sexta-feira, 27 de julho de 2012

" Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva"



Pêro da Covilhã desempenhou um papel importante na preparação da viagem de Vasco da Gama à Índia. Conhecia diversas línguas e era fluente em árabe.
Em Maio de 1487, juntamente com Afonso de Paiva, viajou por terra de Santarém a Barcelona. Ali, os dois aventureiros embarcaram para Nápoles e depois para Rodes. Deixaram então terras cristãs e seguiram para Alexandria.

 Itinerário de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, de Santarém, Portugal a Alexandria e Cairo no Egipto
Chegaram ao Cairo e juntaram-se a uma caravana que percorreu o deserto da costa Leste do Mar Vermelho. Visitaram Meca, onde rezaram, como bons muçulmanos que deviam parecer. Chegaram a Aden no começo de 1488 e separaram-se. Nenhum deles regressaria a Portugal.
Afonso de Paiva dirigiu-se à Etiópia.
Pêro da Covilhã fez um percurso notável. Atravessou o Oceano Índico e chegou a Calecute, um pequeno reino da Índia, em Novembro de 1488. Empenhou-se em conhecer o percurso das especiarias e visitou Cananor e Goa. Navegou dali até Ormuz, na entrada do Golfo Pérsico.

Itinerário de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, do Cairo no Egipto a Aden, no Iéman do Sul.  Itinerário de Pêro da Covilhã de Aden até Calicute, Cananor e Goa, na Índia e Ormuz no Golfo Pérsico. 
Em Dezembro de 1489, Pêro embarcou para Sul. Passou por Melinde, cidade do Quénia actual, Ilha de Moçambique e Sofala. Ficou a saber que, depois de dobrar o extremo Sul da África e atingida Sofala ou Melinde, seria fácil navegar até Calecute.


Itinerário de Pêro da Covilhã de Ormuz até Melinde no Quénia e Ilha de Moçambique e Sofala em Moçambique
No final de Janeiro de 1491, Pêro da Covilhã chega às portas da cidadela do Cairo, onde combinara encontrar-se com Afonso de Paiva. O companheiro faltou. Julga-se que terá alcançado a Etiópia. Morreu de peste e não pôde dar notícias da viagem.
Pêro encontrou no Cairo judeus portugueses e enviou um relatório para o rei. Vasco da Gama pôde então atravessar o Oceano Índico, de Melinde para Calecute.
O aventureiro da Covilhã regressou a Aden. Depois embarcou para Zeila, na costa da Etiópia. Terminou ali um sonho português. O mítico Preste João era senhor de um reino pobre que resistia com dificuldade aos muçulmanos que o rodeavam. De pouco serviria na empresa contra os turcos.
Pêro da Covilhã terá sido impedido de sair do reino. Não é certo que assim tenha sucedido. Deu-se bem na Abissínia. Foi acarinhado pela família real. Casou mais do que uma vez. Morreu velho e deixou numerosa descendência.
Para além de judeus e navegadores, havia também frades portugueses aventureiros. Dois alcançaram a corte da Etiópia. No regresso a Lisboa, acompanharam o embaixador Mateus, enviado por sugestão de Pêro da Covilhã, já conselheiro régio da rainha Helena.
Em 1521, Pêro da Covilhã foi visitado pelo embaixador D. Rodrigo de Lima. Tinha mais de setenta anos, o que parecia muito para a época e para a agitação da sua vida. Não se sabe quando morreu.
O relato das suas viagens chegou a Lisboa, enviado pelo autor. O livro "As Verdadeiras informações das Terras do Preste João das Índias" foi publicado em Lisboa, no ano de 1540.
( fonte: António Trabulho de http://decaedela.blogspot.pt )

O Primeiro europeu em Sofala - Pêro da Covilhã -

Por: Eric Axelson (tradução de Reginal A. Brown)

