calecute, cidade da Costa Ocidental da Índia, distando de Lisboa mais de 13000 milhas por mar. Oferecia a primeira oportunidade de estabelecer o comércio directo entre o Oriente e o Ocidente.
Esta notícia entusiasmou D. Manuel. Desde 1493 que a Espanha se vangloriava das cartas de Cristóvão Colombo. Mas este, depois de três viagens ao que pensava serem as Índias, não encontrava especiarias, mas apenas quantidades mínimas de ouro. Agora os navios portugueses tinham descoberto um caminho marítimo directo para a verdadeira Índia, e como prova haviam regressado com amostras de especiarias e de pedras preciosas de toda a espécie.
D. Manuel, jubiloso, apressou-se a comunicar estas boas novas a Fernando e Isabel de Espanha: “Mui altos e excelentes Príncipes, e muito poderosos Senhores!
Sabem Vossas Altezas como tínhamos mandado a descobrir Vasco da Gama, fidalgo da nossa casa, e com ele Paulo da Gama, seu irmão, com quatro navios pelo oceano; os quais agora já passava de dous anos que eram partidos…Por um dos capitães que a nós a esta cidade ora é chegado, houvemos: que acharam e descobriram a Índia e outros reinos…acharam grandes cidades…nas quais se faz todo o trato de especiaria e de pedraria…”
Tal como D. Manuel esperava, a notícia espalhou-se pela Europa com a velocidade de um relâmpago. Como dizia um comerciante florentino que vivia em Lisboa, numa carta a um amigo em Itália: “…parece ter sido agora descoberta toda a riqueza do Mundo”.
No decurso dos 150 anos anteriores, todas as mercadorias provenientes do Oriente e destinadas a ser vendidas na Europa eram transportadas através do mar da Arábia por indianos, árabes ou persas. Trazidas por mar desde a Índia, até ao Golfo Pérsico e até ao Mar Vermelho, seguiam depois em caravanas até Alexandria e outros portos do Mediterrâneo Oriental. Aí, eram compradas por mercadores venezianos e genoveses para serem vendidas por toda a Europa. Agora, Portugal descobrira uma rota quer lhe permitia dispensar todos os intermediários e adquirir as pedras preciosas e as especiarias directamente na sua origem.
Portugal não o conseguira, porém, com uma viagem apenas. Havia quase um século que os seus navios avançavam cada vez mais para sul, ao longo da desconhecida costa ocidental de África, em busca do extremo sul deste continente. Em 1488, Bartolomeu Dias encontra-o finalmente mas, depois de dobrar o cabo da Boa Esperança, acedera às exigências da sua tripulação assustada e regressara.
Este sinal de fraqueza poderá ter levado o rei a ignorar o experiente Bartolomeu Dias e a escolher Vasco da Gama para comandar a nova expedição que iria contornar África, subir a sua costa oriental e aventurar-se em seguida no desconhecido Oceano Índico ao rumar ao portos buliçosos do Oriente. Embora pouco se conheça acerca dos primeiros anos da carreira de Vasco da Gama, era por certo um chefe resoluto e um marinheiro experiente. Todas as narrativas da época o descrevem como um homem duro, autoritário e “terrivelmente violento quando encolerizado”.
A frota que Vasco da Gama chefiou era a maior e mais bem organizada das expedições portuguesas de exploração marítima. Duas das quatro naus haviam sido construídas especialmente para esta missão, sob as ordens do experiente Bartolomeu Dias. Estavam armadas com canhões e aparelhadas com as mais modernas cartas náuticas e instrumentos de navegação existentes à data. A S. Gabriel, sob o comando de Gonçalo Álvares, era a nau capitania de Vasco da Gama. Paulo da Gama, seu irmão, comandava a S. Rafael, e Nicolau Coelho, a Bérrio. O quarto navio, destinado ao transporte dos mantimentos, seguia sob o comando de Gonçalo Nunes, que, uma vez esgotadas as provisões, teria a triste missão de afundá-lo.
Contudo, vendo carregar esta nau, ninguém acreditaria que alguma vez chegasse o momento de a afundar. Pela prancha de embarque entraram barrica após barrica de vinho e de água, tonelada após tonelada de alimentos, como bolachas, peixe seco e carnes salgadas, de porco e de vaca; e até mesmo algumas iguarias, como mel, açúcar, alho, ameixas e amêndoas.

Enquanto se carregava o navio das provisões, Vasco da Gama ocupava-se em recrutar marinheiros. Calcula-se que as tripulações somariam um total de 118 a 170 homens, incluindo alguns veteranos da viagem de Bartolomeu Dias. Além dos marinheiros, soldados, carpinteiros e cordoeiros habituais, levavam ainda sacerdotes, intérpretes e até mesmo corneteiros. Iam também alguns degredados e condenados à morte, que seriam incumbidos de missões particularmente arriscadas em terra. Se fossem bem sucedidos, ser-lhes-ia concedido o perdão no seu regresso a Portugal.
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O embarque realizou-se num sábado, 8 de Julho de 1497, e foi um espectáculo impressionante. Luís de Camões, que descreveu esta viagem, exprimiu o orgulho da multidão que se juntou naquela manhã nas areias brancas do Restelo para lhes desejar boa sorte:

Os Portugueses somos do Ocidente,
Imos buscando as terras do Oriente.

A armada largou finalmente quando, à tardinha, se levantou uma brisa fresca. Os navios deslizaram lentamente, rio abaixo, rumo ao Atlântico. E então, nas palavras de Camões:

Já a vista, pouco a pouco, se desterra
Daqueles pátrios montes que ficavam;
………………………………………………………
E, já depois de toda se escondeu,
Não vimos mais, enfim, que mar e céu.

