sexta-feira, 27 de julho de 2012

" Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva"

" Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva"

Pêro da Covilhã desempenhou um papel importante na preparação da viagem de Vasco da Gama à Índia. Conhecia diversas línguas e era fluente em árabe.
Em Maio de 1487, juntamente com Afonso de Paiva, viajou por terra de Santarém a Barcelona. Ali, os dois aventureiros embarcaram para Nápoles e depois para Rodes. Deixaram então terras cristãs e seguiram para Alexandria.
 Itinerário de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, de Santarém, Portugal a Alexandria e Cairo no Egipto
Chegaram ao Cairo e juntaram-se a uma caravana que percorreu o deserto da costa Leste do Mar Vermelho. Visitaram Meca, onde rezaram, como bons muçulmanos que deviam parecer. Chegaram a Aden no começo de 1488 e separaram-se. Nenhum deles regressaria a Portugal.
Afonso de Paiva dirigiu-se à Etiópia.
Pêro da Covilhã fez um percurso notável. Atravessou o Oceano Índico e chegou a Calecute, um pequeno reino da Índia, em Novembro de 1488. Empenhou-se em conhecer o percurso das especiarias e visitou Cananor e Goa. Navegou dali até Ormuz, na entrada do Golfo Pérsico.
Itinerário de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, do Cairo no Egipto a Aden, no Iéman do Sul.  Itinerário de Pêro da Covilhã de Aden até Calicute, Cananor e Goa, na Índia e Ormuz no Golfo Pérsico. 
Em Dezembro de 1489, Pêro embarcou para Sul. Passou por Melinde, cidade do Quénia actual, Ilha de Moçambique e Sofala. Ficou a saber que, depois de dobrar o extremo Sul da África e atingida Sofala ou Melinde, seria fácil navegar até Calecute.
Itinerário de Pêro da Covilhã de Ormuz até Melinde no Quénia e Ilha de Moçambique e Sofala em Moçambique
No final de Janeiro de 1491, Pêro da Covilhã chega às portas da cidadela do Cairo, onde combinara encontrar-se com Afonso de Paiva. O companheiro faltou. Julga-se que terá alcançado a Etiópia. Morreu de peste e não pôde dar notícias da viagem.
Pêro encontrou no Cairo judeus portugueses e enviou um relatório para o rei. Vasco da Gama pôde então atravessar o Oceano Índico, de Melinde para Calecute.
O aventureiro da Covilhã regressou a Aden. Depois embarcou para Zeila, na costa da Etiópia. Terminou ali um sonho português. O mítico Preste João era senhor de um reino pobre que resistia com dificuldade aos muçulmanos que o rodeavam. De pouco serviria na empresa contra os turcos.
Pêro da Covilhã terá sido impedido de sair do reino. Não é certo que assim tenha sucedido. Deu-se bem na Abissínia. Foi acarinhado pela família real. Casou mais do que uma vez. Morreu velho e deixou numerosa descendência.
Para além de judeus e navegadores, havia também frades portugueses aventureiros. Dois alcançaram a corte da Etiópia. No regresso a Lisboa, acompanharam o embaixador Mateus, enviado por sugestão de Pêro da Covilhã, já conselheiro régio da rainha Helena.
Em 1521, Pêro da Covilhã foi visitado pelo embaixador D. Rodrigo de Lima. Tinha mais de setenta anos, o que parecia muito para a época e para a agitação da sua vida. Não se sabe quando morreu.
O relato das suas viagens chegou a Lisboa, enviado pelo autor. O livro "As Verdadeiras informações das Terras do Preste João das Índias" foi publicado em Lisboa, no ano de 1540.
( fonte: António Trabulho de http://decaedela.blogspot.pt )

O Primeiro europeu em Sofala - Pêro da Covilhã -

Por: Eric Axelson (tradução de Reginal A. Brown)

