terça-feira, 9 de março de 2010

"mapa dito de Cantino de 1502"


Em actualização....

O chamado "Planisfério dito de Cantino" é um dos mais antigos mapas da era dos descobrimentos.

É uma cópia do "padrão real" e foi desenhado por um cartógrafo Português, da casa da Guiné e da Mina(mais tarde Casa da Índia) em 1502. Demonstra o elevado grau científico com que os portugueses trabalhavam durante os descobrimentos. Foi obtido clandestinamente por um espião chamado Alberto Cantino.
Esta personagem pagou 12 ducados de ouro ao cartógrafo e enviou-o para Itália, para Hércules d' Este, Duque de Ferrara. 
É o primeiro mapa que apresenta a costa do Brasil a costa da América do Norte com a Flórida, a Gronelândia e a Terra Nova, Madagáscar, Índia, Malásia e Golfo da Tailândia. 
Foi a primeira vez que estão representadas num mapa as linhas do Equador e do tratado de Tordesilhas. A África está espantosamente bem desenhada, tendo em conta que só tinha sido circum-navegada por três vezes (mas a última armada - a de João da Nova- ainda não tinha regressado a Lisboa). No entanto a Europa, em relação à África, não está desenhada correctamente, está mais curta. 
Deve-se ao facto de, na altura, se utilizarem medidas comprimento diferentes:
Na Europa  cada grau era medido duma maneira e na África foi utilizada outra medida.
No séc. XVI as escalas eram de 18 léguas por grau ou de 20 por grau.
Na escala de 18 cada légua media 6173 metros (cada grau eram 111.114 metros).
Na escala de 20 cada légua media 5.555 metros( cada grau media 111.100 metros)
O mapa está desenhado em três escalas diferentes das que eram habituais; 18,5 ; 22,5 ; e 24.
Apresenta ainda outros enigmas que são falados nas fotos de pormenor.

O mapa encontra-se na biblioteca Estense, em Modena, Itália.  
Planisfério "Cantino": uma história de espiões.

No contexto político do princípio do século XVI, com a Europa suspensa nos descobrimentos ibéricos, o segredo era um imperativo.
Qualquer informação geográfica fornecida pelos navegadores portugueses, era tratada com grande confidencialidade por cartógrafos. A quebra de sigilo era considerada como traição ao reino e assim punida, no reinado de D. João II, com a pena de morte.
Mesmo assim, o diplomata -espião, Alberto Cantino, sediado em Lisboa, recolhe informações acerca das descobertas feitas pelas coroas ibéricas, para o Duque de Ferrara, representante de uma poderosa linhagem de comerciantes italianos.

Quando este último exprime a vontade de ter um mapa ilustrativo das viagens, Cantino procura responder à exigência ducal, recorrendo a um cartógrafo ou copista, ainda hoje anónimo.
mapa exigiu dez meses de trabalho, entre Dezembro de 1501 e Outubro do ano seguinte, documentados por correspondência entre o espião e o Duque.
É provável que Cantino tenha tido o cuidado de entrevistar pilotos, obtendo assim mais informação, o que explica os escritos adicionais.

Em Setembro de 1502, Cantino, já em Roma, informa o Duque do sucesso da empreitada..
O mapa já se encontra em Génova e havia custado em Portugal doze ducados de ouro, um preço elevado que denuncia a dificuldade e o secretismo da encomenda.
Composto por três grandes folhas manuscritas coladas, o planisfério foi construído no sistema de rosa-dos-ventos, sobre o qual estão representados o Equador, os trópicos e a linha de Tordesilhas. As bandeiras representam as nações soberanas, incluindo o Império Otomano em Constantinopla.
Marcos com o brasão português denotam os portos tocados pelas expedições de Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama.