Na primeira parte da viagem, Vasco da Gama seguiu a rota habitual dos navios mercantes portugueses: para Sul, ao longo da costa marroquina; depois das Canárias, rumo às ilhas de Cabo Verde – onde fizeram escala para proceder a reparações e para se reabastecerem de mantimentos e de água potável – e seguidamente para sudeste, a fim de contornar o grande bojo de África. Contudo, algures nas proximidades da Serra Leoa, um pouco a Norte do Equador, Vasco da Gama afastou-se da costa. Ciente das correntes e dos ventos contrários que retardavam o avanço dos navios que tentam navegar junto ao litoral desde aquele ponto até ao cabo da Boa Esperança, guinou resolutamente a sudeste e aproou ao azul vazio do Atlântico.

A sua decisão revelou-se acertada. Com efeito, os ventos e correntes do Atlântico sul são tais que a melhor rota para a África Meridional descreve um arco gigantesco ao largo da costa. Vasco da Gama e a sua armada, navegando para sudoeste, cruzaram o equador pelos 19º de longitude oeste, chegando provavelmente a cerca de 600 milhas do litoral do Brasil, ainda por descobrir, antes de rumarem de novo a sudeste.

A manobra de Vasco da Gama, além de surpreendente, inquietara sem dúvida as tripulações. Com efeito, desde a largada das ilhas de Cabo Verde, a 3 de Agosto, haviam decorrido três meses sem avistarem terras, um recorde para a época. No entanto, a 22 de Outubro, algumas aves voando para sudeste, “como aves que iam para terras” deram novo alento àqueles marinheiros abatidos. A 27 de Outubro, foram avistadas focas e baleias; a 1 de Novembro, algas “que nascem ao longo da costa”; e por fim, a 4 de Novembro, distinguia-se a costa ocidental de África.

 baía de Stª Helena, África do Sul, local do desembarque da guarnição da frota de Vasco da Gama a caminho da Índia
Quatro dias mais tarde, a armada lançava ferro nas águas abrigadas da baía de Santa Helena, cerca de 125 milhas a Norte do cabo da Boa Esperança. Aí, os Portugueses contactaram pela primeira vez com os indígenas sul-africanos. De acordo com o único relato existente de uma testemunha ocular (um diário escrito provavelmente por um soldado, Álvaro Velho), um grupo desembarcou, capturou um nativo e trouxe-o para bordo do navio de Vasco da Gama, “o qual o pôs consigo à mesa e de tudo o que nós comíamos comia ele”. “E ao outro dia”, prossegue o narrador, “o capitão o vestiu muito bem e o mandou pôr em terra”. A História não regista a forma como reagiram os companheiros daquele hotentote quando este se lhes juntou, vestindo um gibão e uns calções portugueses. A oferta deste vestuário parece ter vencido qualquer timidez, e em breve grupos de hotentotes se aventuravam até à praia, onde durante três dias sucessivos negociaram com os marinheiros. A certa altura, porém, surgiu uma disputa quando um dos marinheiros ofendeu de qualquer modo alguns africanos que o tinham convidado para comer com eles, e vários portugueses, incluindo Vasco da Gama, ficaram feridos por lanças que os indígenas, enfurecidos, lhes atiraram.

Este incidente revelar-se ia profético. O bom acolhimento inicial seguido por hostilidade seria uma constante que marcaria quase todas as etapas da viagem de Vasco da Gama para a Índia.

Depois de oito dias a limpar os navios, a remendar as velas e a recolher lenha, a frota zarpou da baía de Santa Helena e dirigiu-se para o cabo da Boa Esperança. A 18 de Novembro, os navegantes avistaram o monte Mesa e a península do Cabo. Mas no enorme promontório o tempo estava tempestuoso, pelo que só ao fim de quatro dias foi possível dobrar o cabo, a 22 de Novembro.
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A 25 de Novembro, Vasco da Gama fundeou na angra de São Brás, actual baía de Mossel, cerca de 300 milhas a leste do cabo, para se reabastecer de água potável e levantar o primeiro padrão. Retirou também as provisões que restavam do navio de mantimentos e destruiu-o. Ali permaneceram os permaneceram os portugueses até 8 de Dezembro, abastecendo-se, calmamente, de água. No entanto, pouco antes de largarem, viram um grupo de nativos enfurecidos deitar abaixo o padrão que Vasco da Gama erigida na praia.

Prosseguindo para leste ao longo do extremo sul de África, a expedição passou, a 16 de Dezembro, junto ao último padrão que Bartolomeu Dias erigira em 1488 e que agora surgia cinzento-dourado e altaneiro na escarpa arenosa do cabo Padrão. Nesse mesmo dia passaram junto à foz do rio do Infante (Great Fish River), onde Bartolomeu resolvera voltar para trás. Daí em diante, a linha de costa bela e bem arborizada inflectia convidativamente para nordeste.

No dia de Natal, o cronista de Vasco da Gama escreveu com satisfação no seu diário: “tínhamos descoberto por costa 70 léguas – cerca de 400 Km – a que Vasco da Gama deu o nome de Natal em honra do nascimento de Cristo”. Porém, em breve as reservas de água encontravam-se tão escassas que os alimentos tinham de ser cozinhados em água salgada e a ração de água diária para cada homem foi reduzida para menos de meio litro. Navegando em busca de um porto onde pudessem renovar a provisão de água doce e proceder a reparações, fundearam junto à baía de Alagoa, no limite meridional do actual país Moçambique, nos princípios de Janeiro, e aí permaneceram cinco dias. Desta vez, e excepcionalmente, as relações entre Vasco da Gama e os nativos mantiveram-se cordiais durante toda a visita. Impressionado pela cortesia dos seus anfitriões, negros de estatura elevada, deu a esta região o nome de Terra de Boa Gente.