"Em paralelo com a viagem de Bartolomeu Dias teve lugar uma outra, a de Pêro da Covilhã, que partiu de Portugal, também em 1487, com instruções de D. João II para ir à Índia através do Mediterrâneo e do Egipto, a fim de observar o comércio de especiarias e fazer um relatório sobre o comércio e a navegação no Índico.
Até Aden foi acompanhado por Afonso de Paiva, que tinha a missão de chegar à Abissínia e de estabelecer contactos entre D. João e o Imperador.
Viajando como muçulmano em barcos muçulmanos, Covilhã chegou à costa do Malabar e observou os mercados das especiarias. Foi a Ormuz e depois viajou até à costa africana, adquirindo assim conhecimentos sobre as monções do Índico.
Visitou a imponente cidade de Quiloa e também Sofala, onde recolheu conhecimentos do comércio do ouro com o interior, comércio que tanto contribuiu para manter a velha civilização da costa oriental da África.
Voltou ao Cairo, onde soube que Paiva tinha morrido sem ter alcançado a Etiópia.
Na véspera da sua partida para Portugal, dois judeus entregaram-lhe uma mensagem do Rei D. João II, que dizia que não deviam regressar a Portugal sem ter completado toda a missão de que tinham sido incumbidos.
O rei tinha um interesse muito especial em ter notícias da Etiópia e Covilhã tinha de levar um dos judeus a Ormuz, dado que acabava de saber da grande importância comercial da cidade.
O professor Beckingham é de opinião que os judeus tinham saído de Portugal depois do regresso de Bartolomeu Dias, o que tornava ainda mais imperativo que o rei soubesse se os barcos portugueses encontrariam aliados e portos amigáveis no Índico.
Covilhã mandou um relatório ao rei e então escoltou o rabi até Ormuz.
A seguir visitou Jida, Meca e Medina. Viajou de barco desde Sinai até Zeila, tendo chegado à Etiópia, país onde, por força de circunstâncias várias, passou o resto da sua vida.
Enquanto Covilhã viajava, D. João mandou preparar uma frota com o fim de completar a descoberta do caminho marítimo para a Índia.
Bartolomeu Dias supervisionou a construção de quatro navios. O rei adiou a partida da frota até que recebesse notícias de Covilhã e, por causa deste adiamento, os louros – e os lucros – da descoberta do caminho marítimo para a Índia, seriam para o seu sucessor, Manuel I, - “O Venturoso”.