Mesmo sem a escala graduada de latitudes, a carta ilustra, com grande exactidão, as linhas de costa dos continentes, especialmente a África que, pela primeira vez, surge em todo o seu perímetro, com cordilheiras verdejantes e nativos exóticos.
A linha imaginária  traçada a 370 léguas a oeste da ilha mais ocidental do Arquipélago de Cabo Verde, por exigência do Rei D. João II. 
Repare-se na minúcia dada à fortaleza portuguesa que demonstra a importância da força militar.
Na Ásia, onde as naus portuguesas ainda se aventuravam timidamente, descreve-se com menos precisão a Índia, a China (pela primeira vez, representada num mapa ocidental, como “Terra dos Chins”) e a Indochina.
Presume-se que, em relação a estes territórios, a sua concepção obedeça ainda a antigos mapas portulanos arábicos e a fontes secundárias.
Uma das inovações mais importantes respeita à grande redução da extensão longitudinal do continente asiático, o que demonstra a profundidade de conhecimentos dos cosmógrafos portugueses.
Uma inscrição em latim no reverso do mapa afirma “Carta de navigar per le Isole nouam trovate in le parte de India: dono Alberto Cantino al S. Duca Hercole”: esta carta náutica, de ilhas recentemente descobertas na região das Índias, foi apresentada ao Duque de Ferrara, Ercole d’Este, por Alberto Cantino.
O mapa permaneceu na biblioteca do duque até 1592, altura em que a colecção é transferida pelo papa Clemente VIII para um palácio de Modena, onde se mantém até meados do século XIX.
É alvo de pilhagem, sendo recuperado por Giuseppe Boni, director da Biblioteca Estense de Modena, quando (já mutilado) serve de cortina num talho da cidade.
Pelo seu grande significado, o planisfério de Cantino é especialmente representativo de uma época fervilhante em descobertas e conquistas não só geográficas, como científicas.
De uma enorme abrangência, este mapa inclui na sua representação do mundo, os territórios recém -achados do Brasil e Terra Nova.
Constitui, por isso, um dos raros exemplares sobreviventes de convulsões políticas e económicas, sendo um testemunho importante do passado.
A maior mentira do mapa Cantino!

Por Manuel Luciano da Silva, Médico

Agosto 25, 2003

Os historiadores e cartógrafos de todo mundo conhecem bem o chamado Planisfério de Alberto Cantino, presentemente guardado na Biblioteca Estense, na cidade de Modena, localizada ao Norte de Bolonha, na Itália, Modena é célebre por causa dos carros de corrida fabricados nos seus arrabaldes com as famosas marcas Ferrari e Maserati.
Esta cidade hoje com 175 mil habitantes desenvolveu-se muito culturalmente quando os Duques d’ Este se mudaram da cidade de Ferrara para ali, em 1598.
A Biblioteca Estense possui muito livros raros e também uma colecção magnífica de mapas originais, entre eles o Planisfério de Alberto Cantino.
Este mapa é considerado anónimo mas hoje sabemos que foi feito por um cartógrafo português em Lisboa em 1502. No canto esquerdo inferior tem uma legenda que diz o seguinte: “Dono Alberto Cantino, ao Sr. Duque Hércules”. Isto é o princípio da atribulada história deste mapa.
É agora do conhecimento geral que Alberto Cantino era um espião italiano em Lisboa nos fins do século XV e princípio do século XVI. Ele era um espião tão esperto e eficiente que, chegou a ser secretário particular do Rei D. Manuel I.
O facto mais demonstrativo são as duas cartas de espionagem que ele escreveu para o Duque d’ Este, então Duque de Ferrara, descrevendo todos os detalhes da viagem de regresso que Gaspar Corte Real fez a Terra Nova em 1501.
Nestas cartas datadas em Lisboa em 17 e 18 de Outubro de 1501, o próprio Cantino afirma em ambas que ouviu tudo directamente porque “estava na presença ao Rei“ quando Gaspar Corte Real fez a sua apresentação ao monarca português!
Pois foi este mesmo Alberto Cantino, agente secreto de Hércules d’ Este, ao tempo, Duque de Ferrara, que tinha sido enviado para Lisboa para colher informações sobre os descobrimentos portugueses porque já naquele tempo tinham muita fama e causavam muita inveja por toda a Europa.