"Em paralelo com a viagem de Bartolomeu Dias teve lugar uma outra, a de Pêro da Covilhã, que partiu de Portugal, também em 1487, com instruções de D. João II para ir à Índia através do Mediterrâneo e do Egipto, a fim de observar o comércio de especiarias e fazer um relatório sobre o comércio e a navegação no Índico.
Até Aden foi acompanhado por Afonso de Paiva, que tinha a missão de chegar à Abissínia e de estabelecer contactos entre D. João e o Imperador.
Viajando como muçulmano em barcos muçulmanos, Covilhã chegou à costa do Malabar e observou os mercados das especiarias. Foi a Ormuz e depois viajou até à costa africana, adquirindo assim conhecimentos sobre as monções do Índico.
Visitou a imponente cidade de Quiloa e também Sofala, onde recolheu conhecimentos do comércio do ouro com o interior, comércio que tanto contribuiu para manter a velha civilização da costa oriental da África.
Voltou ao Cairo, onde soube que Paiva tinha morrido sem ter alcançado a Etiópia.
Na véspera da sua partida para Portugal, dois judeus entregaram-lhe uma mensagem do Rei D. João II, que dizia que não deviam regressar a Portugal sem ter completado toda a missão de que tinham sido incumbidos.
O rei tinha um interesse muito especial em ter notícias da Etiópia e Covilhã tinha de levar um dos judeus a Ormuz, dado que acabava de saber da grande importância comercial da cidade.
O professor Beckingham é de opinião que os judeus tinham saído de Portugal depois do regresso de Bartolomeu Dias, o que tornava ainda mais imperativo que o rei soubesse se os barcos portugueses encontrariam aliados e portos amigáveis no Índico.
Covilhã mandou um relatório ao rei e então escoltou o rabi até Ormuz.
A seguir visitou Jida, Meca e Medina. Viajou de barco desde Sinai até Zeila, tendo chegado à Etiópia, país onde, por força de circunstâncias várias, passou o resto da sua vida.
Enquanto Covilhã viajava, D. João mandou preparar uma frota com o fim de completar a descoberta do caminho marítimo para a Índia.
Bartolomeu Dias supervisionou a construção de quatro navios. O rei adiou a partida da frota até que recebesse notícias de Covilhã e, por causa deste adiamento, os louros – e os lucros – da descoberta do caminho marítimo para a Índia, seriam para o seu sucessor, Manuel I, - “O Venturoso”.

