terça-feira, 15 de junho de 2010

segunda-feira, 7 de junho de 2010

" batalha naval de Diu em 1509"



Associação Nacional de Cruzeiros


Porque se considera esta notícia deveras importante, decidiu-se pô-la à vossa consideração.

A batalha de Diu", é, indubitavelmente, a mais importante de toda a História da Marinha Portuguesa e uma das mais importantes da História Naval Universal .
BATALHAS E COMBATES
da Marinha Portuguesa

Diu - 3 de Fevereiro de 1509

A notícia da morte de D. Lourenço na batalha de Chaul fulminou D. Francisco de Almeida como se um raio tivesse caído a seus pés. Durante alguns dias encerrou-se nos seus aposentos sem querer ver nem falar com ninguém. Depois, voltou à sua vida normal, como se nada tivesse acontecido.

Mas, por detrás do seu semblante impassível, percebia-se que ardia como um vulcão prestes a explodir, o desejo de vingança. «Quem comeu o frangão, há-de comer o galo ou pagá-lo!», terá dito. No entanto, nesse ano já nada havia a fazer, uma vez que a «monção» estava prestes a chegar. Vinda esta, foi aproveitando o tempo para carenar, sucessivamente, todos os navios que estavam em Cochim e prepará-los com vista às operações planeadas para o fim desse ano.

Quando voltou o «bom tempo», a primeira coisa que o vice-rei fez foi mandar Pêro Barreto com uma armada de três naus, seis caravelas e duas galés bloquear Calicut, pois tinha informações de que o Samorim estava organizando uma armada para se ir juntar às de Mir-Hocem e de Meliqueaz. A verdade é que quando Pêro Barreto chegou a Calicut já os paraus do Samorim iam a caminho de Diu.

No Outono de 1508, graças a um feliz acaso, chegaram à Índia duas armadas do Reino: a desse ano e a do ano anterior, que invernara em Moçambique. Por isso, não havia falta de homens, de armas e de todos os outros apetrechos que eram necessários para equipar convenientemente os navios destinados a ir combater os Rumes.

Mas, antes de pensar na guerra era preciso tratar do negócio.

E, até 20 de Novembro, D. Francisco de Almeida esteve retido em Cochim, superintendendo no carregamento das naus de torna-viagem. Nessa data seguiu para Cananor com nove naus, das quais duas eram de carga, e um bergantim.

Despachadas as duas naus de carga para Lisboa, preparava-se o vice-rei para se ir juntar a Pêro Barreto quando aconteceu aquilo que ele mais temia: a 6 de Dezembro, Afonso de Albuquerque chegou a Cananor e requereu-lhe a entrega do governo da Índia!

D. Francisco de Almeida encontrava-se numa situação dramática de conflito. Sabia que não tinha qualquer motivo válido para desobedecer às ordens do Rei.

Mas não se resignava a deixar a Índia sem ter vingado por suas próprias mãos a morte do filho. Por fim, o sentimento paternal prevaleceu sobre o sentimento de disciplina.

Invocando razões fúteis, recusou-se terminantemente a entregar o governo antes de dar combate aos Rumes.

Na sequência deste incidente, prelúdio de outros muito mais graves que haveriam de ter lugar depois da batalha, Afonso de Albuquerque seguiu para Cochim e D. Francisco de Almeida, a 12 de Dezembro, largou com destino a Calicut.

Junta a sua armada com a de Pêro Barreto e descontadas uma pequena nau e três caravelas que haviam de ficar no bloqueio de Calicut achou-se o Vice-Rei com os seguintes navios:

cinco naus grandes, a Frol de la Mar, de João da Nova, em que ele próprio ia embarcado,

a Belém, de Jorge de Melo Pereira,
a Santo Espírito, de Nuno Vaz Pereira,
a Taforea Grande, de Pêro Barreto de Magalhães,
e a Rei Grande, de Francisco de Távora;

quatro naus pequenas, a Taforea Pequena, de Garcia de Sousa, a Santo António, de Martim Coelho, a Rei Pequeno, de Manuel Teles Barreto, e a Andorinho, de D. António de Noronha;
quatro caravelas redondas, capitaneadas, respectivamente, por António do Campo, Pêro Cão, Filipe Rodrigues e Rui Soares;
as caravelas latinas de Álvaro Paçanha e Luís Preto;
as galés de Paio Rodrigues de Sousa e Diogo Pires de Miranda;
o bergantim de Simão Martins.

Em conjunto, eram dezoito velas guarnecidas com cerca de mil e quinhentos portugueses e quatrocentos malabares de Cochim e Cananor.
Diu

Naquele tempo era hábito dos capitães, antes de se lançarem numa operação de responsabilidade, empreenderem outra mais fácil com o triplo objectivo de adestrar os seus homens, fortalecer-lhes o moral e, se possível, amedrontar o inimigo.

Ainda em Cananor, o assunto fora debatido entre D. Francisco de Almeida e os capitães dos navios.

A hipótese de atacar Calicut fora posta de parte por ser demasiadamente arriscada.

Em seu lugar, foi decidido atacar Baticala, cujo rei andava em guerra com Timoja, nosso vassalo.
Mas, à chegada a esta cidade, soube-se que, afinal, aqueles já tinham feito as pazes.

