terça-feira, 28 de setembro de 2010

" o reino do Congo no séc. XV"


Duarte Lopes e Filippo Pigafetta de " relação do reino do Congo e das terras circunvizinhas"

"O Reino de Congo"



O reino de Congo se deslinda em quatro lados.

No do Poente, banhado pelo mar Oceano;

No do Setentrião; no do Levante; e no último, que está contra o Meio-Dia; e, começando pelo marítimo lado, principia ele na enseada dita das Vacas, que é altura 13 graus da parte do Antárctico, e seguindo pela costa, no Norte, acaba em 4 graus e meio, antes da Equinocial, que são 630 milhas.

A Baía das Vacas é um porto de mediana grandeza, mas bom e capaz de qualquer navio; e denomina-se das Vacas, porque a terra chã e fértil de vitualhas de todas as maneiras; e acham-se a vender publicamente alguns metais, com especialidade a prata; e é sujeita a El-Rei de Angola.

Mais adiante, encontra-se o Rio Benguela, onde governa um senhor vassalo de El-Rei de Angola; em volta do qual se alarga a região, simil à referida terra; e, procedendo avante, flui o Rio Longa, assim chamado entre os Portugueses, por ser navegável 25 milhas por ele acima, em parte semelhante ao precedente.

Segue-se o Rio Coanza, que sai de um lago pequeno, feito por certo rio que mana do primeiro grande lago que dá origem ao Nilo, do qual havemos de escrever, em outra parte desta escritura; e é largo na boca duas milhas, e por ele se navega, em barcos pequenos, contra o curso da água, umas 100 milhas, mas não tem porto.

Note-se que toda esta terra, que nomeamos, soia de ser tributária a E-Rei de Congo; porém, de algum tempo para cá, o governador daquela comarca tornou-se senhor absoluto dela, e faz profissão de ser amigo, e não vassalo de El- Rei de Congo, e, contudo, manda-lhe às vezes algum presente à guisa de tributo.

 Após o Rio Coanza jaz o porto de Loanda, que está em 10 graus de largura, formado, como se disse, por uma ilha chamada Loanda, que quer dizer, naquela língua, terra raza, sem montes e baixa, que ela pouco se alevanta sobre o Oceano, e é feita da areia e vaza do mar e do Rio Coanza, encontrando-se os seus cursos, e caindo ali no fundo a matéria; terá de comprimento 20 milhas e de largura, quando muito, uma milha, e, em alguns lugares, um tiro de arco somente; e coisa maravilhosa é que naquela areia, cavando-se dois ou três palmos de fundo, se acha água doce, a melhor daquelas comarcas; e sucede nela um efeito estranho; pois, como o Oceano baixa, aquela água se torna um pouco salgada, porém, logo que sobe de todo, é dulcíssima: coisa que na Ilha de Cádiz, em Espanha, segundo o testemunho de Estrabão, assim acontecia.


Esta Ilha [ de Loanda] é a mineira da moeda que gasta El – Rei de Congo e os povos das regiões circundantes; porquanto, nas suas praias, é recolhida por mulheres que, mergulhando no mar duas braças, e mais, enchem as cestas de areia e depois separam o saibro dos búzios pequenos; discernindo-se o macho da fêmea por ser mais fina a fêmea que o macho, e estimada na sua cor tersa, reluzente e grata à vista.

Estes marisquinhos nascem em todas as praias do Reino de Congo; porém, os melhores são os de Loanda, porque se mostram subtis e de cor brilhante, morena ou parda, e também de outra cor não tanto apreciada. Notai que o ouro e a prata e o metal não são tidos em estima, nem em uso de moeda, naquelas partes, mas os búzios; e sucede que com o o ouro e com a prata, em massa ou batidos em moeda, não se pode comprar coisa alguma, senão com búzios; e o próprio ouro e prata se adquire com eles.

Naquela ilha há sete ou oito aldeias, nomeadas, por linguagem da terra, Libatas; e a principal se apelida do Espíritp Santo, na qual assiste o governador, mandado de Congo, que administra a justiça e faz tesouro das moedas de búzios; há nela cabras e ovelhas e porcos monteses assaz, tornados de domésticos selváticos, que vivem nas matas; e nasce ali uma árvore, chamada Ençanha, grande e sempre verde, a qual é dotada de singular qualidade, por isso que os seus ramos, que se expandem no alto, descem como cordas, que, caindo em terra, produzem raízes, de que brota, outras plantas, multiplicando nessa maneira; e dentro da primeira casca uma certa quase tela que, batida e limpa, a estiram ao comprido e largo; e dela se vestem os homens e mulheres de ínfima condição.


Nesta ilha usam lenhos entre si, e formados à guisa de barcos com popa e proa, e movidos a remos e à vela; e neles pescam ao longo daquelas costas, abundantíssimas de pescaria, e vão também à terra firme.

Na parte que está voltada à terra, em certas baixas, crescem árvores que, vazando a água do Oceano, se descobrem e aos pés delas se acham presas ostras, que têm dentro a carne do tamanho da mão, boas e conhecidas daquelas gentes que lhes chamam ambissematare, que significa peixe de pedra.

E as conchinhas ou cascas das ostras, queimam-nas e fazem cal muito boa para fabricar; e com as cascas, que são a modo de cortiça, da árvore denominada mangue, tanam-se as pelas dos bois para fazer as solas de sapatos. Em suma, a ilha não produz trigo nem vides; contudo, levam-se para lá os mantimentos dos arrabaldes, com fundamento de se obterem daqueles búzios; porquanto assim como noutros lugares com dinheiros de metal se compram quase todas as coisas, ali é com os búzios.