A 25 de Janeiro, lançaram ferro no amplo porto junta da actual cidade de Quelimane, já bem para o Norte na costa de Moçambique. Aí demoraram-se um mês, fazendo provisão de água, limpando os cascos dos navios e consertando um mastro partido. Embora as margens do rio que desembocava na baía apresentassem “grandes arvoredos, os quais dão muitas frutas, de muitas maneiras, e os homens desta terra comem delas, não parece que os portugueses tenham aproveitado este suprimento natural de vitamina C, pois, em breve, numerosos tripulantes sofriam de escorbuto. Camões descreve com realismo os terríveis efeitos deste mal:

Que tão disformemente ali lhe incharam
As gingivas na boca, que crescia
a carne e juntamente apodrecia
O escorbuto seria o flagelo dos marinheiros de longo curso durante, pelo menos, os dois séculos seguintes.

Durante a sua estadia em Quelimane, Vasco da Gama sentiu-se encorajado pelos indícios de que alcançara a periferia do domínio comercial árabe. Com efeito, alguns nativos, em vez de andarem nus ou de se cobrirem com peles de animais, usavam tecido de algodão. Dois negros, evidentemente de origem muçulmana, que usavam barretes, um “com uns vivos lavrados de seda; e outro de cetim verde”, aproximaram-se dos portugueses oferecendo tecidos para troca. Mais interessante ainda foi o que ouviram a um rapaz que acompanhava aqueles negros e que “era de outra terra daí longe; e dizia que já vira navios grandes, como aqueles que nós levávamos”. Vasco da Gama, compreendeu que o rapaz estaria com certeza a referir-se aos navios mercantes árabes. Animado por estes indícios de que se aproximava do seu destino, Vasco da Gama chamou ao rio que desagua no porto de Quelimane, rio dos Bons Sinais.
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A 24 de Fevereiro, a armada prosseguiu ao longo da costa, de aspecto cada vez mais tropical. Seis dias mais tarde, já a meio caminho da costa oriental de África, os portugueses avistaram uma baía que a ilha de Moçambique dominava. Apercebiam-se agora claramente de que se encontravam em águas percorridas pelos navios árabes. Na realidade, naquela ilha, em vez de uma aldeia de guardadores de gado e de camponeses, deparou-se-lhes uma cidade plena de actividade e repleta de prósperos mercadores negros, vestindo túnicas de algodão e linho com riscas multicores e com barretes de seda bordados a ouro. No porto encontravam-se vários navios costeiros árabes, de grandes dimensões, proas erguidas, tabuado liso e velame latino.

Em breve, os portugueses descobriam que aqueles navios estavam carregados de “ouro, prata, e cravo, e pimenta, e anéis de prata com muitas pérolas, e aldôfar  e rubis”. Para grande satisfação dos crédulos europeus, os africanos informaram-nos de que na Índia todos estes artigos eram tão abundantes que não havia necessidade de os comprar, pois podiam ser apanhados em cestos…

Daí a pouco, o sultão de Moçambique visitava a “São Gabriel”, onde Vasco da Gama o obsequiou com um repasto abundante e lhe ofereceu chapéus, vestes, corais e outros presentes; mas, segundo escreve o cronista de Vasco da Gama, o poderoso sultão era “tão alterado que desprezava quanto lhe davam”. Mais tarde, ao descobrir que os seus visitantes não pertenciam a qualquer estranha seita de muçulmanos mas eram cristãos, a sua recepção, inicialmente fria, tornou-se decididamente glacial. Não obstante, esta reunião não redundou num fracasso completo, pois antes de largar de Moçambique, Vasco da Gama, conseguiu que o sultão lhe cedesse dois pilotos árabes para o troço final da viagem.

Assim, a 11 de Março, Vasco da Gama levantou ferro e rumou a Norte. Porém, a força das correntes em breve arrastava os seus navios de regresso a Moçambique, onde foi obrigado a permanecer duas semanas aguardando ventos favoráveis. Entretanto, a hostilidade declarou-se abertamente – mais uma vez por motivo de abastecimento de água potável para os navios – e os portugueses bombardearam a cidade antes de se fazerem ao largo, a 29 de Março.

Navegando agora com o auxílio dos pilotos árabes, a frota chegou a 7 de Abril a Mombaça, na costa do Quénia, e ancorou ao largo, pois Vasco da Gama, receoso de uma cilada, hesitava em levar a sua armada para o porto. Os seus receios eram, com efeito, justificados. Nessa noite, um grupo de 100 homens armados tentou assaltar os navios para averiguar se seria fácil capturá-los. Torturando alguns cativos, Vasco da Gama conseguiu saber que o rei tivera conhecimento do bombardeamento de Moçambique e estava ansioso por aliciar os portugueses a entrarem no porto para os capturar, em retaliação do ataque ao seu aliado.
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Embora no dia seguinte o rei de Mombaça tivesse enviado presentes – incluindo grandes quantidades de laranjas que rapidamente curaram os tripulantes vítimas de escorbuto – e Vasco da Gama, por sua vez, lhe tivesse oferecido um colar de coral, os portugueses mantiveram-se na sua recusa de entrar no porto. Apesar de uma segunda tentativa levada a cabo pelos muçulmanos na noite de 10 de Abril, no intuito de danificarem os navios, Vasco da Gama, numa atitude de provocação, permaneceu ainda dois dias ao largo do porto de, a 13 de Abril, zarpar de novo.

No dia seguinte, ao cair da tarde, a armada aportou a Melinde, a sua última escala em terras africanas. A cidade, com as suas casas caiadas de branco, cercadas de palmeiras e de searas, impressionou favoravelmente os portugueses. A visita de nove dias foi uma pausa agradável.