Depois de ter tocado em Onor para embarcar mantimentos fornecidos por Timoja, que aí tinha a sua base, a armada portuguesa dirigiu-se para a ilha de Angediva, a fim de refazer a aguada.

Nessa ilha, D. Francisco de Almeida aproveitou a oportunidade para reunir novamente o conselho dos capitães, durante o qual foi discutido o plano a adoptar no caso de os Rumes serem encontrados no mar.

De acordo com esse plano, caberia à Frol de la Mar, onde ia embarcado o vice-rei, abordar a nau de Mir-Hocem.
Ficou também assente que se, entretanto, a armada dos Rumes não fosse encontrada, os portugueses atacariam Dabul.

A partir de Angediva, a viagem tornou-se muito morosa por causa de os ventos dominantes serem dos quadrantes do Norte.

A 29 de Dezembro foi avistada Dabul e, no dia seguinte, a armada franqueou a barra e foi fundear junto da cidade, iniciando-se imediatamente o desembarque.

A luta foi terrível, porque a cidade, ao contrário do que se supunha, estava guarnecida com mais de seis mil homens resolutos, solidamente entrincheirados em baluartes muito bem artilhados.
Além disso, estavam no porto quatro grandes naus de Cambaia que também se bateram valentemente.

Não obstante, a cidade e as naus foram tomadas, tendo o inimigo perdido na batalha para cima de mil e quinhentos homens. Dos portugueses, morreram dezasseis e ficaram feridos duzentos e vinte.

D. Francisco de Almeida passou essa noite entrincheirado em terra e, no dia seguinte, autorizou o saque.

Mas, pouco depois de ele ter começado, ao ver que os soldados se dispersavam perigosamente na vizinhança de um inimigo que ainda tinha muitas forças, mandou pôr fogo à cidade e reembarcou.

Ainda em Dabul recebeu D. Francisco uma carta de Meliqueaz propondo-lhe paz e amizade e outra dos cativos de Chaul, que aquele tinha em seu poder, dizendo-lhe que estavam sendo muito bem tratados.

Tais manifestações de receio da parte do inimigo, logo a seguir à vitória alcançada em Dabul, fortaleceram consideravelmente o moral dos portugueses.

A 5 de Janeiro, a armada prosseguiu na sua viagem para Norte.

À passagem por Chaul foi exigido o pagamento das páreas ao capitão do Nizamaluco, senhor da cidade.

Mas este não dispunha de momento do dinheiro necessário para isso, ficando combinado que as pagaria quando o Vice-Rei regressasse de Diu.

De Chaul, a armada dirigiu-se para Maim, que fica na ilha de Salcete, próximo de Bombaim.

Como a falta de mantimentos continuava a ser preocupante, as galés, de caminho, iam assaltando as povoações ribeirinhas na mira de os obter.

Num desses assaltos, Paio de Sousa, capitão de uma delas, caiu numa emboscada e foi morto.

A sua galé foi dada a Diogo Pires e a deste passou para um fidalgo chamado Diogo Mendes.

Dias depois esteve esta galé em risco de perder-se.

Tendo abordado descuidadamente uma fusta de Diu que lhe pareceu fracamente guarnecia, Diogo Mendes viu-se de súbito confrontado com um grupo numeroso de turcos bem armados e resolutos, que se tinham escondido à sua aproximação, e que agora lhe invadiam o seu navio dispostos a tomarem-no.

Afinal, os portugueses conseguiram recompor-se e todos os assaltantes foram mortos.

Na fusta não foram encontrados mantimentos nem nada de valor, além de uma moça húngara de rara beleza que Diogo Mendes levou para a nau do vice-rei e que, mais tarde, viria a casar em Cochim com um fidalgo português.

Em Maim, foram finalmente conseguidos, por compra, os mantimentos de que a nossa armada tanto necessitava.
Daí enviou D. Francisco de Almeida uma carta a Meliqueaz, que dizia assim:

«Eu o visorei digo a ti honrado Meliqueaz, capitão de Diu, e te faço saber que vou com meus cavaleiros a essa tua cidade, lançar a gente que se aí acolheram, depois que em Chaul pelejaram com minha gente, e mataram um homem que se chamava meu filho; e venho com esperança em Deus do Céu tomar deles vingança e de quem os ajudar; e se a eles não achar não me fugirá essa tua cidade, que me tudo pagará, e tu, pela boa ajuda que foste fazer a Chaul; o que tudo te faço saber porque estejas bem apercebido para quando eu chegar, que vou de caminho, e fico nesta ilha de Bombaim, como te dirá este que te esta carta leva».

Mas a travessia de Maim  para Diu mostrou-se mais difícil do que parecia, devido aos ventos contrários.

Não conseguindo avançar junto à costa, os pilotos aconselharam D. Francisco de Almeida a fazer-se ao mar.
Porém, passados alguns dias, encontrando-se completamente perdidos, declararam que antes da «monção» já não era possível alcançar Diu, propondo o regresso a Cochim.

Como se pode imaginar,
D. Francisco ficou desesperado e mandou levar à sua presença os pilotos de algumas «naus de Meca» que tinham sido apresadas durante a viagem.

Um deles declarou-se pronto a levar a armada a Diu se lhe fosse concedida a liberdade.

Acedeu prontamente o Vice-Rei e, de acordo com as suas indicações e apesar do cepticismo dos pilotos portugueses, mandou rumar a Sueste.