Com o pretexto de vir a Lisboa negociar em cavalos, Cantino conseguiu subornar um cartógrafo português que, lhe fez uma carta náutica com toda a informação geográfica secreta nos arquivos da Casa da Índia em Lisboa. Pagou um elevado preço pelo planisfério: doze ducados em ouro!  
Sabemos por outra carta assinada por Cantino que ele enviou este mapa ao seu patrão, Duque de Ferrara, no dia 19 do mês de Novembro de 1502, a qual terminava da seguinte forma: “ a carta (o mapa) é di tal sorte, et spero che in tal manera piacerà a V. Exa.” Tradução “Este mapa é de tal qualidade que eu espero venha a ser de muito agrado a Vossa Excelência”.
Planisfério de Cantino esteve durante cerca de 90 anos na Biblioteca Ducal até que o Papa Clemente VIII o transferiu para outro palácio em Modena. Mas este mapa teve pouca sorte porque devido aos motins de 1859 desapareceu até ser encontrado a servir de forro num anteparo duma salsicharia na mesma cidade de Modena. O Director da Biblioteca Estense foi chamado ao local e levou-o então para a sua Biblioteca onde se encontra desde 1868 até ao momento actual.
O Planisfério de Cantino de 1502 é hoje considerado uma obra prima da cartografia portuguesa e como carta geográfica é uma das mais importantes do mundo. É a primeira carta que representa o planisfério duma maneira mais completa: desde a Europa, América do Norte, Central e Sul, toda a África, a Ásia até ao Oriente.
É uma carta rica e com muito pormenor em topónimos. 
Mas a parte que nos interessa mais é a parte mais ocidental dos Açores, isto é, que diz respeito às Terras Americanas. 
Nesta região vemos ao centro uma linha perpendicular que é a Linha do Tratado de Tordesilhas de 1494 a dividir o mundo entre Portugal e Espanha.
Esta linha imaginária foi traçada a 370 léguas a oeste da ilha mais ocidental do Arquipélago de Cabo Verde, por exigência do Rei D. João II. O Tratado de Tordesilhas foi assinado em 2 de Julho de 1494.
A cidade de Tordesilhas fica em Espanha, entre Valhadolide e Salamanca.

Os Reis Católicos, D. Fernando e D. Isabella de Espanha, queriam que a Linha de Tordesilhas fosse 100 léguas, de combinação com o Papa Alexandre VI que era de origem espanhola, mas o Rei D. João II exigiu que fosse 370 léguas e ganhou.
Neste mapa vemos que a Terra Nova e o Brasil estão incluídos no hemisfério oriental, a metade da terra que pertencia a Portugal. Hoje sabemos que o Rei D. João II comeu as papas na cabeça aos espanhóis -- ludibriou-os -- porque eles não sabiam da existência da Terra Nova nem do território que originou mais tarde o Brasil. Vamos agora a analisar o planisfério de Cantino no espaço das Terras Americanas.
Fig. N º. 1 –
 (1)Representa a Gronelândia com uma bandeira de Portugal com as Cinco Quinas.
(2)Terra Del Rey de Portugall,' representando a Terra Nova com os pinheiros do Canadá.
(3)Linha de Tordesilhas dividindo a esfera da terra entre Portugal e Espanha
(4) Açores
(5) Portugal Continental
(6) África

(7) Arquipélago Cabo Verde
Fig. No. 2-
Nesta secção do Mapa de Cantino vemos:

(8) Ilha Hispaniola, hoje Haiti e S. Domingos.
(9) Ilha de Cuba
(10) Península da Flórida. Notar que neste mapa português com a data de 1502 já vemos a Florida bem desenhada. Porque é que na América se ensina que foi Ponce de Leão que descobriu a Flórida quando ele chegou lá ONZE anos mais tarde em 1513, à procura da Fonte do Elixir da Longa Vida!...
(11) 'Las antilhas del Rey de castella'. Notar que nesta frase o nome antilhas está escrito bem claro em português e não em espanhol antilles.
Fig. No. 3 – 
(12) América do sul 
(13) Brasil com 3 papagaios.

