quinta-feira, 11 de novembro de 2010

" histórias da ciência "



Produção Centro de Estudos da História das Ciências Naturais e da Saúde (CEHCNS) – Instituto de Investigação Científica Bento da Rocha Cabral (IICBRC) / Culturgest

Com o apoio da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT).

Algumas pessoas querem saber tudo sobre a SIDA, e estão muito enervadas porque a gente ainda não acabou com ela.

Mas, entretanto, há outras pessoas, porventura mais sensatas, ou pelo menos mais sensíveis ao verdadeiro pulso do mundo, que já entraram na fase de fazer comícios contra as verbas e as energias gastas à volta do nosso flagelo moderno, perguntando por que é que já agora não se fazem os mesmos esforços com a malária, que mata muito mais gente.

No fim dos anos 70 estavam referenciados 120 milhões de casos. E a tendência, depois disso e até hoje mesmo, tem sido tudo menos regressiva. Claro, a malária grassa numa zona do Globo de que ninguém quer saber. E uma doença que não atinge os países ricos, mas sim os países pobres.

E não é nova, não é espectacular, por isso não tem grandes probabilidades de levar quem a estude e combata direitinho aos louros do Nobel. Ainda por cima, ao contrario da SIDA, não tem aquelas tórridas cotações pecaminosas que tornam tudo mais apetitoso.

À semelhança da SIDA, a malária pode contrair-se por uso de seringas infectadas que contenham sangue, ou por transfusões de sangue de dadores contaminados. Mas, depois destas duas, já não há mais pontes.

Longe da fumarada picante nos bares homossexuais da imaginação colectiva, o transmissor da malária é um mosquito, a fêmea, do género Anopheles.

E, quanto à novidade, estamos conversados: Hipocrates já tinha descrito a malária na sua catalogação dos vários tipos de febre, cinco séculos antes de Cristo, tornando-a uma das mais antigas infecções
conhecidas.

A sua entrada na América deve ter sido forçada pelas naus de Colombo, com os primeiros surtos epidémicos no Novo Mundo registados a partir de 1493. Olhem, foi troca por troca. A gente levou para lá a malária e em troca trouxe a síflis. Os moinhos de Deus moem devagar, mas moem finíssimo.

Depois de concluídas as Descobertas e contaminado o mundo inteiro, descobriu-se que a casca de uma árvore se mostrava muito activa contra a febre epidémica. No século XVII já se sabia purificar o quinino a partir dessa casca. Dois séculos mais tarde identificou-se o mosquito devastador.

Mas. Mesmo hoje. Mesmo com tudo compreendido. Mesmo com o quinino. Mesmo com a anemia fauciforme, uma doença que afecta algumas populações africanas das zonas com mais mosquitos, e faz os glóbulos vermelhos do sangue tornarem-se rididos e adquirem o aspecto característico de foice que deu o nome ao sintoma, e deixa os atingidos mais fracos mas simultaneamente mais resistentes à malária.

Mesmo com todas as defesas, espontâneas ou construídas, que o nosso novo milénio nos oferece, a febre antiquíssima está aí para lavar e durar. E, em muitos casos, para matar.

Na base da dificuldade de erradicação está o extraordinário sucesso adaptativo do organismo minúsculo, unicelular, que causa os estragos, e que montou um ciclo de vida com reprodução alternadamente sexuada e assexuada que lhe permite fazer face a quase tudo.


E um protozoário chamado plasmódio, que, no início da viagem fantástica, se encontra à espera de vez nas glândulas salivares da fêmea do mosquito.

Desce à noite sobre as planícies de África, e as fêmeas partem, aos milhares, para a caçada da noite. Sangue.

Ao morder o homem que se encontrava parado a beira da lagoa, a fêmea atravessou-lhe a pele com o seu aguilhão e injectou-lhe no fluxo sanguíneo um pouco de saliva, para que o precioso alimento, quente e nutritivo, não coagule enquanto ela o chupa. O homem nem deu por nada.