" descobrimentos portugueses " de Edgar Prestage

No tempo em que partiu para realizar a sua expedição, Pêro da Covilhã tinha cerca de quarenta anos de idade; era um homem de origem humilde, dotado daquela energia e persistência que caracteriza os beirões.
Nos primeiros tempos da sua vida foi para Espanha, e esteve sete anos na casa do duque de Medina Sidónia, onde aprendeu a falar o Espanhol correctamente, a confiar em si e a manejar uma espada.
Em 1474 voltou a Portugal e foi feito escudeiro por D. Afonso V, e, depois da morte deste monarca, fez parte da guarda de D. João II.
Este rei empregou-o como agente secreto em Espanha para espiar os membros da Casa de Bragança que ali se haviam refugiado depois da prisão do duque e também o enviou em missões a Tremecem e a Fez, onde aperfeiçoou os seus conhecimentos de árabe
Pouco tempo depois da sua volta a Portugal, nos princípios de 1487, confiou-lhe D. João II uma missão de maior fama e deu-lhe por companheiro a Afonso de Paiva, oriundo de uma família das Canárias.
As particularidades da expedição foram dispostas pelo rei uma vez consultados D. Diogo Ortiz, seu capelão-mor e hábil cosmógrafo, Mestre Rodrigo, médico do rei, e mestre Moisés, também conhecido por José Vizinho.
Supõe-se que estes dois homens, simultaneamente cosmógrafos e matemáticos – os mesmos que mais tarde haviam de examinar as propostas de Colon – trabalharam com Martim de Boémia na construção de um astrolábio aperfeiçoado. Prepararam, para Pero da Covilhã e para o seu companheiro uma carta de marear e instruções, certamente orais por receio de extravio, e explicaram-lhes o caminho que deveriam tomar para a região das especiarias;
Um dos viajantes devia ir para a terra do Prestes João e esforçar-se por saber ao certo se era possível navegar pela Guiné para os mares do Oriente. O rei não procurava um aliado contra o islam na pessoa do Padre-Rei, como D. Henrique fizera, mas esperava encontrar, através dele, uma porta para a expansão portuguesa.
Diz João de Barros: “ Parecia a El-Rei que por via deste, o Preste João, podia ter alguma entrada na Índia. Porque por os abexins religiosos, que vêm a estas partes de Espanha, e assim por alguns frades, que de cá foram a Jerusalém, a que ele encomendou que se informassem deste príncipe, tinha sabido, que seu estado era a terra, que estava sob o Egipto, a qual se estendia até ao mar do Sul “ .
Esta localização do Padre- Rei, embora imperfeita, provinha de informações directas. Como além disso soubesse que Jerusalém era visitada por monges abexins, D. João II havia já expedido para esta cidade, em missão análoga, Frei António de Lisboa e Pedro Monterroio; mas estes, por falta de conhecimentos de árabe, não foram mais além. Nove meses depois da partida de Pero da Covilhã e de Afonso de Paiva, chegou a Lisboa, vindo de Roma, um padre abexim, chamado Lucas Marcos, e, pelo que diz João de Barros é óbvio que D. João II sabia que o seu soberano era o Preste João.
A 7 de Maio de 1487, o Rei deu em Santarém uma audiência de despedida a Pero da Covilhã e a Afonso de Paiva, na presença do duque de Viseu, futuro D. Manuel I; entregou-lhe quatrocentos cruzados e uma carta de crédito, e concedeu-lhes a sua bênção.
Vieram de jornada até à capital e, pondo de parte algum dinheiro para as primeiras despesas, entregaram o resto, para lhes ser dado em Valência, ao italiano Bartolomeu Marchioni, talvez o banqueiro mais rico de Lisboa.
Foram até Valência por terra e seguiram depois para Barcelona onde embarcaram para Nápoles e Ródes; compraram nesta ilha uma grande carregação de mel, para viajarem como mercadores, conforme haviam sido aconselhados por dois portugueses, cavaleiros do Hospital ali residentes, e tomaram então um navio para Alexandria.
Nesta cidade adoeceram ambos com febres, e, quando se restabeleceram, viram-se privados da sua mercadoria porque o governador, no uso dos seus direitos, se havia apoderado dela, julgando que morriam. Depois de algumas dificuldades obtiveram uma pequena indemnização em dinheiro, compraram novas mercadorias e seguiram para o Cairo.
Muitos mercadores com quem Pero da Covilhã travara conhecimento, haviam estado na Índia e outros dirigiam-se para lá por Tor e Aden. Entre estes últimos havia alguns mouros de Marrocos com quem Pero da Covilhã e Afonso de Paiva combinaram seguir viagem.
Na primavera de 1488, fizeram-se de vela numa pequena barca árabe para Aden, via Suaquem, levando provavelmente dois meses no caminho; quando chegaram era já tempo da monção para a Índia, e então os dois separaram-se.
Afonso de Paiva dirigiu-se à Etiópia, provavelmente com a intenção de regressar dali a Portugal, ao passo que Pero da Covilhã embarcou num navio que metia duzentas a trezentas toneladas de carga e que então se conhecia em Portugal sob o nome de " nau de Meca".
Dentro de um mês alcançava Cananor e daqui seguiu para Calecute, então o porto mais rico da Índia, no qual havia uma grande colónia de mercadores muçulmanos que detinham nas suas mãos o comércio externo, designadamente o das especiarias.
Em Agosto e Setembro chegavam os navios de Aden e dos Estreitos com mercadorias do Ocidente, e em Fevereiro largavam para as suas terras com pimenta, cravo da Índia, canela, ruibarbo, pedras preciosas, porcelanas e outras mercadorias trazidas a Calecute das outras partes da Índia, de Ceilão e do Extremo Oriente.