Onde está a Grande Mentira no mapa Cantino?
Fig. No 4
A Grande Mentira está no nome Antilhas -- por cima do (11). Estas ilhas no Mar das Caraíbas não são as Verdadeiras Antilhas. São as Falsas Antilhas. As Verdadeiras Antilhas são a Terra Nova, Nova Escócia e Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá, quase a duas mil milhas mais para o norte!
O cartógrafo que fez o Planisfério de Cantino em 1502, ao baptizar as ilhas das Caraíbas de Antilhas, ENGANOU a humanidade inteira, durante mais cinco séculos, especialmente historiadores, incluindo os cartógrafos portugueses entre eles o Armando Cortesão!!!
As Verdadeiras Antilhas estão desenhadas na Carta Náutica de 1424. Este documento foi profundamente analisado em pormenor pelo Professor Armando Cortesão e publicado num livro em inglês “The Nautical Chart of 1424”, editado pela Universidade de Coimbra em 1954.
De mil exemplares existe o exemplar No. 232 na minha Biblioteca-Museu em Cavião, Vale de Cambra, Portugal.
Aqui está uma secção da Carta Náutica de 1424 mostrando as quatro ilhas: duas em azul e outras duas em vermelho. Os seus nomes são à Saya, Satanazes, Antilia e Ymana. O original deste mapa está na Biblioteca da Universidade de Minnesota, na Colecção de James Ford Bell.

Foi feito em 22 de Agosto de 1424, por Zuanne Pizzigano, um cartógrafo de Veneza.
Fig. No 5. (1) Data 1424, Agosto 22. (2) Saya (3) Satanazes (4) Antilha (5) Ymana (6) Portugal Continental

Para conhecer em pormenor a minha análise total da Carta Náutica de 1424 veja na minha Internet os artigos intitulados:


Neste diagrama vemos mais claramente os nomes próprios das 4 ilhas, mas também outros nomes que estão escritos dentro dos lagos nas ilhas Satanazes e Antilia.
Curioso que Armando Cortesão, considerado o maior especialista mundial em cartografia, nas suas conclusões no livro “The Nautical Chart of 1424” não consegui diagnosticar que estas 4 ilhas representam as Verdadeiras Antilhas na costa marítima do Canadá!
Aqui está a confissão de Armando Cortesão no seu livro “The Nautical Chart of 1424”:
The Documentary proof that such a voyage or voyages (by the Portuguese), either willing or unwilling, took place is provided by the representation of the Antilia group of four islands in the 1424 Chart. Several islands of the Antilles were no doubt seen during one or more of these voyages. The newly acquired knowledge confirmed what was already presumed from ancient tradition and more or less recent and more or less positive information, and the first cartographer who got hold of that information, though rather vague, represented it as well as he could in his map. We do not know whether the 1424,Chart is the first one in which Antilia was figured; we only know that it is the earliest extant in which it appears.” “ It would not be easy to say which of the Antilles islands are depicted by the Antilia group, or if the American Continent itself is represented there. Haiti, Cuba, Jamaica, Porto Rico, some of the Bahamas, Trinidad or some of the Lesser Antilles, Florida or even Greenland? There is no sure guide for any such tentative identification. The only certainty is that several of these lands were seen, but the identification of their cartographical representation is as uncertain as the meaning of the seven mysterious names which, following the legend of the Island of the Seven Cities, were written on Antilia and probably influenced the idea of writing the no less mysterious five names on the Satanazes”
 .Tradução:

