sexta-feira, 22 de junho de 2012


Segunda viagem de Paulo Dias de Novais ao reino de N’Gola

“ Partimos desta Ilha de Cabo Verde, onde estivemos a véspera de Nossa Senhora do O, a dezassete de Dezembro de mil quinhentos e setenta e quatro, - Todo aquele dia e noite andou só a capitania em que vínhamos. Ao dia seguinte vimos o galeão pequeno, finalmente nos juntamos com muita alegria todas as velas ao terceiro dia da nossa partida.

Indo nós navegando por esta costa da Barbaria, fizemos dia de Natal um presépio muito devoto, o qual festejamos o melhor  que pudemos com artilharia e charamelas.

Mas não deixarei de contar uma coisa que nele aconteceu e foi muito maravilhosa e que até este dia se não tinha visto outra semelhante, que foi o mar festejar este alegre dia do Natal, louvando o Senhor com o seu pescado, porque amanheceu o nosso galeão com as mais velas, cercadas ao redor com tanta soma de peixes grossos sobre a água, que quase uma légua não se via outra cousa, e o que mais me espantava era que davam cambadelas como meninos com cabeça na água e todo o corpo em cima, outros dando grandes saltos para cima faziam grande estrondo no mar. Este espectáculo durou como duas horas.

Os marinheiros, como se não contentaram só com a vista, lhe fizeram alguns tiros com fisgas e farpões, mas eles se iam embora quebrando-lhes os aparelhos, porque vinham  louvar o Senhor e não era bem que os matassem em tal ofício, mas em outros tempos tomaram outros muito maiores.

Aos dezassete de Janeiro tivemos vista da ilha de Ano Bom, que está de Angola duzentas léguas e vinte e cinco de S. Tomé. Depois da linha até aqui tomámos muitos peixes grandes como toninhas, que são como porcos e outros semelhantes.

Uma coisa que vi que me espantou que era tirarem fogo de rabo de um peixe grande que chamam tubarão como de uma pederneira, e o fuzil era uma… não sendo isto osso, senão uma pele grossa e áspera. –

Trazia nesses dias o mar soma de areia em volta de muitos pedaços de caniços e paus que parecia corrente do rio, pelo que se começou de vigiar a costa.

Ao primeiro de Fevereiro nos pusemos na altura do rio Congo, sete graus da linha para cá. Este rio dizem ser grandíssimo e que entre pelo mar mais de trinta léguas.

Deitando o prumo, se acharam em sessenta braças de altura, o que a todos muito alegrou.
Neste dia se chegou ao galeão um peixe, andando algum tempo ao redor dele, o qual não mostrava outra cousa senão uma bandeira preta como grande asa de pavão direita a cima. E, correndo a gente do mar a ver esta novidade, espantou-se e nunca mais apareceu.

Aos oito dias de Fevereiro amanhecemos junto da costa do Congo. Viemos correndo todo o dia ao longo dela. É esta costa muito aprazível e de alguma maneira de longe se parece com o Tejo, indo de Santarém para Lisboa, porque é cheia de arvoredo grande e alto que se vê de dez léguas em terras e montes mui alegres.

È a terra toda verde e aprazível, que parecia estar semeada de parras, e iam ao longo do mar onde batem as ondas cópia de pássaros que mostram as barrigas vermelhas. Andámos ao longo desta costa três dias .

Aos vinte do dito mês tivemos vista da ponta desta Ilha de Luanda e de alguns navios que estavam ancorados no porto em chegando, as nossas cinco velas ao porto foram as três que connosco vieram que tomaram São Tomé. Vieram os principais da ilha em suas embarcações visitar o Senhor Governador, os quais nos deram muito boas novas do nosso padre Francisco de Gouveia.

Entre eles veio um piloto que juntamente nos deu novas do padre Francisco Monclaro e, ainda que eram do princípio de viagem, quando navegava para o Monomotapa nos alegrámos muito com elas……

( extraído de Antologia da terra Portuguesa, de Luís Forjaz Trigueiros " 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

" evolução da bandeira portuguesa "


   

A BANDEIRA DA NAÇÃO PORTUGUESA

( em actualização)

História:

É difícil fazer a história da Bandeira Nacional, dada a falta de Bandeiras anteriores ao Séc. XVIII.
De qualquer modo, o mais remoto uso das armas reais com o valor de símbolo nacional parece ter sido feito por D. Afonso Henriques. Um escudo de armas com uma cruz azul. Todavia, este dado não é seguro.
De 1185 a 1248, isto é, de D. Sancho I a D. Sancho II, o escudo era de prata.
Com D. Afonso III, foi-lhe acrescentada uma bordadura vermelha, enfeitada com castelos de ouro.
Por sua vez, D. João I aplicou-lhe a Cruz de Avis,  "Flor -de- Lis", logo a seguir à vitória da batalha de Aljubarrota em Agosto de 1485,  mais o campo branco das quinas, mantendo os escudetes laterais virados ao centro.
D. João II, porém, eliminou a Cruz de Avis, " Flor-de-Lis", em Março de 1485, mandando endireitar os escudetes das quinas, ou seja os escudetes laterais virados para baixo.
D. Manuel I usou uma bandeira branca com o escudo nacional ao centro.
Antes de partir para África, D. Sebastião mandou fechar a coroa real que se sobrepunha ao escudo.
Durante a Idade Média, a bandeira real era empunhada pelo Alferes-mor, que precedia o monarca quando este comandava pessoalmente as suas tropas numa batalha.
Vários materiais constituíram o pano da bandeira real; cetim, tafetá, ruão, damasco, diversas quantidades de seda.
Do mesmo modo, as suas dimensões variavam muito, tal como variou o seu formato - ora quadrada, ora rectangular. Aliás, pelo menos na Idade Média, o rei dispunha não só da bandeira, mas também, do estandarte e de guião. Já o pendão era apenas insígnia de cavaleiros e escudeiros.
A bandeira branca manteve-se até 1826, como símbolo representativo do reino unido de Portugal, do Brasil e dos Algarves, apenas com algumas variações nas armas.
Com D. Pedro IV, por decreto de 18 de Outubro de 1830, a bandeira passou a ter duas zonas de cor ( branco e azul ), separadas na vertical. Entretanto, o conceito de nação começou a impor-se ao de reino em consequência das limitações do poder real pelo regime liberal.
Após a proclamação da República, foi constituída uma Comissão (composta por Columbano Bordalo PinheiroJoão Chagas e Abel Botelho, entre outros) com o encargo oficial de propor um projecto de Bandeira Nacional.
Uma vez apresentado tal projecto, foi aprovado pelo Governo Provisório e pela Assembleia.
Por decreto de 19 de Junho de 1911, ficavam definidas - de modo inalterável até hoje -as características da bandeira portuguesa.
Bipartida na vertical, ficaria com duas cores principais: o verde-escuro e o vermelho.
As armas nacionais sobre a linha de divisão das duas grandes zonas de cor.
Por sua vez, o escudo (vermelho e branco) assentaria numa esfera armilar (amarela, com rebordo preto).
O pano verde - significa a esperança dos portugueses serem livres e independentes. O pano vermelho- significa o sangue vertido em todos os Continentes do Mundo, através da História, na consolidação da liberdade e independência.
O Escudo de prata, com cinco escudetes de azul dispostos em cruz, vem do tempo dos reinados de D. Sancho I e D. Sancho II (1185 -1248).
Aos cinco escudetes de azul dá o povo a designação imprópria de Quinas.
O Escudo das quinas é o emblema dos feitos heróicos dos antepassados na dilação ou na defesa do Solo Pátrio.
Os Besantes, pequenos círculos que originalmente eram moedas de ouro ou prata pregadas no escudo para simbolizar o direito soberano de cunhar moeda, estão inscritos nos escudetes e foram fixados em número de cinco por D. Sebastião (1557 - 1578) por o seu número ser variável.
Os Castelos, fixados por D. João II em número de sete, pela mesma razão, são rematados por três torres, das quais a central é um pouco mais elevada.
Foi no tempo de Afonso III (1248-1279), depois da anexação definitiva do Algarve, que se adicionou às armas nacionais a bordadura vermelha na qual se inscrevem os castelos de ouro.
A Esfera Armilar que, como o seu nome indica, é constituída apenas por círculos que representam o horizonte, o meridiano, o equador, a elíptica, etc. de um sistema astronómico convencional, cujo centro se supõe ser a terra, era a divisa pessoal de D. Manuel I (1485 - 1521 ), e foi introduzida na Bandeira no reinado de D. João VI (1816-1826), sendo colocada atrás do escudo. lavrada a ouro, ficando assim inscrito nela o escudo de Portugal.
A esfera Armilar, símbolo da grandeza do Império e da Glória da História Portuguesa.
Símbolo da existência, do grandioso feito da universalidade - OS DESCOBRIMENTOS.
É esta a Bandeira, nobre e gloriosa, que ao longo de toda a História tão alto se ergueu e ergue, para esplendor de Portugal.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

