domingo, 19 de dezembro de 2010

" mapa-múndi de Fra Mauro de 1459"

 cópia do original mapa mundi de Fra Mauro de 1459

Uma cópia de uma versão do mapa mundi de Fra Mauro
João G. Ramalho Fialho

Quem foi Fra Mauro?!

Foi monge dos Camaldulenses em Veneza, no Mosteiro de S. Michele de Murano. Aí desenvolveu o seu trabalho de cartógrafo (temos notícia de em 1443 estar a elaborar um mapa da Istria), chegando mesmo a deixar discípulos importantes, como é o caso de Andrea Bianco.
É comumente considerado o melhor cartógrafo erudito medieval, pode-se dizer que apenas se encontra num estádio de maior avanço técnico e científico de muitos anteriores. A sua obra situar-se-á assim num momento de transição entre a Idade Média e a cartografia do Renascimento.
A cartografia medieval, de um modo geral até ao século XIV, era basicamente esquemática e simbólica, sendo os seus mapas conhecidos por T–O, pois o mundo era apresentado por um círculo, em que no seu interior o T, formado por três rios, divide a Ásia, ao cimo, a Europa e a África, em baixo. Jerusalém situava-se quase sempre no centro.
Este tipo de esquema vai-se tornando cada vez mais complexo e começa a surgir o Mediterrâneo mais ou menos correctamente representado, assim como as informações e legendas de carácter económico ou social se vão multiplicando pelos vários continentes representados.
Ora, o planisfério de Fra Mauro é profícuo em tais características, o que leva a considerar que o seu autor represente o culminar deste tipo de cartografia, como já dissemos.
O Planisfério de Fra Mauro, terminado em 1459, foi uma encomenda do Rei de Portugal, D. Afonso V.
Sobre o seu pagamento há alguns documentos na Torre do Tombo e no Arquivo de Murano. Em Lisboa existe uma carta de quitação (Chancelaria de D. Afonso V, Lv. 1, fl.2) onde está inscrita a verba de 30 ducados para pagar aos pintores do mapa de Veneza.
Em Murano aparecem 3 assentamentos relativos a pagamentos. Um de 28 ducados, de 8-II-1457, e outros dois de 1459 (17 de Março e 24 de Abril), um refere 2 ducados, e o outro afirma que o mapa está pronto.
Veja-se agora as principais características de tão famoso mapa-mundo. As suas dimensões são bastante grandes, com 196 cm de diâmetro, ainda o podemos considerar um T-O, com a forma circular e um oceano a toda a volta, invulgarmente está orientado para Sul, ou seja o topo do mapa corresponde ao Sul, ou ao fim de África, o que David Woodward considera ser influência árabe.
Relativamente ao centro temos o Mediterrâneo que está mais ou menos correcto, o que se deverá à influência dos portulanos e das informações de Ptolomeu.
Os desenhos da Ásia, embora incorrectos, aparecendo bastante maior do que na realidade (outro dado de Ptolomeu), têm importantes legendas e informações de carácter comercial.
Estas devem-se aos escritos de Marco Polo, que influenciam bastante o cartógrafo. Assim, aparecem referenciados o Cataio, o Cipango e a Insulíndia descrita por Polo. Na China aparecem os vários «reinos» e indicações acerca da Rota da Seda.
Outra zona a que Fra Mauro atribui bastante importância é a da costa oriental de África, o Índico em geral, embora a Índia esteja bastante mal representada.
Isto deve-se às fontes que utilizou, as informações dos comerciantes e viajantes árabes. Assim, interessa-se bastante pelo comércio e navegação dos muçulmanos até Sofala. Será este conjunto de informações que o levará a pensar que o Índico não é um mar fechado, é por isso que representa a África, a Sul, desligada de qualquer continente.
Ora, tal facto é bastante importante, pois como o mapa se destinou a Portugal, será bem provável que a ele se tenha devido o plano de atingir a Índia das especiarias através da Costa Ocidental Africana, não apenas o reino de Preste João.
Outro dado importante deste Planisfério é a referência às viagens portuguesas, principalmente ao Golfo da Guiné.
Diz que a exploração daquela zona se deve ao Rei de Portugal, que recebeu cópias de cartas portuguesas com as novas informações geográficas. Tais dados levam Fra Mauro a afirmar, ao contrário de Ptolomeu e outros autores que a navegação e sobrevivência nas zonas tórridas era possível.
Assim se verifica a importância deste Planisfério, pois mostra aspectos da cartografia medieval tradicional, que tenta conjugar com os novos dados da observação das viagens que os portugueses e outros iam fazendo.
Biografia: Introdução à História dos Descobrimentos Portugueses, 4ª Ed., Mem Martins, Europa-América, [s.d.]. CORTESÃO, Armando, Cartografia e Cartógrafos Portugueses dos séculos XV e XVI. (Contribuição para um estudo completo), vol.1, Lisboa, Seara Nova, 1935. IDEM, História da Cartografia Portuguesa, 2 vols., Lisboa, Coimbra, Junta de Investigações do Ultramar/ 1969-1970. GONÇALVES, Júlio, Motivos Portugueses no Planisfério de Fra-Mauro, Lisboa, Aca-demia das Ciências, 1961. NORDENSKIÖLD, A. E., Periplus. An Essay on the Early History of Charts and Saling-directions, Estocolmo, P. A. Norstodt & Söner, 1897. WOODWARD, David, HARLEY, J. B., The history of Cartography. Volume One. Cartography in Prehistoric Ancient and Medieval Europe and the Mediterranean, Chicago/Londres, The University of Chicago Press, 1987.


1 comentário:

  1. Olá,
    Gostei muito da informação, li o livro sonhos de um cartógrafo.
    Estou preparando um musical que iremos apresentar no próximo semestre com a direção do livro de sonhos de Fra Mauro.
    veja www.outrasgeografias.blogspot.com

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