O sultão, afinal, era inimigo do sultão de Mombaça, e na sequência de uma troca de presentes, prometeu a Vasco da Gama um outro piloto e tudo o que ele necessitasse. Seguiu-se um encontro nas águas do porto, o rei a bordo de um navio costeiro de um mastro e Vasco da Gama num escaler especialmente engalanado para o efeito. O aspecto do sultão era imponente. Sentado numa cadeira de bronze almofadada sob um guarda-sol escarlate, usava “uma opa de damasco forrado de cetim verde” e um turbante ricamente bordado. Acompanhavam-no um pajem e músicos que tocavam pequenas trombetas e “duas buzinas de marfim da altura de um homem, e eram muito lavradas e tangiam por um buraco que têm no meio, as quais buzinas concertam com os anafis no tanger”. O encontro prolongou-se por três horas e, não obstante a evidente boa vontade do rei, o capitão-mor, desconfiado, recusou-se a desembarcar. No entanto, o rei divertiu a tripulação com uma exibição de arte de cavalgar que se desenrolou na praia.

Os portugueses, contudo, estavam mais interessados noutros visitantes estrangeiros que encontraram no porto: quatro navios tripulados por mercadores indianos procedentes da Índia. Ao longo da costa, a sua curiosidade fora aguçada por histórias de terras cristãs no interior de África e a certa altura tinham mesmo tido esperança de descobrir o reino do Preste João, um lendário potentado cristão que se dizia viver algures na África Oriental (existia, na realidade, um reino cristão na Etiópia). Assim, quando, por engano, os indianos se inclinaram e rezaram perante um altar cristão que existia num dos navios portugueses e saudaram Vasco da Gama com gritos de “Krishna” – que aos portugueses teria soado algo parecido com a palavra “Cristo” - estes concluíram com optimismo que os visitantes eram realmente cristãos como eles. Por sua vez, os indianos parecem ter pensado que os portugueses eram hindus. Com o assentimento do sultão, uma noite organizaram uma festa com salvas de canhões e um espectáculo de fogo-de-artifício para distrair a tripulação.

A sucessão constante de festejos, combates simulados e exibições musicais em terra agradava à tripulação, mas Vasco da Gama começava a impacientar-se. O sultão parecia não se apressar em lhes dar o piloto que lhes prometera. Com a sua brusquidão característica, Vasco da Gama tomou medidas drásticas. A 22 de Abril, aprisionou um criado da corte e manteve-o como refém. O sultão reagiu de imediato, enviando-lhe um piloto experiente, cuja presença a bordo da “São Gabriel” assegurava praticamente o êxito da parte final da missão de Vasco da Gama. Finalmente, após quase dez meses de viagem, os portugueses podiam agora descansar entregues às mãos experimentadas daquele piloto.

Largando de Melinde a 24 de Abril, a frota aproveitou a monção de sudoeste, que, nos meses de Primavera e de Verão, sopra com regularidade no oceano Índico da África para a Índia; no Inverno, estes ventos sopram em sentido inverso, o que permitia o vaivém dos navios mercantes árabes que cruzavam o oceano Índico. Impelidos por aquela viração suave, os navios completaram a última etapa da viagem – numa distância de quase 2.500 milhas – em menos de um mês. Por fim, a 18 de Maio de 1498, os marinheiros postados no alto das mastros descobriram terra à proa e, nas palavras de Camões:

Disse alegre o piloto Melindano:

“Terra é de Calecu, se não me engano;

Calecute, a actual Kozhikode, era naquela época o mais rico e poderoso dos portos que se alinhavam ao longo da luxuriante costa do Malabar, próximo do extremo Sul da Índia.

Os seus grandes armazéns e inúmeras lojas estavam a abarrotar de todas aquelas mercadorias exóticas por que os portugueses ansiavam: sedas e porcelanas finas; pérolas, safiras e rubis; ouro e prata, e grandes sacos cheios de cravinho, noz-moscada, canela, pimenta, gengibre e outras especiarias aromáticas.

E foi neste mercado da Ásia, velho de séculos, que penetrou o primeiro emissário de Vasco da Gama, um dos condenados que viera na frota para o desempenho de missões arriscadas. Tendo-se cruzado com dois mercadores árabes de Tunes que falavam o castelhano, ficou admirado por o saudarem com as palavras: “Ao diabo que te dou! Quem os trouxe cá?”. “Viemos”, explicou o condenado, “em busca de cristãos e de especiarias”. Em seguida, depois de uma pequena volta pela cidade, os árabes, lavaram-no para casa, onde o receberam com grande hospitalidade e lhe ofereceram alimentos antes de regressarem com ele ao navio. Aí, um deles exclamou: “Buena ventura, buena ventura; muitos rubis, muitas esmeraldas. Muitas graças deveis de dar a Deus, por vos trazer à terra onde há tanta riqueza”.

Surpreendido e encantado, Vasco da Gama enviou uma mensagem ao samorim, ou rei, de Calecute, anunciando-lhe ser embaixador do rei de Portugal e portador de cartas para apresentar. Alguns dias depois, recebeu notícia de que o samorim lhe concedia uma audiência. Cercado por treze guarda-costas que envergaram as suas melhores roupas e transportavam bandeiras e trombetas, o capitão-mor instalou-se com imponência num palanquim que fora posto à sua disposição.

Avançando em direcção a Calecute, os portugueses causaram grande sensação. “E fomos o nosso caminho, onde a gente era tanta, que nos vinha a ver, que não tinha conto”, escreveu o cronista de Vasco da Gama. Porém, antes de alcançarem o palácio do samorim, os portugueses foram conduzidos a um templo hindu da “grandura de um mosteiro”, onde mais uma vez se verificou um equívoco no que respeita a religião. A “igreja” estava ornamentada com figuras que os exploradores tomaram por santos, que “estavam pintados pelas paredes da igreja, os quais tinham diademas; e a sua pintura era em diversas maneiras, porque os dentes eram tão grandes que saíam da boca uma polegada, e cada santo tinha quatro ou cinco braços”. No centro do templo, via-se um santuário com a imagem de uma deusa-mãe hindu. Julgando que a imagem representava a Virgem Maria, Vasco da Gama levou seus homens a rezarem diante dela, o que muito agradou aos sacerdotes hindus que se encontravam presentes.