Ao amanhecer do dia 2 de Fevereiro, Diu, em toda a sua opulência, estava à vista!
fortaleza em Diu e local  onde se travou a batalha naval
Ilha de Diu

Vejamos agora o que acontecera, entretanto, no campo contrário.

Após a batalha de Chaul, festejada pelos «mouros» como tendo sido uma grande vitória,
Mir-Hocem e Meliqueaz haviam-se tornado heróis aos olhos de todos os muçulmanos da Índia.
Porém, no seu íntimo, qualquer deles estava longe de partilhar da euforia dos seus correligionários.

Logo a seguir à batalha, Meliqueaz tinha enviado uma carta a D. Francisco de Almeida gabando a coragem de seu filho e dos companheiros e garantindo-lhe que os prisioneiros portugueses, que tinha em seu poder, seriam bem tratados, como realmente foram.

No entanto, calculando acertadamente que isso não seria bastante para apaziguar a ira do Vice-Rei, tratara de fortalecer a sua armada juntando-lhe quatro naus bem artilhadas e guarnecidas, uma das quais de grandes dimensões, e mandara construir e equipar mais fustas.

Por seu turno,
Mir-Hocem, sentindo-se igualmente pouco seguro, não poupara esforços para recompor a sua armada dos estragos que havia sofrido em Chaul.

No entanto, e apesar do auxílio financeiro que recebeu dos «mouros» de Diu, a sua situação não era brilhante.

É certo que vira a sua frota aumentada com a chegada do galeão que tinha deixado para trás quando saíra do mar Vermelho; mas tinha falta de gente, já que dos mil e quinhentos homens com que largara de Suez, dois anos antes, só lhe restavam pouco mais de oitocentos.

Para aumentar ainda mais as preocupações de
Meliqueaz e de Mir-Hocem, a partir de Outubro começou a constar em Diu que, depois da «monção», tinham chegado a Cochim numerosas naus idas de Portugal, com muita gente de armas, o que era verdade.

Daí que ambos tivessem concordado em adoptar a estratégia de conservar as suas armadas em Diu, abandonando a iniciativa aos portugueses.

Com a conquista de Dabul e a chegada da carta de
D. Francisco de Almeida dissiparam-se todas as dúvidas, se é que ainda as havia.
Meliqueaz e Mir-Hocem compreenderam que não tinham maneira de evitar uma batalha sem quartel com o Vice-Rei.

O primeiro amaldiçoava a hora em que os Turcos se tinham lembrado de escolher Diu para base de operações; o segundo, sentindo que o seu parceiro não hesitaria em entregá-lo para salvar a cidade, só pensava em encontrar uma maneira airosa de se poder escapar para o mar Vermelho.

A verdade é que
D. Francisco de Almeida tinha conduzido a guerra psicológica como um verdadeiro mestre e, através dela, já tinha a batalha meio ganha antes de chegar a Diu.

Logo que constou que a armada portuguesa se encontrava próxima,
Meliqueaz e Mir-Hocem reuniram-se para discutir a táctica a adoptar.

O turco era de opinião de que deviam ir combater os portugueses ao largo para tirar partido da enorme superioridade numérica de que dispunham em navios de remo: seis galés e galeotas turcas, cerca de cinquenta fustas de Diu e outros tantos paraus de Calicut, todos eles muito bem artilhados e guarnecidos com gente experimentada e aguerrida.

Mas
Meliqueaz opôs-se categoricamente, pois bem sabia que se as coisas começassem a correr mal, o que lhe parecia ser o mais provável, Mir-Hocem não hesitaria em bater em retirada para o mar Vermelho, deixando-o sozinho a contas com o Vice-Rei.
Por isso, insistiu para que combatessem fundeados, de modo a beneficiar do apoio da artilharia da fortaleza e do fortim do mar bem como de outra que tinha mandado colocar em terra, dando a entender claramente a Mir-Hocem que se saísse para o mar nem as suas fustas nem os paraus de Calicut o acompanhariam.

Mas a astúcia de
Meliqueaz não ficou por aqui.

Com o pretexto de ser indispensável a sua presença numa guerra em que andava envolvido no continente, abandonou Diu, deixando a
Mir-Hocem a espinhosa tarefa de, sozinho, fazer as honras da casa ao Vice-Rei! Porém, aquele não era homem para se deixar manobrar facilmente, como se verá adiante.

No dia 2 de Fevereiro, à tarde, quando a armada portuguesa fundeou a leste de Diu,
Mir-Hocem mandou atacá-la pelos navios de remo, do que resultou um duelo de artilharia sem consequências, dado que foi travado a grande distância e que a ondulação dificultava as pontarias.
Ao fim de algum tempo, os navios inimigos cessaram os seus ataques e foram fundear perto da costa, do lado de fora do baixo que separa o porto exterior do porto interior.
Pouco depois, foram-se-lhes juntar as quatro naus de Diu, por ordem de Mir-Hocem.
Teria este em mente sacrificar a armada de Meliqueaz para quebrar o ímpeto dos portugueses, antes de entrar em acção com os seus próprios navios, ou estaria pensando em, na manhã seguinte, vir também com estes para fora do baixo? Nunca se poderá saber! Embora ausente da cidade, Meliqueaz era mantido ao corrente de tudo quanto nela se estava a passar por meio de correios.
Logo que soube que Mir-Hocem mandara a sua armada para fora do baixo, regressou a galope e ordenou que as suas naus e fustas, bem como os paraus de Calicut, voltassem para dentro.