" ilha Terceira dos Açores - chegada dos Judeus"



Pelo  Dr. Francisco Miguel Nogueira

Historiador de Angra do Heroísmo, Terceira, Açores

http://www.dightonrock.com/terceiraachegadadosjudeus.htm

( Este artigo prova claramente a tolerância religiosa  dos Corte Reais  e o aproveitamento  humanitário e social dos Judeus Sefárdicos Portugueses, coisa que o Rei D. Manuel I não fez! )

Há exactos 511 anos, a 22 de Maio de 1501, os primeiros judeus expulsos de Portugal Continental aportaram aos Açores, pela Ilha Terceira, oferecidos como escravos a Vasco Anes Corte-Real, primogénito de João Vaz Corte-Real, que soube aproveitar as capacidades judaicas e integrá-los na sociedade.

Em 1492, os judeus foram expulsos de Espanha pelos Reis Católicos, pois não quiserem converter-se ao catolicismo, a grande bandeira destes reis, que tinham conseguido conquistar Granada neste ano, e expulsar os muçulmanos do seu último reduto na Península Ibérica.

Cerca de 60 000 judeus emigraram para Portugal, onde D. João II, O Príncipe Perfeito, abriu-lhes as portas, obrigando-os a pagar 8 cruzados por pessoa e concedendo-lhes, em troca, licença de trânsito por oito meses.

Aqueles que não tinham este dinheiro viram os seus bens confiscados para a Coroa e foram-lhes também retirados os filhos menores. Estes foram posteriormente baptizados e entregues à guarda de Álvaro de Caminha, que partiu com eles para o povoamento da ilha de São Tomé, onde a maioria não resistiu às condições do clima. D. João II queria, assim, forçar afixação de operários especializados em Portugal.

Com a morte de D. João II, sucedeu-lhe no trono o seu primo e cunhado D. Manuel I, que, embora fosse bastante tolerante com os Judeus, publicou, em 5 de Dezembro de 1496, um édito, em Muge, próximo de Lisboa, para a expulsão da comunidade judaica de Portugal, porque pretendia casar-se com a Infanta D. Isabel de Espanha, filha dos Reis Católicos e estes impuseram esta condição para haver boda.

D. Manuel I apercebeu-se que a saída dos judeus do País levaria, também, à fuga de capitais do Reino, pois a comunidade judaica era formada por um escola de mercadores, banqueiros, médicos, economistas, ourives, entre outras actividades.

Era portanto gente endinheirada. D. Manuel ofereceu barcos para quem quisesse sair do Reino, o que foi feito por poucas famílias abastadas, mas o Rei rapidamente mudou de estratégia.

Para D. Manuel I, a saída de tanta riqueza não podia acontecer, sobretudo num momento em que a aposta nos Descobrimentos era cada vez maior, e o capital judaico era muito necessário. Assim sendo, D. Manuel I decretou a conversão forçada de judeus, e até de muçulmanos, ao Cristianismo no prazo de dez meses. Nasceu, assim, o conceito de cristão-novo (vs os cristãos anteriores, chamados a partir de então de cristãos-velhos).

Em 1499, os cristãos-novos foram proibidos de sair de Portugal, mas tinham acesso a cargos políticos, administrativos e eclesiásticos. Além disso, D. Manuel I deixou-os praticar a sua religião de forma secreta, tendo uma política de grande benevolência para com os antigos judeus.

Contudo, a diferenciação entre cristãos-novos e velhos era muito grande e estes últimos, impuseram várias perseguições e até massacres, obrigando muitos dos cristãos-novos a sair do país. Estes sentiam-se portugueses de segunda.
        
Em 22 de Maio de 1501, aportaram à Terceira, vários náufragos cristãos-novos que fugiam à perseguição no Continente.

Estes se encontravam numa caravela que se dirigia para África, levando um grande número de judeus.

O mar bravio destruiu-lhes o barco e obrigou-os a pedir ajuda na Terceira, provavelmente através do actual Porto Judeu. Vasco Anes Corte-Real, o Capitão Donatário de Angra, avisou D. Manuel I do sucedido e o rei ofereceu-lhe os judeus como escravos. Assim nasceu a primeira colónia judaica na ilha da Terceira, Açores.