Subindo de novo para o palanquim, Vasco da Gama prosseguiu ao som dos tambores e das flautas hindus “e assim levaram o capitão com muito acatamento, escreveu o cronista, “tanto e mais do que se podia em Espanha fazer a um rei”. Por esta altura, já a multidão era tão grande que alguns espectadores até subiam aos telhados para ver os estrangeiros. Por fim, estes chegaram ao palácio. Entrando por um portão, atravessaram um amplo pátio e seguiram de sala em sala até que, num pequeno pátio interior, se lhes deparou o samorim com uma taça dourada na mão, recostado entre almofadas num leito de veludo sob um dossel dourado.

Vasco da Gama saudou delicadamente o rei, que por sua vez ofereceu aos visitantes algumas frutas exóticas, incluindo uma “que é como os figos e sabe muito bem” – era uma banana. Após esta troca de cumprimentos, Vasco da Gama proferiu um discurso em termos grandiosos. Disse representar um rei cuja riqueza excedia tudo o que existia naquela região do Mundo; que desde há 60 anos que Portugal vinha procurando um caminho marítimo para a Índia; que lhe fora ordenada a descoberta de Calecute e que o rei D. Manuel desejava ser amigo e irmão do samorim. Este replicou dando as boas-vindas a Vasco da Gama e assegurando-lhe que enviaria embaixadores a Portugal. O encontro durou quatro horas, e terminou num clima de amizade mútua.

Contudo, após início tão promissor, as relações entre o Oriente e o Ocidente em breve se deterioraram. Na realidade, os presentes que D. Manuel confiara a Vasco da Gama não eram dignos de um samorim. As ofertas – doze peças de tecido de algodão às riscas, quatro gorros escarlates, seis chapéus, quatro colares de coral, seis bacias, uma arca de açúcar, duas barricas de azeite e duas barricas de mel – foram recebidas com risos incrédulos pelos representantes do rei. Na audiência seguinte, Vasco da Gama foi forçado a esperar algumas horas à entrada do palácio. Quando por fim o conduziram à presença do samorim, este observou com sarcasmo “que lhe dissera como era de um reino muito rico e que lhe não trouxera nada”. Vasco da Gama protestou afirmando que era um embaixador, e não um comerciante, e que em futuras missões portuguesas viriam inúmeros presentes sumptuosos.

Ao terem disto conhecimento, os mercadores árabes de Calecute lançaram-se numa campanha desesperada contra a concorrência dos cristãos. Os mouros “diziam a el-rei como nós éramos ladrões”, prevenindo-o, e ameaçaram nunca mais regressar a Celecute se o samorim estabelecesse relações comerciais com os portugueses. E acrescentaram que Portugal nada tinha que valesse a pena negociar.

Mas o samorim compreendeu sem dúvida que se encontrava numa posição de vantagem. Se se estabelecesse a concordância entre portugueses e Árabes no tocante às mercadorias do seu reino, as suas receitas provenientes do comércio seriam mais elevadas do que nunca. Assim, acabou por ceder. Prometeu erguer um padrão português em Calecute para comemorar aquela visita histórica e em seguida ditou uma carta para o rei D. Manuel, propondo-lhe o comércio directo com Portugal.

Além disso, o samorim autorizou Vasco da Gama a adquirir uma pequena quantidade de canela e de pimenta. Embora o total fosse de pouca monta, o preço da pimenta aumentara de tal forma na Europa que ali a mercadoria poderia ser vendida por vinte e sete vezes o seu custo na Índia.

E assim, a 29 de Agosto, segundo o cronista de Vasco da Gama, os capitães concluíram que, “visto que já tínhamos achado e descoberto o que vínhamos buscar, nos podíamos partir e logo fizemos as velas e nos partimos a caminho de Portugal, vindo todos muito ledos, por sermos tão bem aventurados de acharmos uma tão grande coisa como tínhamos achado”.

A travessia do oceano Índico foi quase desastrosa. Os mantimentos eram poucos. Não havia pilotos nativos que guiassem os navegantes, E a época não era a mais conveniente para a viagem: em vez dos ventos constantes que os levariam directamente a África, os portugueses tiveram de arrostar com grandes temporais alternando com calmarias enervantes. Só a 2 de Janeiro de 1499 avistariam a costa de África. Por essa altura, já o escorbuto dizimara grande parte da tripulação. Durante a longa travessia do mar da Arábia, morreram 30 marinheiros e os restantes encontravam-se em tal estado de fraqueza que mal podiam cumprir as suas obrigações de tripulantes.

Cinco dias mais tarde, os tripulantes da pequena frota eram acolhidos em Melinde, onde o rei lhes forneceu laranjas e carne fresca para os doentes de escorbuto. No entanto, para grande número de vítimas dessa doença o remédio viera demasiado tarde e mais homens morreram ainda. Nota: no final da viagem, a tripulação encontrava-se quase reduzida a metade. Alguns dias depois, foi com pesar que Vasco da Gama lançou fogo `”São Rafael”, “porquanto era impossível navegarem três navios com tão pouca gente como éramos”.