" descobrimentos portugueses " de Edgar Prestage

No tempo em que partiu para realizar a sua expedição, Pêro da Covilhã tinha cerca de quarenta anos de idade; era um homem de origem humilde, dotado daquela energia e persistência que caracteriza os beirões.
Nos primeiros tempos da sua vida foi para Espanha, e esteve sete anos na casa do duque de Medina Sidónia, onde aprendeu a falar o Espanhol correctamente, a confiar em si e a manejar uma espada.
Em 1474 voltou a Portugal e foi feito escudeiro por D. Afonso V, e, depois da morte deste monarca, fez parte da guarda de D. João II.
Este rei empregou-o como agente secreto em Espanha para espiar os membros da Casa de Bragança que ali se haviam refugiado depois da prisão do duque e também o enviou em missões a Tremecem e a Fez, onde aperfeiçoou os seus conhecimentos de árabe
Pouco tempo depois da sua volta a Portugal, nos princípios de 1487, confiou-lhe D. João II uma missão de maior fama e deu-lhe por companheiro a Afonso de Paiva, oriundo de uma família das Canárias.
As particularidades da expedição foram dispostas pelo rei uma vez consultados D. Diogo Ortiz, seu capelão-mor e hábil cosmógrafo, Mestre Rodrigo, médico do rei, e mestre Moisés, também conhecido por José Vizinho.
Supõe-se que estes dois homens, simultaneamente cosmógrafos e matemáticos – os mesmos que mais tarde haviam de examinar as propostas de Colon – trabalharam com Martim de Boémia na construção de um astrolábio aperfeiçoado. Prepararam, para Pero da Covilhã e para o seu companheiro uma carta de marear e instruções, certamente orais por receio de extravio, e explicaram-lhes o caminho que deveriam tomar para a região das especiarias;
Um dos viajantes devia ir para a terra do Prestes João e esforçar-se por saber ao certo se era possível navegar pela Guiné para os mares do Oriente. O rei não procurava um aliado contra o islam na pessoa do Padre-Rei, como D. Henrique fizera, mas esperava encontrar, através dele, uma porta para a expansão portuguesa.
Diz João de Barros: “ Parecia a El-Rei que por via deste, o Preste João, podia ter alguma entrada na Índia. Porque por os abexins religiosos, que vêm a estas partes de Espanha, e assim por alguns frades, que de cá foram a Jerusalém, a que ele encomendou que se informassem deste príncipe, tinha sabido, que seu estado era a terra, que estava sob o Egipto, a qual se estendia até ao mar do Sul “ .
Esta localização do Padre- Rei, embora imperfeita, provinha de informações directas. Como além disso soubesse que Jerusalém era visitada por monges abexins, D. João II havia já expedido para esta cidade, em missão análoga, Frei António de Lisboa e Pedro Monterroio; mas estes, por falta de conhecimentos de árabe, não foram mais além. Nove meses depois da partida de Pero da Covilhã e de Afonso de Paiva, chegou a Lisboa, vindo de Roma, um padre abexim, chamado Lucas Marcos, e, pelo que diz João de Barros é óbvio que D. João II sabia que o seu soberano era o Preste João.
A 7 de Maio de 1487, o Rei deu em Santarém uma audiência de despedida a Pero da Covilhã e a Afonso de Paiva, na presença do duque de Viseu, futuro D. Manuel I; entregou-lhe quatrocentos cruzados e uma carta de crédito, e concedeu-lhes a sua bênção.
Vieram de jornada até à capital e, pondo de parte algum dinheiro para as primeiras despesas, entregaram o resto, para lhes ser dado em Valência, ao italiano Bartolomeu Marchioni, talvez o banqueiro mais rico de Lisboa.
Foram até Valência por terra e seguiram depois para Barcelona onde embarcaram para Nápoles e Ródes; compraram nesta ilha uma grande carregação de mel, para viajarem como mercadores, conforme haviam sido aconselhados por dois portugueses, cavaleiros do Hospital ali residentes, e tomaram então um navio para Alexandria.
Nesta cidade adoeceram ambos com febres, e, quando se restabeleceram, viram-se privados da sua mercadoria porque o governador, no uso dos seus direitos, se havia apoderado dela, julgando que morriam. Depois de algumas dificuldades obtiveram uma pequena indemnização em dinheiro, compraram novas mercadorias e seguiram para o Cairo.
Muitos mercadores com quem Pero da Covilhã travara conhecimento, haviam estado na Índia e outros dirigiam-se para lá por Tor e Aden. Entre estes últimos havia alguns mouros de Marrocos com quem Pero da Covilhã e Afonso de Paiva combinaram seguir viagem.
Na primavera de 1488, fizeram-se de vela numa pequena barca árabe para Aden, via Suaquem, levando provavelmente dois meses no caminho; quando chegaram era já tempo da monção para a Índia, e então os dois separaram-se.
Afonso de Paiva dirigiu-se à Etiópia, provavelmente com a intenção de regressar dali a Portugal, ao passo que Pero da Covilhã embarcou num navio que metia duzentas a trezentas toneladas de carga e que então se conhecia em Portugal sob o nome de " nau de Meca".
Dentro de um mês alcançava Cananor e daqui seguiu para Calecute, então o porto mais rico da Índia, no qual havia uma grande colónia de mercadores muçulmanos que detinham nas suas mãos o comércio externo, designadamente o das especiarias.
Em Agosto e Setembro chegavam os navios de Aden e dos Estreitos com mercadorias do Ocidente, e em Fevereiro largavam para as suas terras com pimenta, cravo da Índia, canela, ruibarbo, pedras preciosas, porcelanas e outras mercadorias trazidas a Calecute das outras partes da Índia, de Ceilão e do Extremo Oriente.