Deste modo, falharam as jogadas com que
Meliqueaz e Mir-Hocem se tinham procurado enganar mutuamente.

O primeiro viu-se obrigado a permanecer em Diu durante a batalha; o segundo viu-se impedido de utilizar a armada daquele como bode expiatório.

Situação provável na véspera ao fim da tarde.

Nessa noite,
D. Francisco de Almeida reuniu, pela última vez, o conselho dos capitães para assentar no plano táctico a utilizar no dia seguinte.

Logo de início, os capitães, unanimemente, pediram a
D. Francisco para desistir da ideia de ser o primeiro a abordar a nau de Mir-Hocem, insistindo para que permanecesse numa posição afastada dos combates de modo a poder dirigir a batalha no seu conjunto.

D. Francisco de Almeida
acedeu, ficando decidido que a Frol de la Mar não abordaria nenhuma das suas contrárias e que se limitaria, com o tiro da sua artilharia, a impedir que os navios de remo inimigos incomodassem as naus portuguesas encarregadas da abordagem.

Será oportuno referir que o problema da posição que deveria ocupar o comandante em chefe de uma armada durante a batalha preocupou desde sempre os teóricos da guerra naval.
Nos tempos mais recentes, a tese preponderante era a de que devia manter-se, fora da linha de batalha e a sotafogo dela.

Pois foi, precisamente, esta a solução adoptada pelos portugueses na batalha de Diu e que tão bons frutos deu.

No conselho acima referido foi também feita aquilo a que hoje chamaríamos a distribuição dos alvos:
-as quatro naus grandes (além da Frol de la Mar) abordariam as quatro naus turcas;
-as quatro naus pequenas abordariam as quatro naus de Diu;
-duas caravelas redondas abordariam os dois galeões turcos;
-as outras duas abordariam onde lhes parecesse mais conveniente;
-uma das galés iria à frente das naus sondando o canal;
-a outra, possivelmente, terá tido ordem para se manter nas imediações deste, a fim de socorrer qualquer navio que porventura encalhasse;
-as duas caravelas latinas auxiliariam a Frol de la Mar na sua tarefa de barrar a passagem aos navios de remo inimigos;
o bergantim manter-se-ia nas proximidades daquela para transmitir as ordens do Vice-Rei.

Apesar de tudo, o problema que naquele momento parecia mais difícil de resolver era o da passagem do porto exterior para o porto interior através do estreito canal que os liga.

Felizmente, entre os cativos que a nossa armada levava encontrava-se um rapaz de dezoito anos que já tinha ido algumas vezes a Diu e que ensinou os enfiamentos da entrada aos pilotos portugueses.

Terminado o conselho e em consequência das decisões nele tornadas, a maior parte dos fidalgos e soldados da Frol de la Mar foram distribuídos pelas outras naus, sobretudo pelas que deviam ir na vanguarda.

Até altas horas da noite os marinheiros e os carpinteiros estiveram reforçando as bordas dos navios com paveses e cobrindo-os com fortes redes de Cairo, de malha apertada, enquanto os soldados aprontavam as armas e se confessavam e comungavam.

Depois, fez-se o silêncio e cada um ficou a sós com a angústia que precede o dia das batalhas. No exterior dos navios, os vigias, de olhar atento, procuravam descortinar qualquer indício da aproximação do inimigo. Mas, nessa noite, nada mais aconteceu.

Ao amanhecer do dia 3 de Fevereiro, verificando que todos os navios inimigos continuavam metidos dentro do porto, D. Francisco de Almeida mandou entregar a cada um dos capitães dos navios a mensagem seguinte:

Senhor, os rumes já não hão-de sair pois hoje o não fizeram, e portanto com a lembrança na Paixão de Cristo, com a viração, a que farei o sinal, em que tereis boa vigia, lhe vamos dar a merenda; e sobretudo vos recomendo grande cuidado das regeiras, que deixareis por popa, para vos alardes a elas quando vos cumprir, porque isto mais releva sobre todas as coisas, para que vos aparteis de fogo, se os mouros em si o puserem para vos queimar, ou vos levarem à costa cortando suas amarras.

local em Diu onde se travou a batalha naval
Pelas nove horas começou a soprar um Nordeste bonançoso, que era o vento mais conveniente para a armada portuguesa.

Mas
D. Francisco de Almeida tinha ainda de esperar pela maré. Obrigado a fazer passar a sua armada por um canal relativamente estreito (150 m) e pouco profundo (5 m), não o faria, certamente, sem ser com a maré a encher, para ter possibilidade de safar qualquer navio que eventualmente encalhasse.

Entretanto, mandou novamente o bergantim distribuir pelos navios a relação das recompensas que seriam atribuídas, no caso de a vitória sorrir aos portugueses, como esperava.

Dessa relação constavam, além dos prémios a atribuir aos capitães, soldados, marinheiros, bombardeiros, etc., as indemnizações a conceder aos feridos e às famílias dos mortos e a promessa de alforria para os escravos.