Prosseguindo para Sul ao longo da costa de África, os dois navios que ainda restavam foram parando aqui e ali para se abastecerem de alimentos frescos, e a pouco e pouco a maior parte da tripulação restabeleceu-se. Com efeito, quando a 20 de Março dobraram o cabo da Boa Esperança, “esses que até aqui chegámos éramos de saúde e rijos e, às vezes, bem mortos do frio das grandes brisas que aqui achámos nesta terra”.

Paulo da Gama, contudo, não se achava bem e, quando os navios chegaram às ilhas de Cabo Verde, adoeceu gravemente. Vasco, irmão dedicado, fretou uma caravela que os levasse a Lisboa, pois assim a viagem seria mais rápida do que continuando a bordo da “São Gabriel”. Durante a viagem, tornou-se evidente que o estado de Paulo era demasiadamente grave para poder viajar; por este motivo, Vasco da Gama decidiu arribar aos Açores, onde Paulo viria a falecer no dia seguinte.

No dia 10 de Julho de 1499, exactamente dois anos e dois dias após o início da expedição, a “Bérrio” lançava ferro no porto de Lisboa e Nicolau Coelho, triunfante, anunciava ao rei o seu regresso. Seguiu-se-lhe a “São Gabriel” em meados de Agosto, e algumas semanas mais tarde o próprio Vasco da Gama chegava a Portugal.

Imediatamente aclamado como herói nacional, Vasco da Gama teve um acolhimento entusiástico. Com consumada perícia e obstinada determinação, provara, sem margem para dúvidas, que existia um caminho marítimo para a Índia - e que Portugal dispunha de navios e de homens à altura dos riscos da viagem. Tendo por capital comercial e administrativa a cidade de Goa, na Índia, o Império de Portugal no Oriente, em breve se tornava num motivo de orgulho nacional. Por outro lado, seguindo uma política de sigilo no tocante ao comércio e à navegação, Portugal evitava a divulgação de registos importantes, de cartas e de instruções de navegação, com receio de que os seus rivais europeus tentassem seguir a rota de Vasco da Gama.

Texto retirado do livro: “Grandes exploradores de todos os tempos”

Resumo da expedição marítima da chegada à Índia

A expedição iniciou-se a 8 de Julho de 1497, em Lisboa Belém.
A linha de navegação de Lisboa até ao Cabo da Boa Esperança foi a habitual e no Oceano Índico é descrita por Álvaro Velho:

 “rota costeira até Melinde e travessia directa deste porto até Calecute”.

Durante esta expedição foram determinadas latitudes através da observação solar, como refere João de Barros.
Relatam os Diários de Bordo das naus muitas experiências inéditas. Encontrou esta ansiosa tripulação rica fauna e flora. Fizeram contacto perto da baía de Santa Helena com tribos que comiam lobos-marinhos, baleias, carne de gazelas e raízes de ervas; andavam cobertos com peles e as suas armas eram simples lanças de madeira de zambujo e cornos de animais; viram tribos que tocavam flautas rústicas de forma coordenada, o que era surpreendente perante a visão dos negros pelos europeus. Ao mesmo tempo que o escorbuto se instalava na tripulação, cruzavam-se em Moçambique com palmeiras que davam cocos. Apesar das adversidades de uma viagem desta escala, a tripulação mantinha a curiosidade e o ânimo em conseguir a proeza e conviver com os povos. Para isso reuniam forças até para assaltar navios em busca de pilotos. Com os prisioneiros, podia o capitão-mor fazer trocas, ou colocá- los a trabalhar na faina; ao rei de Mombaça pediu pilotos cristãos que ele tinha detido e assim trocou prisioneiros. Seria com a ajuda destes pilotos que chegariam a Calecute, terra tão desejada, onde o fascínio se perdia agora pela moda, costumes e riqueza dos nativos. Sabe-se, por Damião de Góis, que durante a viagem foram colocados cinco padrões: São Rafael, no rio dos Bons Sinais; São Jorge, em Moçambique, Santo Espírito, em Melinde; Santa Maria, nos Ilhéus, e São Gabriel, em Calecute. Estes monumentos destinavam-se a afirmar a soberania portuguesa nos locais para que outros exploradores não tomassem as terras como por si descobertas.
Em 20 de Maio de 1498, a frota alcançou Kappakadavu, próxima a Calecute, no actual estado indiano de Kerala, ficando estabelecida a rota no Oceano Índico e aberto o caminho marítimo dos Europeus para a Índia.
As negociações com o governador local, Samutiri Manavikraman Rajá, Samorim de Calecute, foram difíceis. Os esforços de Vasco da Gama para obter condições comerciais favoráveis foram dificultados pela diferença de culturas e pelo baixo valor das suas ofertas (no ocidente era hábito os reis presentearem os enviados estrangeiros, no oriente esperavam ser impressionados com ricas ofertas). As mercadorias apresentadas pelos portugueses mostraram-se insuficientes para impressionar o samorim e os representantes do samorim escarneceram das suas ofertas, simultaneamente os mercadores árabes aí estabelecidos resistiam à possibilidade de concorrência indesejada. A perseverança de Vasco da Gama fez com que se iniciassem, mesmo assim, as negociações entre ele e o samorim, que se mostrou agradado com as cartas de D. Manuel I. Por fim, Vasco da Gama conseguiu obter uma carta ambígua de concessão de direitos para comerciar, comprovativa do encontro que dizia:
«Vasco da Gama, fidalgo da vossa casa, veio à minha terra, com o que eu folguei. Em minha terra, há muita canela, e muito cravo e gengibre e pimenta e muitas pedras preciosas. E o que quero da tua é ouro e prata e coral e escarlata».

Os portugueses acabariam por vender as suas mercadorias por baixo preço para poderem adquirir pequenas quantidades de especiarias e jóias para levar para o reino. Contudo a frota acabou por partir sem aviso após o Samorim e o seu chefe da Marinha Kunjali Marakkar insistirem para que deixasse todos os seus bens como garantia. Vasco da Gama manteve os seus bens, mas deixou alguns portugueses com ordens para iniciar uma feitoria.