Donde se pode advertir que não somente no Reino de Congo, mas também na vizinha Etiópia na África e nos reinos da China e em alguns das Índias, se usam as moedas de outra matéria diferente do metal, seja ouro, prata, ou cobre, ou sua liga: pois se despendia a pimenta na Etiópia; e no reino de Tambucutum, que é à beira do Rio Niger, dito Çanagá, giram conchinhas e búzios, assim como nos Azenegues que gastam porceletas, e no Reino de Benguela, juntamente com o metal, se dão porcelas.

Na China, correm certas conchinhas ou búzios, que se chamam porcelanas; e, alhures, carta estampada com o sinal do Rei, e côdeas da árvore dita Amoreira: de modo que o preço equiparado a qualquer outra coisa, não é em todo universo mundo o metal, como na Europa e em outros muitos e diversos lugares da terra.

Esta ilha, no mais estreito, é vizinhíssima à terra; e o canal passa-o aquela gente, às vezes, a nado, no qual estreito emergem do Oceano algumas ilhetas, que ficam descobertas de água na baixa-mar e se recobrem no preia-mar; e nelas se vêem árvores grandes, aos troncos das quais estão apegadas, como dissemos, boníssimas ostras.

Perto desta ilha, junto à costa, nadam ao cimo da água inumeráveis baleias, que parecem negras e lutam entre si e se matam, e depois à praia são pelas ondas arremessadas , grandes como um navio médio de gávea; e, quando isso acontece, os negros vão nos batéis apanhá-las, e extraem delas o óleo de que se servem para as embarcações, misturando-o com o breu.

Crescem no dorso destes animais muitas conchinhas, feotas à guisa de caracóis e de cramujos e de semelhantes búzios; e afirmava o senhor Duarte tê-las visto frequentemente, e que o âmbar não nasce delas, porque em toda a costa de Congo, onde há infinidade das mesmas, não se encontra âmbar pardo, nem negro, nem alvo, em lugar nenhum; e também seria necessário que, se saísse de tais bichos, aparecesse naquelas costas assaz dessa matéria.


O porto principal tem a sua embocadura, para o Setentrião, larga meia milha, na parte onde o fundo é grandíssimo; e em terra firme, ao direito, está a vila de S. Paulo, habitada toda de Portugueses, com suas mulheres, levadas de Espanha, sem ser, porém, fortificada.
Todo este canal é muito piscoso e, especialmente de sardinhas, e enguias em tamanha quantidade, no Inverno, que estas mesmas saltam para terra; e de outras espécies de peixes muito bons, como linguados, solhos, barbos, e de todo o nobre peixe, e de lagostas, grandes e bastíssimas, em cópia tal e sadias que a maior parte dos homens daquelas costas vivem delas.

No canal lança-se o rio chamado Bengo, que é grande e navegável por ele acima 25 milhas; e este com outro rio, o Coanza, a que já nos referimos, formam a ilha de Loanda, encontrando-se as suas águas, depositando a areia, e alçando aquela ilhota.
Mais adiante corre o rio maior, dito Dande, no qual entram barcos de 100 tonéis; e depois, o Rio Lemba, que não tem pouso, nem se mete navios nele; e de súbito acha-se o Rio Onzo, que sai do mesmo lago donde mana também o Rio Nilo, o qual tem acolheita; e seguidamente outro que se apelida Loze, sem ancoração; e outro nomeado Ambriz, grande com porto, que discorre vizinho à cidade Real de Congo 4 léguas; e imediatamente o Rio Lelunda, que significa truta, peixe, e banha as faldas do monte, em que está situada a Real Congo, chamado dos Portugueses Outeiro.

Este Rio Lelunda nasce do mesmo pequeno lago que o Coanza, e conflui com ele outro rio que vem grão lago; e, ao tempo que não chove, atravessa-se o Lelunda a pé, por ser de pouca água.
Encontra-se logo o Rio Zaire que é grandíssimo e largo e o maior de tudo o Reino de Congo; a origem do qual procede de três lagos: uma é do grande donde nasce o Nilo, a segunda do pequeno sobredito, e a terceira do segundo lago grande, feito pelo Nilo.


Por certo não conviriam menores fontes a rio tão copioso de água, porquanto na sua foz, onde é uma só, alarga-se 28 milhas e espraia a água doce, quando está no auge de sua cheia, 40 e 50 milhas pelo mar, e ainda 80 algumas vezes: donde os navegantes a recolhem, e o sítio conhecem pelo turbido daquelas águas; é navegável por ele arriba, coisa de 25 milhas, em barcos grandes, até uma garganta de penedos, da qual se despenha com horrível fragor e estrompido, que se ouve cerca de 20 milhas de longe.

Este lugar se chama dos Portugueses Cachoeira, isto é, catadupa ou catarata, à semelhança do do Nilo.

Das fozes à catadupa surgem pelo rio muitas ilhas grandes e bem povoadas, com aldeias e senhores obedientes a El - Rei de Congo; os quais algumas vezes brigam entre si, por inimizade, em certos barcos seus, cavados em um tronco de árvore de grandura desmedida, por eles chamados Lungo; e os maiores lenhos tais são tirados de uma árvore dita Licondo, tão grossa que seis homens não a circundam com os braços, e longa em proporção; de sorte que a maior parte levará algumas 200 pessoas.

Vogam naquelas embarcações com os remos não ligados a toletes, mas sustentam-nos livres na mão, premindo galhardamente a água; e cada um tem o remo e o arco; e, ao combaterem, deixam o remo e pegam no arco; nem empregam outro timão, afora os remos, para mover o baixel e governá-lo" .

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