Depois de se familiarizar com este tráfico, Pero da Covilhã passou para Goa, centro do comércio de cavalos, que, vindos pelo Mar Arábico, ali se compravam para satisfazer as necessidades militares dos potentados indianos.
Fez depois a travessia para Ormuz, empório do golfo Pérsico, e, nos fins de 1489, meteu-se num navio e seguiu até Sofala ao longo da costa oriental de África, localidade habitada por muitos árabes negociantes de ouro das minas do interior. Daqui voltou para Aden, em Outubro de 1490, e atingiu o Cairo, provavelmente no fim do mesmo ano, cerca de quatro anos depois de ter saído de Portugal.
Todas estas datas foram calculadas pelo conde de Ficalho, mas são por ele próprio consideradas hipotéticas.
Quando chegou ao Cairo era sua intenção voltar para Portugal, pois já se havia desempenhado da sua missão; esperava encontrar-se nesta cidade com Afonso de Paiva, mas soube que este já tinha morrido.
Encontrou porém, dois judeus que D. João II enviara em sua procura, um chamado José de Lamego, sapateiro, que já anteriormente visitara Bagatá, e um rabi de Beja chamado Abraão.
Traziam-lhe uma carta com ordem de regressar a Portugal, se a missão já estivesse concluída, caso contrário, não devia descansar enquanto não visse o Preste João, nem mostrasse Ormuz a Abraão.
Pero da Covilhã não era homem para desobedecer; além disso, é provável que a atracção da aventura e do desconhecido se tivessem apoderado dele. Antes, porém, de seguir o seu caminho, escreveu uma carta ao Rei, e enviou-a por José Lamego.
O Padre Francisco Álvares, que foi à Abissínia com a missão de D. Rodrigo de Lima em 1520, é o nosso principal informador sobre a jornada de Pero da Covilhã em ( verdadeira informação das terras de Preste Joam  Lisboa, 1540 e 1889 cap. 103), escreveu, porém, muito tempo depois e conta-nos aquilo de que Pero da Covilhã se lembrava passados muitos anos.
Segundo este autor, Pero da Covilhã mandou dizer ao Rei que tinha visitado Cananor, Calecute e Goa, e que tinha encontrado em Calecute, canela, pimenta e noz moscada, esta última vinda de fora.
Acrescentava que era possível ir aquelas cidades da Índia pelo golfo da Guiné, fazendo rumo à costa de Sofala onde tinha estado, ou a uma grande ilha que se dizia ter trezentas léguas de costa e a que os mouros chamavam Ilha da Lua. O fim da jornada a Sofala foi de saber se existia um caminho marítimo pelo Sul da África e não o de ir à procura das minas de ouro do interior.
No mapa de Fra Mauro vê-se  um cabo no Sul da África, em 1420, e navegara pelo Mar Ocidental. Mas o cabo em questão era provavelmente o Cabo das Correntes e o navio uma barca árabe que, dirigindo-se a Sofala, fora arrastada para além dele.
A Leste desse Cabo e separada do continente por um apertado estreito havia uma grande ilha onde Sofala estava localizada.
Pero da Covilhã pode rectificar este erro e chegou à convicção de que o caminho marítimo para a Índia era praticável. A sua jornada a Sofala, combinada com a viagem de Bartolomeu Dias, determinaram a expedição posterior de Vasco da Gama.
Alguns autores têm duvidado de que D. João II chegasse a receber a carta de Pero da Covilhã. Na primeira edição da sua história dos portugueses no Oriente, Castanheda diz que sim, mas na segunda edição diz o contrário.
Porém, se D. João II a recebesse, certamente teria feito segredo disso, e pode muito bem ser que mesmo a Garcia de Resende, seu íntimo amigo, nada tivesse contado, pois este cronista diz que a carta só chegou depois da morte de D. João II e da partida de Vasco da Gama.
A razão para pensar que o Rei chegou a receber a carta é que Vasco da Gama foi mandado directamente a Calecute e - diz João de Barros - levava, além das suas instruções, as notícias que D. João II recebera daqueles lugares e uma carta para o rei de Calecute.
Com toda a certeza foi a carta de Pero da Covilhã uma das fontes das instruções, embora outras existissem.
Pero da Covilhã levou Abraão a Ormuz e daqui se tornou este último para Portugal, depois de se ter instruído em tudo que o Rei desejava saber, ao passo que o primeiro seguia para Jeda e daqui para Meca, vestido de branco como um peregrino, com o cabelo rapado à navalha.
A visita ao lugar santo do islamismo era perigosa, não estava autorizada pelas instruções e só se pode atribuir ao amor das aventuras.
Ainda depois disto a sua curiosidade não ficou satisfeita, pois seguiu para Medina e, em seguida, para o Sinai, para o convento de Santa Catarina, onde, provavelmente, pela primeira vez em quatro anos, entrou numa igreja cristã e ouviu missa.
Em 1493, chegou finalmente à Abissínia e aqui terminaram as suas viagens; ou não o deixaram sair, ou, tendo casado e adquirido riquezas, não quis voltar a Portugal.
Foi o primeiro português que pisou o solo indiano e que viu o Preste João; pelo facto de residir durante mais de trinta anos na Abissínia, tornou-a conhecida da Europa como o não tinha sido até então, e preparou o caminho para a influência preponderante que Portugal ali desfrutou durante um século, graças aos seus embaixadores e aos seus soldados, e, mais do que a todos estes, aos missionários da Companhia de Jesus.
Se a Etiópia é ainda hoje um país cristão, deve-o à expedição de D. Cristóvão da Gama de 1541, pois, para citar a frase de Gibbon, " A Etiópia foi salva por quatrocentos e cinquenta portugueses"
(texto extraído de " descobrimentos portugueses " de Edgar Prestage...

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