Depois de se familiarizar com este tráfico, Pero da Covilhã passou para Goa, centro do comércio de cavalos, que, vindos pelo Mar Arábico, ali se compravam para satisfazer as necessidades militares dos potentados indianos.
Fez depois a travessia para Ormuz, empório do golfo Pérsico, e, nos fins de 1489, meteu-se num navio e seguiu até Sofala ao longo da costa oriental de África, localidade habitada por muitos árabes negociantes de ouro das minas do interior. Daqui voltou para Aden, em Outubro de 1490, e atingiu o Cairo, provavelmente no fim do mesmo ano, cerca de quatro anos depois de ter saído de Portugal.
Todas estas datas foram calculadas pelo conde de Ficalho, mas são por ele próprio consideradas hipotéticas.
Quando chegou ao Cairo era sua intenção voltar para Portugal, pois já se havia desempenhado da sua missão; esperava encontrar-se nesta cidade com Afonso de Paiva, mas soube que este já tinha morrido.
Encontrou porém, dois judeus que D. João II enviara em sua procura, um chamado José de Lamego, sapateiro, que já anteriormente visitara Bagatá, e um rabi de Beja chamado Abraão.
Traziam-lhe uma carta com ordem de regressar a Portugal, se a missão já estivesse concluída, caso contrário, não devia descansar enquanto não visse o Preste João, nem mostrasse Ormuz a Abraão.
Pero da Covilhã não era homem para desobedecer; além disso, é provável que a atracção da aventura e do desconhecido se tivessem apoderado dele. Antes, porém, de seguir o seu caminho, escreveu uma carta ao Rei, e enviou-a por José Lamego.
O Padre Francisco Álvares, que foi à Abissínia com a missão de D. Rodrigo de Lima em 1520, é o nosso principal informador sobre a jornada de Pero da Covilhã em ( verdadeira informação das terras de Preste Joam  Lisboa, 1540 e 1889 cap. 103), escreveu, porém, muito tempo depois e conta-nos aquilo de que Pero da Covilhã se lembrava passados muitos anos.
Segundo este autor, Pero da Covilhã mandou dizer ao Rei que tinha visitado Cananor, Calecute e Goa, e que tinha encontrado em Calecute, canela, pimenta e noz moscada, esta última vinda de fora.
Acrescentava que era possível ir aquelas cidades da Índia pelo golfo da Guiné, fazendo rumo à costa de Sofala onde tinha estado, ou a uma grande ilha que se dizia ter trezentas léguas de costa e a que os mouros chamavam Ilha da Lua. O fim da jornada a Sofala foi de saber se existia um caminho marítimo pelo Sul da África e não o de ir à procura das minas de ouro do interior.
No mapa de Fra Mauro vê-se  um cabo no Sul da África, em 1420, e navegara pelo Mar Ocidental. Mas o cabo em questão era provavelmente o Cabo das Correntes e o navio uma barca árabe que, dirigindo-se a Sofala, fora arrastada para além dele.
A Leste desse Cabo e separada do continente por um apertado estreito havia uma grande ilha onde Sofala estava localizada.
Pero da Covilhã pode rectificar este erro e chegou à convicção de que o caminho marítimo para a Índia era praticável. A sua jornada a Sofala, combinada com a viagem de Bartolomeu Dias, determinaram a expedição posterior de Vasco da Gama.
Alguns autores têm duvidado de que D. João II chegasse a receber a carta de Pero da Covilhã. Na primeira edição da sua história dos portugueses no Oriente, Castanheda diz que sim, mas na segunda edição diz o contrário.
Porém, se D. João II a recebesse, certamente teria feito segredo disso, e pode muito bem ser que mesmo a Garcia de Resende, seu íntimo amigo, nada tivesse contado, pois este cronista diz que a carta só chegou depois da morte de D. João II e da partida de Vasco da Gama.
A razão para pensar que o Rei chegou a receber a carta é que Vasco da Gama foi mandado directamente a Calecute e - diz João de Barros - levava, além das suas instruções, as notícias que D. João II recebera daqueles lugares e uma carta para o rei de Calecute.
Com toda a certeza foi a carta de Pero da Covilhã uma das fontes das instruções, embora outras existissem.
Pero da Covilhã levou Abraão a Ormuz e daqui se tornou este último para Portugal, depois de se ter instruído em tudo que o Rei desejava saber, ao passo que o primeiro seguia para Jeda e daqui para Meca, vestido de branco como um peregrino, com o cabelo rapado à navalha.
A visita ao lugar santo do islamismo era perigosa, não estava autorizada pelas instruções e só se pode atribuir ao amor das aventuras.
Ainda depois disto a sua curiosidade não ficou satisfeita, pois seguiu para Medina e, em seguida, para o Sinai, para o convento de Santa Catarina, onde, provavelmente, pela primeira vez em quatro anos, entrou numa igreja cristã e ouviu missa.
Em 1493, chegou finalmente à Abissínia e aqui terminaram as suas viagens; ou não o deixaram sair, ou, tendo casado e adquirido riquezas, não quis voltar a Portugal.
Foi o primeiro português que pisou o solo indiano e que viu o Preste João; pelo facto de residir durante mais de trinta anos na Abissínia, tornou-a conhecida da Europa como o não tinha sido até então, e preparou o caminho para a influência preponderante que Portugal ali desfrutou durante um século, graças aos seus embaixadores e aos seus soldados, e, mais do que a todos estes, aos missionários da Companhia de Jesus.
Se a Etiópia é ainda hoje um país cristão, deve-o à expedição de D. Cristóvão da Gama de 1541, pois, para citar a frase de Gibbon, " A Etiópia foi salva por quatrocentos e cinquenta portugueses"
(texto extraído de " descobrimentos portugueses " de Edgar Prestage...