Vasco Anes Corte-Real rapidamente compreendeu as capacidades judaicas e o benefício que a ilha podia receber com tal presença, assim os judeus foram bem acolhidos e tratados como iguais, longe do fanatismo que singrava na capital do Reino.

A população cedo começou a entrar em contacto com os rituais judaicos, que lhes eram permitidos praticar.

Em 1558, a comunidade cristã-nova nos Açores já era grande e estes pagaram 150.000 cruzeiros à regente D. Catarina, avó de D. Sebastião, para prover as armadas da Índia.

Em troca, D. Catarina prorrogou o adiamento da pena de confisco de bens aos cristãos-novos por dez anos, deixando-os envolver-se na vida do arquipélago.

Em 1501, num momento de terror para os Judeus no Continente português, foram bem recebidos na Terceira, onde puderam implantar-se e formar as suas comunidades. Com o passar dos anos, as suas crenças misturaram-se com os costumes locais, fazendo da Terceira um bom exemplo da mistura de religiões, com características muito próprias.

Num momento de crise, é bom olharmos para estes exemplos e percebermos a importância da tolerância e do apoio às minorias. É necessário respeitar os outros  e não utilizar as desculpas dos problemas e da crise para desrespeitar a Liberdade e a individualidade de cada ser.


Não devemos ser falsos hipócritas, fingindo ser o que não somos, devemos assumir a nossa personalidade com defeitos e virtudes e respeitar as diferenças.


Comentário do Dr. João Moniz (Corte Real)

Décimo quarto descendente directo do João Vaz Carte Real

Meu Caro Amigo Francisco Miguel Nogueira obrigado por ter partilhado comigo o seu tema: Terceira - a chegada dos Judeus.

A Universidade dos Açôres está de parabéns pela inclusão do meu caro amigo como novo e dinâmico membro do seu corpo docente.

A presença Judia na Península Ibérica está documentada desde longa data.

O Concílio de Orleães, realizado no ano de 538, bem como o de Toledo em 633, já se referem a essa presença.

Desde a fundação da nacionalidade portuguesa, os Judeus, regra geral, viveram em Portugal, numa certa tranquilidade.

 Os Reis Católicos, Fernando e Isabel de Castela, determinaram a expulsão dos Judeus de Espanha, em 1492.

D. Manuel I, Rei de Portugal, não querendo desagradar aos seus duplamente sogros, expulsa os Judeus e os Mouros, mas apenas os que não quisessem receber o Baptismo, tornando-se assim cristãos novos, ou moçárabes.

D. Manuel I, Rei de Portugal, filho do Infante D. Fernando, Duque de Beja, é neto de D. Duarte, Rei de Portugal, Primo e cunhado de D. João II, visto que é irmão de D. Leonor, mulher de D. João II.

Foi Ayres Gomes da Silva, 5º Senhor de Vagos, irmão de D. Gonçallo Gomes da Silva, Alcaide Mór e Senhor de Abiul, avós de D. Joana Menezes da Silva, mulher de Sebastião Moniz Barreto, 2º Morgado Moniz Corte Real, que escreveu, a pedido D'El Rei D. João II, as suas disposições, onde declarava como herdeiro da Coroa e seu sucessor D. Manuel, Duque de Beja.

D. Ayres Gomes da Silva e seu cunhado, D. Álvaro de Castro, levaram a notícia ao sucessor escolhido.

Garcia de Resende na sua crónica, como testemunha ocular, enumera Ayres Gomes da Silva, entre os primeiros que assistiram à morte D'El Rei e diz, inclusivamente, que dos homens do nascimento, da estirpe de Ayres Gomes da Silva, só ele e o Prior do Crato estavam continuamente com o Rei, o assistiam, sem que para chegarem à sua presença fosse necessária permissão, condição "sine qua non", exigida para todos os outros.

A atitude inteligente e humana de Vasco Anes Corte Real, 2º Donatário de Angra, irmão de D. Joana Vaz Corte Real, mulher de Guilherme Moniz Barreto, primeiros Morgados Moniz Corte Real, muito bem explanada e realçada por si, espelha bem a compreensão e os tradicionais brandos costumes dos portugueses que se manifestaram na miscigenação, que proliferou em todos os territórios pertencentes a Portugal.


( a ) João Moniz (Corte Real)