sexta-feira, 8 de junho de 2012

" ilha Terceira dos Açores - chegada dos Judeus"



Pelo  Dr. Francisco Miguel Nogueira

Historiador de Angra do Heroísmo, Terceira, Açores

http://www.dightonrock.com/terceiraachegadadosjudeus.htm

( Este artigo prova claramente a tolerância religiosa  dos Corte Reais  e o aproveitamento  humanitário e social dos Judeus Sefárdicos Portugueses, coisa que o Rei D. Manuel I não fez! )

Há exactos 511 anos, a 22 de Maio de 1501, os primeiros judeus expulsos de Portugal Continental aportaram aos Açores, pela Ilha Terceira, oferecidos como escravos a Vasco Anes Corte-Real, primogénito de João Vaz Corte-Real, que soube aproveitar as capacidades judaicas e integrá-los na sociedade.

Em 1492, os judeus foram expulsos de Espanha pelos Reis Católicos, pois não quiserem converter-se ao catolicismo, a grande bandeira destes reis, que tinham conseguido conquistar Granada neste ano, e expulsar os muçulmanos do seu último reduto na Península Ibérica.

Cerca de 60 000 judeus emigraram para Portugal, onde D. João II, O Príncipe Perfeito, abriu-lhes as portas, obrigando-os a pagar 8 cruzados por pessoa e concedendo-lhes, em troca, licença de trânsito por oito meses.

Aqueles que não tinham este dinheiro viram os seus bens confiscados para a Coroa e foram-lhes também retirados os filhos menores. Estes foram posteriormente baptizados e entregues à guarda de Álvaro de Caminha, que partiu com eles para o povoamento da ilha de São Tomé, onde a maioria não resistiu às condições do clima. D. João II queria, assim, forçar afixação de operários especializados em Portugal.

Com a morte de D. João II, sucedeu-lhe no trono o seu primo e cunhado D. Manuel I, que, embora fosse bastante tolerante com os Judeus, publicou, em 5 de Dezembro de 1496, um édito, em Muge, próximo de Lisboa, para a expulsão da comunidade judaica de Portugal, porque pretendia casar-se com a Infanta D. Isabel de Espanha, filha dos Reis Católicos e estes impuseram esta condição para haver boda.

D. Manuel I apercebeu-se que a saída dos judeus do País levaria, também, à fuga de capitais do Reino, pois a comunidade judaica era formada por um escola de mercadores, banqueiros, médicos, economistas, ourives, entre outras actividades.

Era portanto gente endinheirada. D. Manuel ofereceu barcos para quem quisesse sair do Reino, o que foi feito por poucas famílias abastadas, mas o Rei rapidamente mudou de estratégia.

Para D. Manuel I, a saída de tanta riqueza não podia acontecer, sobretudo num momento em que a aposta nos Descobrimentos era cada vez maior, e o capital judaico era muito necessário. Assim sendo, D. Manuel I decretou a conversão forçada de judeus, e até de muçulmanos, ao Cristianismo no prazo de dez meses. Nasceu, assim, o conceito de cristão-novo (vs os cristãos anteriores, chamados a partir de então de cristãos-velhos).

Em 1499, os cristãos-novos foram proibidos de sair de Portugal, mas tinham acesso a cargos políticos, administrativos e eclesiásticos. Além disso, D. Manuel I deixou-os praticar a sua religião de forma secreta, tendo uma política de grande benevolência para com os antigos judeus.

Contudo, a diferenciação entre cristãos-novos e velhos era muito grande e estes últimos, impuseram várias perseguições e até massacres, obrigando muitos dos cristãos-novos a sair do país. Estes sentiam-se portugueses de segunda.
        
Em 22 de Maio de 1501, aportaram à Terceira, vários náufragos cristãos-novos que fugiam à perseguição no Continente.

Estes se encontravam numa caravela que se dirigia para África, levando um grande número de judeus.

O mar bravio destruiu-lhes o barco e obrigou-os a pedir ajuda na Terceira, provavelmente através do actual Porto Judeu. Vasco Anes Corte-Real, o Capitão Donatário de Angra, avisou D. Manuel I do sucedido e o rei ofereceu-lhe os judeus como escravos. Assim nasceu a primeira colónia judaica na ilha da Terceira, Açores.