“A prova documental de que tais viagem ou viagens (pelos portugueses) quer voluntária ou involuntariamente, se realizaram, é demonstrado pela desenho do grupo das quatro Antilhas na carta Náuticas de 1424.
Várias ilhas do grupo das Antilhas, sem dúvida nenhuma, foram vistas durante uma ou mais destas viagens.
Os conhecimentos recentes confirmam o que já era uma tradição antiga, baseada em mais ou menos informação positiva, e que o primeiro cartografo que obteve essa informação, embora vaga, registou-a o melhor que ele pode neste mapa.
Nós não sabemos se a Carta Náutica de 1424 é a primeira carta, na qual as Antilhas estão desenhadas; só sabemos que esta é a mais antiga carta existente o qual as Antilhas aparecem.”
Não é fácil dizermos quais das Antilhas é que, estão representadas neste grupo ou até o próprio Continente Americano.
Haiti, Cuba, Jamaica, Puerto Rico, algumas das Bahamas, Trinidade ou algumas das Antilhas Menores, Florida ou até a Gronelândia? Não temos nenhum guia seguro que nos ajude a tentar tal identificação.
A única certeza que temos é que várias destas terras foram vistas, mas a sua identificação é tão incerta como o significado dos sete nomes misteriosos que aparecem na Lenda das Sete Cidades e estão escritos na Antilha e provavelmente influenciaram também a escrita de sete nomes misteriosos nas ilha de Satanazes” .
O que faltou a Cortesão

O GUIA QUE FALTOU ao Armando Cortesão foi descobrir as linhas de latitude na Carta Náutica de 1424.

Ele andou lá muito perto, mas não teve sorte . Foi pena porque ele bem merecia.
Um Homem que passou toda a sua viva a estudar e analisar mapas antigos. O seu maior monumento certamente é, a sua grande participação na criação da Monumenta Cartográfica Henriquina.
Eu falei pessoalmente várias vezes no Instituto de Cartografia da Universidade de Coimbra com o Professor Armando Cortesão, por quem tinha muita admiração, durante o período em que fui estudante na Faculdade de Medicina na Universidade de Coimbra entre 1952 a 1958.
Mas naquele tempo, porque eu me tinha que me preocupar intensamente com as anatomias e patologias para conseguir notas distintas, não tive tranquilidade para descobrir as linhas de latitude na Carta Náutica de 1424, como fiz no sossego da minha casa, em Bristol, Rhode Island, E. U. A., no dia 7 de Novembro de 1986, dois minutos para meia noite!
Tenho muita pena do Dr. Armando Cortesão não estar vivo para saber da minha descoberta original das latitudes na Carta Náutica de 1424 porque ele passou quatro anos a estudá-la e a decifrá-la.

O que é muito triste é que depois de Armando Cortesão morrer, tanto o ‘homem mais pequenino’, entre os professores da Universidade de Coimbra, Damião Peres e o seu colega de história, Luiz de Albuquerque, ambos criticaram negativamente o livro escrito pelo Armando Cortesão -- “the naúticas UART of 1424”. Não apresentaram nenhuma interpretação da Carta de 1424. Só olharam para ela como burros para um palácio!...
Não sei quem é agora o responsável pelo Departamento de Cartografia da Universidade de Coimbra, se é que ainda existe depois do Armando Cortesão ter morrido, porque foi ele que o criou.
Infelizmente ainda hoje existem muitos historiadores e cartógrafos por esse mundo que não querem aceitar a veracidade da Carta Náutica de 1424, porque não sabem, nem querem TRAÇAR as linhas de latitude neste mesmo mapa! Mas este mal continua a infestar todos os professores das universidades e liceus de Portugal.A parte que me satisfaz e que me tranquiliza é que estou a deixar escrito em monografias, revistas e livros e também gravado e espalhado por meio da Internet, esta minha descoberta original das latitudes na Carta Náutica de 1424, para que gerações vindouras possam realmente apreciar esta descoberta tão simples e tão singela.Estou a consolar-me com as novas técnicas de comunicação. Os chamados ”professores” já não podem mais bloquear as minhas descobertas nem os meus escritos usando a “conspiração do silêncio”.
Agora até fogem de mim! São uns infelizes cheios de vaidades fúteis. Por isso não vão deixar marca nenhuma positiva na História! Vão receber o que realmente merecem: Zero!