Finalmente, cerca das onze horas, estando reunidas as condições ideais de vento e maré, e tendo a sua gente fortemente motivada e ansiosa por entrar em acção, D. Francisco de Almeida mandou disparar uma bombarda, que era o sinal combinado para iniciar o ataque.

Em todos os navios, as trombetas e os tambores atroaram os ares com os seus toques marciais, ao mesmo tempo que as guarnições davam vivas e faziam grande algazarra.

Do lado contrário, as naus e os navios de remo responderam imediatamente da mesma forma. O grande momento chegara!

As naus portuguesas, que já tinham os ferros a pique, suspenderam e, largando traquetes e mezenas, dirigiram-se, pela ordem pré-estabelecida, para a entrada do canal, precedidas pela galé de
Diogo Pires que ia continuamente sondando.

A primeira nau a entrar foi a Santo Espírito, de
Nuno Vaz Pereira, uma nau velha, que fazia bastante água e que, por isso mesmo, fora colocada na dianteira, partindo do princípio que se poderia perder, uma vez que o primeiro navio a entrar seria aquele que correria maiores riscos.

Efectivamente, logo que a Santo Espírito e a galé de
Diogo Pires. entraram no canal de acesso ao porto interior começaram a ser alvejadas pela fortaleza, pelo fortim do mar e pelos navios de remo do inimigo, sofrendo qualquer delas pesadas baixas.

Tanto as naus turcas como as de Diu estavam também fortemente empavesadas e com os castelos e convés cobertos com fortes redes de Cairo. Além disso, tinham os costados protegidos por arrombadas constituídas por sacos de algodão cobertos com peles de boi molhadas, por causa dos incêndios.

Momentos antes de abordar a nau de
Mir-Hocem, a Santo Espírito disparou todos os seus canhões de BB contra a amura da nau turca que estava amarrada àquela por EB.

O efeito desta salva, disparada a curtíssima distância com bombardas de grosso calibre, foi devastador, provocando um rombo na linha de água, através do qual esta começou a entrar em grande quantidade fazendo adornar a nau.

Procurando contrabalançar o adornamento, a sua guarnição passou-se toda para o outro bordo. É certo que a nau se endireitou, mas a água que tinha embarcado correu também para esse bordo e fê-la virar, por entre as aclamações da guarnição da Santo Espírito! Tudo se passou tão rapidamente que poucos foram os turcos que conseguiram salvar-se de morrer afogados.

Entretanto, logo após o disparo da sua artilharia, a Santo Espírito, que calava mais que as naus turcas, tocou no fundo e ficou imobilizada a poucos metros de distância da nau de
Mir-Hocem.

Julgando este que os portugueses tinham estacado propositadamente naquela posição para meterem a sua nau no fundo com a artilharia como tinham feito à outra, alou-se pela amarra do ferro de BB e foi aferrar a nau de
Nuno Vaz que, aliás, não desejava outra coisa.
Logo que as duas naus se juntaram, os portugueses saltaram impetuosamente na contrária e em poucos minutos tomaram-lhe o castelo de vante e o convés.

Porém, no momento em que parecia que a capitânia turca estava irremediavelmente perdida, um dos galeões, que tinha por BB, alou-se pela amarra do ferro de EB e veio abordar a Santo Espírito pelo bordo contrário àquele por que estava aferrada à nau de
Mir-Hocem.

Deste modo, ficou a nossa nau entalada entre dois navios turcos, vendo-se obrigada a combater simultaneamente com ambos.

Em resultado disso, parte dos cavaleiros e soldados que estavam na nau de
Mir-Hocem tiveram de regressar apressadamente à sua nau para a defender do ataque do galeão.

Neste transe,
Nuno Vaz Pereira foi gravemente ferido por uma flecha que lhe atravessou a garganta e teve de ser evacuado em braços.

A partir desse momento, a guarnição da Santo Espírito viu-se forçada a adoptar uma atitude defensiva, limitando-se a repelir os sucessivos assaltos dos turcos por ambos os bordos.

Segunda nau a entrar devia ser a Belém, de
Jorge de Melo Pereira. Mas levou muito tempo a suspender e, perante isso, Pêro Barreto, na Taforea Grande, passou-lhe à frente.

E, transposto sem novidade o canal, dirigiu-se à nau turca que lhe estava destinada, a terceira, a qual aferrou por EB.
Mas, como esta tinha também uma outra amarrada a si, Pêro Barreto e os seus companheiros tiveram que se haver, ao mesmo tempo, com as guarnições de duas naus, o que deu origem a que o combate se prolongasse.

Enquanto isto se passava,
Jorge de Melo estava furioso por ter sido ultrapassado e não se fartava de insultar o mestre! E, para tentar recuperar o atraso, logo que o ferro arrancou, mandou largar a vela grande, além do traquete e da mezena.

O resultado foi que a nau ganhou velocidade e, antes que as velas pudessem ser de novo colhidas, ultrapassou todas as naus turcas e mesmo a grande nau de Diu, acabando por só conseguir abordar, por EB, o grupo de duas naus desta cidade que estavam a seguir!

Deste modo ficou perdida para o combate com os turcos a melhor e mais bem guarnecida nau da nossa armada.

A quarta nau a entrar foi a Rei Grande, de
Francisco de Távora. Na sua esteira ia a Frol de la Mar, de João da Nova, com o Vice-Rei.