Depois de haver El-rei mandado a Bartolomeu  Dias por mar, fez partir por terra um Religioso da Ordem de S. Francisco por nome Frei António de Lisboa, e a Pedro de Montarroyo, os quais partiram em companhia d'uns Religiosos Abexins, e por não saberem o Arabigo, se não atreveram a passar de Jerusalém; e considerando El-rei quão necessária coisa era a língua Arabiga, mandou a este negocio Pedro da Covilhã,  Cavaleiro da sua casa, que era homem que a sabia muito bem, e em sua companhia a Afonso de Paiva; os quais foram despachados em Santarém a 7 de Maio de 1487, sendo presente a este despacho D. Manuel, Duque de Beja.

Deu-lhes El-rei uma carta de marear, para que nela marcassem os lugares do senhorio do Preste, bem como o caminho por onde fossem. E para despesa da viagem, mandou-lhes dar da arca das despesas da horta d'Almeirim quatrocentos cruzados, para que tomando destes o que julgassem precisar, fosse o restante depositado no banco de Bartolomeu Florentino, recebendo eles uma carta de crédito para este os socorrer quando houvessem mister.
Partiram os nossos viajantes de Santarém com direcção a Barcelona, onde chegaram a 15 de Junho do dito ano, e daqui foram a Nápoles e à Ilha de Rhodes onde se achavam os Cavaleiros da Ordem de S. João de Jerusalém, mais vulgarmente conhecidos pelo nome de Malteses, em cuja religião não havia mais que dois Portugueses, que eram os Comendadores Frei Gonçalo Pimenta e Frei Fernão Gonçalves,  em casa dos quais pousaram; e dali como mercadores não só por ser esta a opinião de mais autores; como por assim o referir Gaspar Correia, que merece fé por ser um escritor contemporâneo de muitos factos, e haver militado na Índia, coisa que não fizeram outros escritores: e Barros de certo teve á vista algum documento em que se fundar. É preciso que declaremos, que havemos examinado com diligência, e cuidado os índices do Reinado de D, João II. e os posteriores que se acham no Real Arquivo; e não encontramos mercê alguma registada nem para Paiva, nem para Covilhã.
Passaram a Alexandria, e ao Cairo em companhia d'uns mouros de Fez e Tremecem; e vestidos como estes, penetraram em Toro ao pé do Monte Sinai na costa do Mar Roxo, donde demandaram, Quaquem na Abissínia, e depois a cidade de Adem na 'Arábia; e sabendo nesta, haver na Etiópia um grande Rei cristão, pareceu-lhes que este sem dúvida seria aquele que ElRei se denominava o Preste João; pelo que assentaram fazer caminho para ali.
 Porém, considerando que ele se chamava das Índias, e que a Etiópia não jazia na Índia, convencionaram, prosseguir.
 Afonso de Paiva neste caminho, e que Pedro da Covilhã voltasse á Índia, vindo em uma determinada época juntar-se no Cairo; e ali dariam mutuamente conta das novas que alcançassem; para que por este modo ficassem plenamente preenchidos os desejos d’el-rei ainda mesmo á custa dos maiores riscos e sacrifícios, pois em servi-lo punham o seu cuidado e obrigação: Não encontrou Covilhã, depois de ter corrido por Cananor, Calecut, Goa, Moçambique, Sofala, Quilôa, Mombaça, Melinde e Adem, novas do que buscava; pelo que foi pelo Mar Roxo á cidade do Cairo segundo o que havia ajustado, para dali voltarem ao reino a dar conta a El-rei do resultado de suas indagações e trabalhos. E sendo de volta soube que dois Judeus Portugueses andavam à sua procura, com os quais,  se viu muito secretamente; a um chamavam Rabi Habrão morador em Beja, e ao outro José sapateiro de Lamego. Este José que havia pouco tempo andara naquelas partes, sabendo o quanto D. João  desejava obter informações das coisas da Índia, veio dar-lhe conta de como estivera na cidade de Babilónia, ora Bagdad, do que ali ouvira àcerca do trato de Ormuz, cidade se d'Alepo como vinham e Damasco. as especiarias e riqueza da Índia  deu causa a que El-rei o mandasse e a Rabi Habrão, como já dissemos, à procura de Paiva e Covilhã, para lhe comunicarem estas novas e acompanhá-los a alguma destas cidades.