Navio da armada de Vasco da Gama encontrado em Omã


14 Mar, 2016 - 09:09
A nau “Esmeralda” foi primeiro descoberta por uma empresa britânica, em 1998, (mais à frente iremos ver que a notícia foi forjada...) mas o levantamento arqueológico só começou em 2013. Foram recuperados quase três mil artefactos, entre os quais um emblema pessoal de D. Manuel I.
O Ministério do Património e da Cultura de Omã anunciou esta segunda-feira a descoberta de um navio português naufragado numa ilha remota de Omã em 1503, quando fazia a carreira da Índia, incluído na armada de Vasco da Gama.
O navio é, de acordo com aquela entidade, a mais antiga embarcação dos Descobrimentos Portugueses encontrado e cientificamente investigado por arqueólogos. 

Em comunicado, o Ministério indica que o navio português naufragou durante uma tempestade ao largo da ilha Al Hallaniyah, na região Dhofar, de Omã. O local do naufrágio foi inicialmente descoberto pela empresa britânica Blue Water Recoveries Ltd. (BWR), em 1998, no 500º aniversário da descoberta de Vasco da Gama do caminho marítimo para a Índia.
Contudo, o Ministério só deu início ao levantamento arqueológico e à escavação em 2013, tendo sido desde então realizadas mais duas escavações em 2014 e 2015, com a recuperação de mais de 2.800 artefactos.
Os principais artefactos, que permitiram identificar o local do naufrágio como sendo a nau “Esmeralda”, de Vicente Sodré, incluem um disco importante de liga de cobre, com o brasão real português e uma esfera armilar e um emblema pessoal de D. Manuel I.
A mesma fonte indicou que foram também encontrados um sino de bronze, com uma inscrição que sugere que o navio data de 1498, cruzados de ouro, cunhados em Lisboa entre 1495 e 1501 e um moeda de prata rara, chamada Índio, que D. Manuel I terá mandado fazer especificamente para o comércio com a Índia. 
 “A extrema raridade do Índio (só se conhece um outro exemplar no mundo inteiro) é tal, que possui o estatuto lendário da moeda "perdida" ou "fantasma" de D. Manuel I”, adiantou o Ministério do Património e Cultura de Omã.
Na nota é também referido que "o projecto foi gerido conjuntamente por este Ministério e David L. Mearns da BWR, tendo-se respeitado rigorosamente a Convenção da UNESCO para a Protecção do Património Cultural Subaquático de 2001". 

A extrema raridade do Índio (só se conhece um outro exemplar no mundo inteiro) é tal, que possui o estatuto lendário da moeda "perdida" ou "fantasma" de D. Manuel I”, adiantou o Ministério do Património e Cultura de Omã.


“Era o navio mais poderoso e o mais importante da armada”



A descoberta deste antigo navio da armada portuguesa é um dos mais importantes e relevantes achados arqueológicos recentes para Portugal, como atesta o historiador Paulo Pinto.




Em declarações à agência Lusa, o investigador do Centro de História d'Aquém e d'Além-Mar (CHAM) da Universidade Nova de Lisboa explicou que este “navio era poderoso e o mais importante da armada”. “Se foram agora encontrados os seus restos, é um achado arqueológico muito importante e relevante até para a compreensão do que foram estes primeiros anos da presença portuguesa naquela região”, disse.




O investigador esclareceu ainda que o navio e o capitão estavam integrados na armada de Vasco da Gama quando chegaram à Índia, mas as circunstâncias que rodearam o naufrágio e os conduziram ao naufrágio não têm nada a ver com a viagem de Lisboa para a Índia. O navio seria um dos usados por Vicente Sodré, responsável pela quarta armada à Índia, para patrulhar a região da Omã, bem como levar a cabo uma série de acções de retaliação contra navios muçulmanos nesta região.




“As fontes falam que o navio se perdeu junto às ilhas de Cúria Múria provavelmente em Abril ou Maio de 1503, o que bate certo com o local onde [agora] dizem ter encontrado o navio. Depois terá aparecido um tufão, um temporal e o navio afundou”, disse, adiantando que terão sobrevivido apenas uma ou duas pessoas.

O investigador salientou também que a região em causa “não é assim tão grande para que o achado esteja incorrecto”. “Tanto quanto sei, por esses anos, provavelmente este foi o único navio da armada portuguesa naufragado naquela região. As fontes portuguesas dizem claramente que foi perdido junto a essas ilhas”, concluiu. 


O Verdadeiro descobridor da nau portuguesa perdida

Por Leonardo Ralha:

 António Camarão queixa-se de ter sido esquecido pela empresa que anunciou a localização da 'Esmeralda', naufragada em 1503