Vendo este o que se passara com a Belém e apercebendo-se que a Santo Espírito estava em dificuldades, é provável que tenha mandado ordem a
Francisco de Távora, que o precedia, e a Garcia de Sousa, que o seguia, para irem abordar a nau de Mir-Hocem, o que ambos fizeram.
Batalha de Diu

A chegada da Taforea Grande com gente fresca fez pender definitivamente o combate na capitânia turca a nosso favor.

Embora continuassem a oferecer uma resistência desesperada, os seus ocupantes foram obrigados a abandonar o exterior e a refugiar-se nos pavimentos inferiores, onde acabaram por ser todos mortos ou feitos prisioneiros.

Mir-Hocem
, já ferido e vendo a nau perdida, passou-se para uma pequena embarcação que estava amarrada pela popa e, aproveitando a confusão da batalha, atravessou o canal sem que ninguém desse por ele e foi para a vila dos Rumes.

Aí, montou a cavalo e fugiu a galope para Cambaia, com mais receio de
Meliqueaz do que dos portugueses. Entretanto, a Taforea Pequena, de Garcia de Sousa, tinha também atracado a capitânia turca, ajudando a dominar os últimos focos de resistência que nela ainda havia.

A Frol de la Mar, logo que alcançou o porto interior, percorreu a curta distância a linha de batalha para que o Vice-Rei se pudesse inteirar da situação.
À passagem pela última nau turca, ao começar a guinar para EB, disparou toda a sua artilharia de BB contra ela.
Mais uma vez o efeito dos tiros de grosso calibre disparados à queima-roupa foi devastador.
A nau turca sofreu um rombo na amura de EB, junto à linha de água, e começou a afundar-se.

No entanto, é natural que a maior parte da sua guarnição se tenha salvo, ou por estar a combater contra
Pêro Barreto na nau vizinha ou por ter tido tempo de se passar para ela antes de a sua nau ir ao fundo.

Neste ponto não podemos deixar de pensar que o afundamento de duas naus turcas, cada uma delas com uma única salva de artilharia, veio dar razão ao condestável da nau de
D. Lourenço de Almeida que na batalha de Chaul afirmara ser possível afundar a armada turca a tiro de canhão.

Seja como for, o que parece certo é que os portugueses tinham aprendido a lição. Em Diu, todas as nossas naus que o puderam fazer, antes de abordar as contrárias, dispararam contra elas, à queima-roupa, toda a sua artilharia.

Prosseguindo o seu caminho, a Frol de la Mar foi fundear sensivelmente em frente das naus de Diu, a meio do canal, de modo a barrar a passagem aos navios de remo, que não cessavam de flagelar com pelouros e flechas as naus que iam entrando, embora com fracos resultados.

A verdade é que a decisão de
Meliqueaz de dar batalha no porto interior e não no porto exterior ou ao largo foi extremamente favorável para os portugueses, porquanto o principal factor de força do inimigo, ou seja, a sua superioridade esmagadora em navios de remo, ficou praticamente anulado.

Num canal cuja largura mal chegava aos duzentos metros, só era possível às galés, galeotas, fustas ou paraus combater numa frente de, quando muito, doze unidades, que, mesmo assim, tinham de estar muito juntas, o que facilitava enormemente a acção dos nossos bombardeiros.
Por outro lado, a grande quantidade de embarcações que tinham atrás de si embaraçava a manobra das que estavam mais directamente empenhadas em combate.

A partir do momento em que as naus portuguesas começaram a chegar ao porto interior, disparando continuamente as suas baterias de EB, os navios de remo adversários principiaram a sofrer muitas avarias e baixas e a ser empurrados inexoravelmente para dentro.
Depois que a Frol de la Mar fundeou, os ataques dos navios de remo concentraram-se praticamente sobre ela, deixando todas as outras naus de ser incomodadas. Meio cegos e sufocados pelo fumo, os bombardeiros da nossa capitânia não tinham mãos a medir, disparando salva após salva sobre as galés, galeotas, fustas e paraus, dos quais mais de uma dezena foram afundados e muitos mais gravemente avariados.

Depois da batalha calculou-se que, nessa tarde, as bombardas da Frol de la Mar teriam disparado para cima de mil e novecentos pelouros! Pela sua parte, as naus e navios de remo do inimigo não lhe ficaram atrás.

Em alguns dos navios portugueses puderam contar-se, depois da batalha, mais de cinco mil flechas e centenas de pelouros!

Entretanto, chegara a Santo António, de
Martim Coelho. Uma vez que Garcia de Sousa fora desviado para o ataque à nau de Mir-Hocem, coube-lhe o osso mais duro de roer: o ataque à grande nau de Diu.

A dificuldade em abordar esta nau era que, além de ser muito alterosa, estava completamente fechada por cima com uma espécie de telhado de madeira, só podendo ser entrada pelas portinholas da artilharia.

Mas isso não era fácil, não só por causa do tiro dos canhões mas também porque dos setecentos homens que a guarneciam a maior parte eram hábeis archeiros que lançavam continuamente nuvens de flechas sobre os assaltantes.

Por mais que o tentassem, os portugueses não conseguiram entrar nela.
Depois da Santo António é possível que tenha entrado a Rei Pequeno, de Manuel Teles Barreto, que, logicamente, deverá ter ido abordar a terceira nau de Diu, onde, por certo, não terá encontrado grande resistência, uma vez que a maior parte da guarnição desta nau devia estar na vizinha a combater com a gente de Jorge de Melo Pereira.