 Pelos Judeus veio Covilhã a saber que era morto Afonso de Paiva,  e querendo voltar a Portugal, eles lhe entregaram as cartas de El-rei nas quais lhe dizia, se tinham visto tudo aquilo a que os mandara,
voltassem a Portugal receber as mercês que lhes destinava; e se o não tivessem, se não viessem embora sem ir a Ormuz saber alguma certeza do Preste João, pois para os acompanharem lhes mandava Rabi Habrão e a José. Não podia deixar Covilhã de obedecer ao mandado de El-rei, e logo enviou a Portugal José com carta sua avisando-o da morte de Afonso de Paiva e referindo-lhe o que tinha sabido do Preste.
Em virtude das ordens recebidas voltou Covilhã a Adem, navegou para Ormuz, tornou a Meca donde foi ao Monte Sinai visitar a casa da Bem aventurada Santa Catarina,  saiu segunda vez para Toro, dali a Zeila, e fez caminho por terra para a corte do Imperador da Etiópia, Rei dos Abexins, o qual se chamava Alexandre; a quem entregou as cartas que da parte d’el-rei levava escritas em língua Arábica, do que ele teve muito contentamento, e o mandou tratar muito bem. *
Estando já Pedro da Covilhã despachado pelo Rei, veio este a falecer, e como não tivesse filhos sucedeu no império seu irmão por nome Naut que obstou ao nosso Embaixador sair do Reino; e após este reinou seu filho David, que também lhe negou a licença. Neste estado, sem poder voltar á sua Pátria, a dar conta da missão que lhe fora encarregada; sem que ao menos pudesse enviar algumas noticias suas, resignou-se á sorte, farto de trabalhos e diligências: e como não pudesse sair daquele reino, consta se casara e tivera filhos; e ainda era vivo quando em 1520 D. Rodrigo de Lima foi por Embaixador ao Preste João. Não param aqui as indagações àcerca da existência do Preste; de Roma vem mandado a Portugal um frade da terra deste, com o qual falara El-rei, e largamente se informa do Covilhã não consta, mesmo, depois da embaixada de D. Rodrigo de Lima em 1520 em que ainda vivia, voltasse ao reino seu senhorio, e como aquele religioso voltasse á sua terra, El-rei lhe entregou cartas para o seu Príncipe. Por esta época aporta a Lisboa Bartolomeu Dias de Novais, do seu grande descobrimento; e contando a El-rei até onde chegara e vira, mais crescem as esperanças de D. João, que firme no propósito de prosseguir os nossos descobrimentos, manda aparelhar novos vasos
Estendiam-se nesta época os descobrimentos dos Portugueses até o rio do Infante, isto é, mil oitocentas oitenta e cinco léguas pela costa, quando a morte veio cortar os dias d’el-rei D. João II, que, com quanto se houvesse mostrado digno sucessor de Afonso V, e legasse a coroa mais aumentada do que dele a recebera, contudo a sua esperança se não havia realizado; a Índia estava ainda por descobrir, e a veracidade da existência do Preste João ficava também um problema.
Bem triste acabaria o Príncipe Perfeito a vida, se uma acção grande e espantosa, que há-de sempre ocupar um dos mais distintos lugares, na história de Portugal, nas dos descobrimentos, e na da Geografia; acção que jamais deixará de ser sabida e admirada por todos os povos, lhe não viesse recompensar esta mágoa, rememorar o seu reinado, o seu nome e o do insigne navegador Bartolomeu Dias de Novais, o dobrador do Cabo da Boa Esperança. E a que maior glória aspiraria e Monarca? que maior galardão desejara aquele, que ao depor o ceptro que havia empunhado, indigita ao seu sucessor um grande futuro, e lhe pode dizer: —A ti compete seguir o exemplo dos nossos maiores, que eu também segui; a ti cabe acabar a obra que eu comecei.