Mas a gota de saliva já seguiu o seu caminho pela circulação, e dentro dela vão os plasmódios, células cumpridas e irrequietas que só esperavam por isto. No sangue viajarão até atingirem o fígado, que é grande e bom, e lhes oferece o acolhimento ideal.

Aqui, ou no baço, podem ficar em repouso mais de 20 anos. Ou entrar logo em acção. Cada plasmódio infecta uma célula, e aqui dentro, alimentando-se dela, desata a copiar-se freneticamente a si próprio, numa reprodução que dispensa recombinação genética e se limita a replicar, uma vez e mais outra, o seu ADN muito simples.

Finalmente, sem dó nem piedade, o parasita multiplicado faz rebentar a sua hospedeira, e salta cá para fora às centenas.

Algumas das cópias vão parasitar novas células ali mesmo ao lado, para mais e mais se recopiarem.

Outras retomam a boleia do sangue, e vão fazer nos glóbulos vermelhos o que já tenham feito no fígado.

O cenário é agora outro, mas o enredo repete-se: alimentando-se dos nutrientes que não lhes eram destinados, os parasitas copiam-se e recopiam-se dentro das pobres células, fazem-nas rebentar, saem às centenas, parasitam novos glóbulos, e assim por diante numa escalada infernal.

O homem que foi mordido pela fêmea do mosquito não percebe o que se passa consigo, mas no seu sangue há milhões de células que morrem ao mesmo tempo, enquanto milhões de novos parasitas, pululando por divisão assexuada, lhes infestam a circulação.

Ele sente febre, arrepios, dores, uma prostração tremenda.

Lá dentro, os plasmódios antevêem a sua morte e preparam-se para sair depressa dali, como ratos abandonando o porão de um navio em apuros, porque sabem que de outra forma morrerão também.

Até agora, tudo era muito fácil, e a simples cópia bastava. Mas, para a longa jornada até às glândulas salivares de um novo mosquito, onde se encontrem em condições de ir infectar um novo hospedeiro, os perigos que espreitam os plasmódios são muitos e imprevisíveis.

Uma boa rodada de reprodução sexuada, com recombinação de genes e maiores possibilidades de diversificação, para fazer face às adversidades, parece agora mais conveniente. Vamos a isso, dizem os protozoários.

E eis que alguns de entre eles tomam configurações especiais, deformando o glóbulo vermelho sem no entanto o romperem. Vem outro mosquito, e de novo pica o pobre homem.

Chupa aquele sangue, com aquelas células.

Na viagem do estômago para o intestino, o glóbulo rebenta, e os plasmódios modificados que saem de lá de dentro revelam ser... duas espécies diferentes de células sexuais, umas grandes como os óvulos, outras ondulantes e finas como os espermatozóides!


No segredo do intestino estes dois tipos de células fundem-se, e recriam plasmódios inteiramente novos, agressivos e determinados como os progenitores antes deles.

São estes jovens que, por seu turno, infectam as células do intestino do mosquito, desatando a copiar-se como se não soubessem fazer mais nada na vida, rebentando por fim com as células que os acolheram e saindo cá para fora as centenas, até já serem em número suficiente para se irem armazenar nas glândulas salivares, esperando a nova picada, e a viagem para dentro de outro homem que esteja ao fim da tarde à beira de uma lagoa.

Em certas regiões de África e da Ásia, há hoje populações que se consideram potencialmente afectados por inteiro.

Último retoque: não é uma especial malevolência feminina o que tão definitivamente separa a culpabilidade entre os dois sexos do mosquito.

É que só as fêmeas do género se alimentam de sangue. Os machos, esses preferem dietas vegetarianas.

Dimorfismo trófico, chama-se esta diferença sexual de regimes alimentares. Entre os insectos, e muito frequente.

Gostaram? Durmam bem. E não se esqueçam de meter a “Resoquina” na mala.



"Clara Pinto Correia"

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