A última nau a entrar terá sido, provavelmente, a Andorinho, de
D. António de Noronha, que, obviamente, se terá dirigido para a última nau de Diu.

Aproximando-se dela pela amura de EB, é provável que, momentos antes da abordagem, tenha também disparado uma salva de artilharia à queima-roupa, do que veio a resultar, pouco depois, o seu afundamento, não sendo possível saber-se se a abordagem chegou ou não a ter lugar, embora nos pareça mais provável que sim.

Depois das naus, entraram as caravelas redondas. A primeira foi a de
António do Campo, que se dirigiu para o galeão turco que tinha abordado a nau de Nuno Vaz Pereira por EB.

Aferrou-o e tomou-o sem dificuldade, dado que a maior parte da sua guarnição já tinha sido morta ou feita prisioneira na nau de
Mir-Hocem.

Outro tanto não aconteceu com a caravela de
Pêro Cão que entrou a seguir. Tendo abordado o segundo galeão turco que estava intacto, encontrou sérias dificuldades.

Para complicar mais as coisas, a caravela, que tinha ficado mal aferrada, soltou-se e foi à deriva, somente com os grumetes e pajens que tinha a bordo, deixando
Pêro Cão e os seus companheiros, que eram pouco mais de vinte, isolados no navio inimigo, a contas com perto de uma centena de turcos. Pouco depois, foi morto Pêro Cão, o que tornou a situação ainda mais crítica.

É natural que
António do Campo, que estava ao lado, se tenha apercebido das dificuldades em que se encontrava a gente da outra caravela e que, largando o galeão que havia tomado, tenha ido prontamente em seu auxílio.

Depois de uma luta renhida, o segundo galeão turco foi também tomado, enquanto o primeiro, abandonado, ia à deriva encalhar na praia.

A terceira caravela a entrar foi a de
Filipe Rodrigues. Nesta altura já todas as naus turcas e de Diu estavam dominadas, bem como os dois galeões, à excepção da grande nau de Diu. Por isso, é natural que a tenha ido abordar, pelo bordo contrário àquele a que estava aferrada a Santo António.

Por último entrou a caravela do comendador
Rui Soares, seguida, provavelmente, pelas duas caravelas latinas e pela galé de Diogo Mendes.

Logo que se aperceberam de que a batalha estava irremediavelmente perdida, os paraus de Calicut puseram-se em fuga, saindo para o mar pela outra entrada do canal que contorna a ilha de Diu. Por sua vez, as galés e galeotas turcas, bem como as fustas de
Meliqueaz, começaram também a retrair-se.

Não tendo qualquer nau ou galeão que pudesse abordar, o comendador
Rui Soares foi atrás dos navios de remo que batiam em retirada e, metendo-se no meio das duas galés turcas, aferrou ambas e tomou-as de assalto, o que lhe mereceu os maiores encómios do Vice-Rei.

Nesta altura já os nossos marinheiros e soldados se tinham metido nos batéis e andavam a matar à lançada os turcos e os «mouros» que a nado procuravam alcançar terra. Não obstante, a grande nau de Diu continuava a resistir.

Vendo isso,
D. Francisco de Almeida mandou ordem a Garcia de Sousa, que era quem tinha a sua gente mais folgada, para ir dar uma ajuda a Martim Coelho e a Filipe Rodrigues.

Mas, apesar de todas as tentativas feitas pelos três navios, não foi possível penetrar na nau. Então,
Garcia de Sousa mandou afastar os navios e deu-lhes ordem para meterem no fundo a nau com a artilharia.

Sob o matraquear contínuo dos pelouros, as arrombadas desfizeram-se, o costado abriu fendas e a nau começou a afundar-se lentamente. Só restava, com os batéis, exterminar os seus ocupantes que se lançavam à água.
A batalha terminara com uma estrondosa vitória dos Portugueses!

Sem terem perdido um único navio, tinham afundado duas naus turcas e duas de Diu e capturado duas naus e dois galeões turcos, bem como duas naus de Diu, além de terem afundado diversas fustas e paraus, avariado gravemente muitos mais e capturado duas galés turcas.

Dos portugueses morreram trinta e dois, entre eles os capitães de dois navios (
Nuno Vaz Pereira e Pêro Cão) e ficaram feridos mais de trezentos.

Dos oitocentos homens que guarneciam a armada turca apenas vinte e dois conseguiram escapar-se para terra.
Todos os outros foram mortos ou feitos prisioneiros. Em conjunto, o inimigo terá tido para cima de três mil mortos e um número ainda maior de feridos.

Pelas cinco da tarde, tendo o vento rondado, provavelmente, para Norte ou Noroeste e começando a maré a vazar,
D. Francisco de Almeida resolveu voltar com a armada para o porto exterior, atendendo a que a artilharia de terra continuava a flagelar os seus navios e que, por outro lado, receava ser atacado durante a noite pelas fustas ou com brulotes.

Apesar de efectuada já durante o crepúsculo, a saída fez-se sem novidade. No porto interior foram deixadas apenas as galés e alguns batéis para impedir que os «mouros» fossem tirar coisas das naus que haviam sido tomadas.