Vasco Anes Corte-Real rapidamente compreendeu as capacidades judaicas e o benefício que a ilha podia receber com tal presença, assim os judeus foram bem acolhidos e tratados como iguais, longe do fanatismo que singrava na capital do Reino.

A população cedo começou a entrar em contacto com os rituais judaicos, que lhes eram permitidos praticar.

Em 1558, a comunidade cristã-nova nos Açores já era grande e estes pagaram 150.000 cruzeiros à regente D. Catarina, avó de D. Sebastião, para prover as armadas da Índia.

Em troca, D. Catarina prorrogou o adiamento da pena de confisco de bens aos cristãos-novos por dez anos, deixando-os envolver-se na vida do arquipélago.

Em 1501, num momento de terror para os Judeus no Continente português, foram bem recebidos na Terceira, onde puderam implantar-se e formar as suas comunidades. Com o passar dos anos, as suas crenças misturaram-se com os costumes locais, fazendo da Terceira um bom exemplo da mistura de religiões, com características muito próprias.

Num momento de crise, é bom olharmos para estes exemplos e percebermos a importância da tolerância e do apoio às minorias. É necessário respeitar os outros  e não utilizar as desculpas dos problemas e da crise para desrespeitar a Liberdade e a individualidade de cada ser.


Não devemos ser falsos hipócritas, fingindo ser o que não somos, devemos assumir a nossa personalidade com defeitos e virtudes e respeitar as diferenças.


Comentário do Dr. João Moniz (Corte Real)

Décimo quarto descendente directo do João Vaz Carte Real

Meu Caro Amigo Francisco Miguel Nogueira obrigado por ter partilhado comigo o seu tema: Terceira - a chegada dos Judeus.

A Universidade dos Açôres está de parabéns pela inclusão do meu caro amigo como novo e dinâmico membro do seu corpo docente.

A presença Judia na Península Ibérica está documentada desde longa data.

O Concílio de Orleães, realizado no ano de 538, bem como o de Toledo em 633, já se referem a essa presença.

Desde a fundação da nacionalidade portuguesa, os Judeus, regra geral, viveram em Portugal, numa certa tranquilidade.

 Os Reis Católicos, Fernando e Isabel de Castela, determinaram a expulsão dos Judeus de Espanha, em 1492.

D. Manuel I, Rei de Portugal, não querendo desagradar aos seus duplamente sogros, expulsa os Judeus e os Mouros, mas apenas os que não quisessem receber o Baptismo, tornando-se assim cristãos novos, ou moçárabes.

D. Manuel I, Rei de Portugal, filho do Infante D. Fernando, Duque de Beja, é neto de D. Duarte, Rei de Portugal, Primo e cunhado de D. João II, visto que é irmão de D. Leonor, mulher de D. João II.

Foi Ayres Gomes da Silva, 5º Senhor de Vagos, irmão de D. Gonçallo Gomes da Silva, Alcaide Mór e Senhor de Abiul, avós de D. Joana Menezes da Silva, mulher de Sebastião Moniz Barreto, 2º Morgado Moniz Corte Real, que escreveu, a pedido D'El Rei D. João II, as suas disposições, onde declarava como herdeiro da Coroa e seu sucessor D. Manuel, Duque de Beja.

D. Ayres Gomes da Silva e seu cunhado, D. Álvaro de Castro, levaram a notícia ao sucessor escolhido.

Garcia de Resende na sua crónica, como testemunha ocular, enumera Ayres Gomes da Silva, entre os primeiros que assistiram à morte D'El Rei e diz, inclusivamente, que dos homens do nascimento, da estirpe de Ayres Gomes da Silva, só ele e o Prior do Crato estavam continuamente com o Rei, o assistiam, sem que para chegarem à sua presença fosse necessária permissão, condição "sine qua non", exigida para todos os outros.

A atitude inteligente e humana de Vasco Anes Corte Real, 2º Donatário de Angra, irmão de D. Joana Vaz Corte Real, mulher de Guilherme Moniz Barreto, primeiros Morgados Moniz Corte Real, muito bem explanada e realçada por si, espelha bem a compreensão e os tradicionais brandos costumes dos portugueses que se manifestaram na miscigenação, que proliferou em todos os territórios pertencentes a Portugal.


( a ) João Moniz (Corte Real)

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