Canto 4.° • Estâncias 61 a 65 dos Lusíadas Luís de Camões

Manda seus mensageiros, que passaram,
Espanha, França, Itália celebrada
E lá no ilustre porto se embarcaram,
Onde já foi Parténope enterrada:
Nápoles, onde os Fados se mostraram,
Fazendo-a a várias gentes subjugada,
Pola ilustrar, no fim de tantos anos,
Co senhorio de ínclítos Hispanos.

Polo mar alto Sículo navegam;
Vão-se às praias de Rodes arenosas;
E dali às ribeiras altas chegam,
Que com a morte de Magno são famosas. •
Vão a Mênfis, e às terras, que se regam •
Das enchentes Nilóticas undosas;
Sobem a Etiópia, sobre Egipto,
Que de Cristo lá guarda o santo rito.

Passam também as ondas Eritreias,
Que o povo de Israel sem nau  passou;
Ficam-lhe atrás as serras Nabateas,
Que o filho de Ismael co  nome ornou;
As costas odoríferas Sabeias,
Cercam, com toda a Arábia descoberta,
Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.
  
 Entram no Estreito Pérsico, onde dura
Da confusa Babel, inda a memória;
Ali co  Tigre o Eufrates se mistura,
Que as fontes onde nascem tem por glória;
Dali vão em demanda da água pura,
Que causa inda será de larga história.
Do Indo, pelas ondas do Oceano,
Onde não se atreveu passar Trajano.

Viram  gentes incógnitas e estranhas
Da Índia, de Carmânia, e Gedrosia
Vendo vários costumes varias manhas,
Que cada região produz e cria.
Mas de vias tão ásperas, tamanhas,
Tornar-se facilmente não podia.
Lá morreram, enfim, e lá ficaram,

Que à desejada pátria não tornaram.

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