Uma vez fundeada a armada em segurança no porto exterior, as guarnições dos navios estiveram festejando ruidosamente a vitória até altas horas da noite, enquanto
D. Francisco de Almeida percorria aqueles, um por um, abraçando os fidalgos e os soldados e confortando os feridos.

Ao outro dia de manhã, ainda o Sol não era nascido, aproximou-se da armada uma fusta com bandeira branca trazendo a rendição incondicional de
Meliqueaz e com ela a entrega da cidade de Diu.

Recebida a mensagem,
D. Francisco de Almeida exigiu, como condição prévia para qualquer negociação, a entrega imediata dos prisioneiros de Chaul.

Uma hora depois, os prisioneiros davam entrada na sua nau, ao som das trombetas e dos tambores, e, com lágrimas de alegria a escorrerem-lhes pelas faces, caiam nos braços dos seus companheiros. Vinham vestidos de seda e cada um deles trazia cinquenta xerafins de ouro que
Meliqueaz lhes mandara dar!

A conclusão de um tratado de paz (que foi escrito numa folha de ouro) não ofereceu qualquer dificuldade.
D. Francisco de Almeida declinou o oferecimento da cidade de Diu que, no seu entender, seria muito custosa de manter, limitando-se a deixar nela uma feitoria.

Exigiu a entrega das quatro galeotas de
Mir-Hocem, dos turcos que tinham conseguido fugir para terra e da artilharia das naus afundadas, além de uma indemnização de trezentos mil xerafins a pagar pelos comerciantes «mouros» que tinham financiado o reequipamento da armada dos Rumes, dos quais cem mil foram distribuídos pelas guarnições dos nossos navios.

Meliqueaz
aceitou tudo, conseguindo, no entanto, substituir a entrega dos turcos pela sua expulsão dos seus domínios.

Tendo conseguido evitar aquilo que mais temia, que era o saque e o incêndio da cidade, estava satisfeitíssimo e cumulava os portugueses de gentilezas.

Raro era o dia em que não enviava à nossa armada uma fusta carregada com carneiros, galinhas, ovos, laranjas, limões, hortaliças, etc. Aos fidalgos, oferecia ricos presentes.
Mas D. Francisco de Almeida nada aceitou para si, nem mesmo um colar de pérolas e uma peça de brocado que Meliqueaz lhe deu para sua filha e que ele enviou para a Raínha.
Em troca dos favores de Meliqueaz, foram-lhe devolvidas as duas naus que lhe haviam sido tomadas na batalha.

Os galeões turcos é provável que tivessem sido vendidos, sendo o produto da venda distribuído pelas guarnições dos nossos navios.
As duas naus terão ficado em Diu a carregar mantimentos com destino a Cochim. As quatro galeotas foram queimadas.

As duas galés capturadas pelo comendador Rui Soares é natural que tenham sido levadas para Cochim como troféus.

Entre os despojos da batalha figuravam três bandeiras reais do sultão do Cairo, que foram mandadas para Portugal e ficaram expostas no convento de Cristo, em Tomar.
Em relação aos cativos turcos, D. Francisco de Almeida foi inclemente, mandando enforcar, queimar vivos ou despedaçar amarrando-os à boca das bombardas a maior parte deles.

Vingada a morte de seu filho, arrumados os assuntos de Diu e despachadas duas naus com mantimentos para Socotorá, D. Francisco de Almeida, a 12 de Fevereiro, iniciou com o resto da armada o regresso triunfal a Cochim.

A batalha de Diu, apesar de ensombrada pelo tratamento cruel dado por D. Francisco de Almeida aos prisioneiros turcos, é, indubitavelmente, a mais importante de toda a História da Marinha Portuguesa e uma das mais importantes da História Naval Universal.

Sob o ponto de vista táctico, foi uma batalha de aniquilamento que só encontra paralelo em Lepanto (1571), Aboukir (1798), Trafalgar (1805) ou Tsuchima (1905).

Sob o ponto de vista estratégico, não terá sido menos importante do que qualquer destas, antes pelo contrário, porquanto: assegurou aos Portugueses, durante quase um século, o domínio absoluto do oceano Índico; abateu consideravelmente o poder e o prestígio dos Turcos, que eram então o terror da Europa; marca o início de um longo período de domínio da Ásia pelos Europeus, que só terminou com a entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial.

Se os Portugueses não fossem um povo que pouca atenção presta à sua História Marítima é provável que sentissem, em relação à batalha naval de Diu, um sentimento semelhante ao que nutrem os Espanhóis por Lepanto, os Ingleses pelo Nilo (Aboukir) ou Trafalgar e os Japoneses por Tsuchima.

Saturnino Monteiro

em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa» (Vol.I)
Bibliografia:
Anónimo, Crónica do Descobrimento e Primeiras Conquistas da Índia pelos Portugueses, Imprensa Nacional, Lisboa, 1986, p. 339
Castanheda, Fernão Lopes de, História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, Lello
 & Irmão, Porto, 1979, Vol. I, p. 426
Barros, João de, Décadas, Livraria Sam Carlos, Lisboa, 1973, 3º Vol. p. 254
Góis, Damião de, Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1926, Parte  II, p.119
Correia, Gaspar, Lendas da Índia, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1922, Tomo I, pp. 923, 937