A notícia da descoberta de destroços da nau ‘Esmeralda’, naufragada no Índico em 1503, surpreendeu Portugal na segunda-feira, mas ninguém terá ficado tão surpreendido quanto António Camarão. O historiador português, de 53 anos, soube pela comunicação social que a localização da embarcação capitaneada por Vicente Sodré, um tio materno de Vasco da Gama, fora anunciada pelo Ministério do Património e Cultura do Omã e pela empresa Blue Water Recoveries, que o contratou em 1998, precisamente para encontrar o que restava da nau ‘Esmeralda’. Algo que António Camarão conseguiu, primeiro em arquivos históricos e depois a mergulhar no fundo do mar, junto à ilha de al-Hallaniyah, que faz parte do sultanato. "A única coisa que quero é que reconheçam que a investigação preliminar foi minha", disse o historiador à ‘Domingo’, após David L. Mearns, director de pesquisas da Blue Water Recoveries, ter omitido o seu nome ao comunicar a descoberta de 2800 artefactos que estariam a bordo da embarcação, naufragada depois de um tufão a ter lançado contra os recifes da ilha. O responsável da empresa , que já esteve envolvida na recuperação do recheio de navios afundados na II Guerra Mundial, escreveu em Agosto de 2002 uma carta de recomendação a António Camarão, na qual dizia que o trabalho do português "culminou na localização do que acreditamos serem os destroços das naus de Vicente e Brás Sodré, um achado de grande importância histórica e arqueológica para a nação portuguesa". No entanto, contactado esta semana pela Lusa, Mearns atribuiu o mérito do achado apenas a Peter Cope e Alex Double, que foram os primeiros a confirmar os indícios de  que haveria algo para descobrir na ilha de al-Hallaniyah: "António nem sequer estava em Omã nessa expedição, pelo que é impossível reclamar tais créditos." Por seu lado, António Camarão sublinha que as cordas de referência que encontrou ao chegar à ilha, na segunda expedição, não estavam certas, mas deixa claro que nada mais pretende além do reconhecimento do seu trabalho. "Não quero nem um tostão. Ele que seja muito feliz a vender na Sotheby’s, porque a maior parte dos achados não vão ficar em Omã e acabarão por ser leiloados. Só quero que diga no artigo que a escavação preliminar, que confirmou ser ali o sítio onde naufragaram os dois Sodré, foi feita por mim." Apanhados pelo tufão Afastado da arqueologia subaquática – "abandonei em 2000, um bocado desiludido com o meio", diz –, Camarão foi para o Museu Nacional de Arqueologia logo após a universidade. Passou pelas empresas Arqueonautas e AMOI – Arqueologia Marítima Oceano Índico, com projectos nos mares de Cabo Verde e de Moçambique, até que foi contactado pela Blue Water Recoveries. "Dois ingleses quiseram falar comigo. Perguntaram qual seria o naufrágio no Índico que escolheria para trabalhar, mas sabiam de antemão a resposta, através de um amigo em comum", recorda à ‘Domingo’. As naus ‘Esmeralda’, de Vicente Sodré, e ‘São Pedro’, do seu irmão Brás Sodré, eram duas de uma armada de cinco a que Vasco da Gama, descobridor do caminho marítimo para a Índia, entregara a missão de defender as feitorias de Cananor e Cochim e de impedir a navegação de mercadores árabes provenientes do mar Vermelho. Foi a essa última missão que os dois tios de Vasco da Gama mais se terão dedicado, contando amealhar saques de navios carregados de especiarias e ouro. Mas nada lhes correu bem, como foi documentado pelos cronistas da época dos Descobrimentos. Mesmo ao descobrirem o arquipélago de Curia Muria, ponto de encontro entre vendedores e compradores do Índico, ignoraram o aviso dos seus pilotos árabes quanto à aproximação do tufão, julgando tratar-se de um ardil. Não era. A força dos elementos foi tal que a ‘Esmeralda’ entrou de ré no recife e ficou desfeita, enquanto a ‘São Pedro’ entrou de proa, possibilitando que parte da tripulação – mas não o capitão – se salvasse e muito do seu recheio fosse retirado para as outras três naus, que aceitaram o conselho dos pilotos e escaparam à tormenta no outro lado da ilha. O que restou do casco e mastros da ‘São Pedro’ foi queimado de seguida, pelo que os achados descobertos em 1998 e nas intervenções mais recentes da Blue Water Recoveries, a partir de 2013, dirão respeito à ‘Esmeralda’. Desbastar algas Do tempo que passou na ilha, com o mergulhador Lyle Craigie-Halkett e Alex Double, um mergulhador que serviu de guia, por saber falar arábico, o português salienta a dificuldade insólita encontrada em Dezembro de 1998. "O tempo não era o pior, mas também não era o mais favorável. Até porque é nessa altura que florescem algas junto ao coral. Olhar para o fundo, onde estavam os achados, só foi possível andando de faca na mão a desbastar algas", recorda, chamando também a atenção para a forte rebentação do mar: "Houve dias em que pareceu que estávamos a mergulhar dentro do tambor de uma máquina de lavar a roupa. Agarrávamo-nos àquilo que podíamos. Saltavam a máscara e as barbatanas." Algo que torna ainda mais improvável, no seu entender, a descoberta das madeiras do navio. Foi, no entanto, possível encontrar cinco dezenas de objectos, todos referenciados no seu relatório preliminar. Desde balas de canhão à culatra de um canhão, um objecto metálico que seria uma moeda ou o que restava de um prato de prata. E ainda os locais onde foram sepultados Vicente e Brás Sodré. "Os cronistas escreveram que eles foram enterrados acima do local dos naufrágios e confirmei que as campas estão lá", disse António Camarão à ‘Domingo’, salientando que uma análise de ADN aos restos mortais dos tios maternos de Vasco da Gama seria a única forma de acabar com as recorrentes dúvidas quanto às ossadas que estão no Mosteiro dos Jerónimos. Apesar do sucesso da segunda expedição, a ilha de al--Hallaniyah foi deixada pela Blue Water Recoveries, mais interessada na ‘Santa Rosa’, outra embarcação portuguesa, que explodiu em circunstâncias misteriosas na costa brasileira, em 1726, contando na sua carga com dois anos de ouro do Brasil que se destinava à coroa portuguesa. Certo é que desde 2013 a empresa retomou a procura da nau ‘Esmeralda’. "Conseguiu montar uma operação de sucesso. Parabéns ao David L. Mearns", diz António Camarão, que trabalha agora na Câmara do Barreiro, dedicando-se à investigação histórica da cidade, sem deixar de sentir nostalgia pelo tempo em que a arqueologia subaquática se distinguia da caça ao tesouro.