 Planisfério anónimo de 1502 (dito «de Cantino»)

O planisfério português, anónimo, conhecido por Cantino , datado de 1502 - hoje, propriedade da biblioteca Estense de Modena, em Itália - constitui um documento de particular importância para o estudo da primeira fase da Expansão Marítima Portuguesa, na medida em que reflecte o conhecimento geográfico português, num dos seus momentos mais decisivos, pouco tempo depois das viagens de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e João da Nova - esta última já muito próxima do final da obra, não sendo claro que para ela tenha concorrido com qualquer novidade.
O mapa tem, para além do mais, uma história curiosa que o permitiu datar com rigor e seguir os seus primeiros passos, compreendendo as circunstâncias em que foi feito.
Um embaixador do Duque de Ferrara, Hércules d'Este, chamado Alberto Cantino, passou por Lisboa nos primeiros anos do século XVI, e terá conseguido comprar os favores de um (ou mais do que um) mestre cartógrafo que lhe fez uma cópia do padrão real existente na Casa da Índia, com as mais recentes descobertas geográficas portuguesas.
Quis a fortuna que se guardasse a correspondência trocada entre o duque e o seu embaixador, revelando-nos que o trabalho foi pago pela exorbitante quantia de 12 ducados de oiro, sabendo-se ainda que a 19 de Novembro de 1502 viajava a caminho do seu destino, passando por Roma, de onde o próprio Cantino escrevia ao duque a dar-lhe notícias da preciosa compra, que deve ter saído de Lisboa algumas semanas antes desta carta.
O mapa está traçado sobre várias folhas de pergaminho, coladas lado a lado, sobre uma tela, medindo 1,050mm x 2,200mm, e representando todo o mundo conhecido, profusamente iluminado com símbolos heráldicos e outros sinais representativos, que foram desenhados em fases diferentes da sua elaboração, numa sequência que merecia um estudo aprofundado ainda por fazer.
Dois sistemas de rosas dos ventos, tangentes do centro da carta, formam uma teia de linhas de rumo cujo traçado é posterior ao desenho das terras, das ilhas e mesmo da inscrição da maioria dos topónimos, como se comprova do facto de estarem interrompidas nesses mesmos locais.
Possui seis troncos de léguas, e, pela primeira vez (que se saiba) tem desenhados o Equador, os dois Trópicos e o Círculo Polar Árctico, o que torna implícita a existência de uma escala de latitudes, com um valor aproximado de 17,5 léguas por grau.
Pode ainda ver-se a linha divisória resultante do Tratado de Tordesilhas, sobre a qual está a seguinte inscrição: Este he o marco dantre castella e portuguall .
Com base na implícita escala de latitudes, constataram Duarte Leite e Gago Coutinho que apenas estão representados 257º de longitude, dos 360º que eram devidos a todo o orbe.
Para uma sucinta, mas tão sistemática quanto possível análise do mapa, dividi-lo em quatro zonas distintas:
a região ocidental, que corresponde à actual América;
a África com a Península Industanica, que já fora visitada pelos portugueses;
a Europa com o Mediterrâneo;
e o Oriente onde ainda não tinham chegado navios europeus.
A parte ocidental está cortada pela linha de Tordesilhas, com as ilhas supostamente descobertas pelas viagens espanholas e a zona continental por eles explorada no final do século XV, representada tal como está no mapa de Juan de la Cosa, datado de 1500.
Continuando para Leste e Sul a linha de costa descoberta per mãdado del Rey de caltella , encontramos os contornos do Brasil, numa extensão bastante considerável.
Não podemos ter certezas sobre a origem exacta das informações geográficas que deram origem a esse traçado, mas é lícito conjecturar que poderão ter vindo do próprio Pedro Álvares Cabral, em 1500, ou de Gaspar de Lemos, o comandante do navio que foi enviado a Lisboa com as notícias do achamento do Brasil e que percorreu uma parte da costa antes de regressar ao reino.
Uma terceira hipótese, menos verosímil, aponta para uma eventual viagem de André Gonçalves, enviado pelo rei D. Manuel I, logo que recebeu as notícias de Cabral.
Essa viagem é referida por Gaspar Correia, mas o facto de estar omissa por alguns cronistas e não haver documentação complementar que a comprove, levou a que fosse posta em dúvida.!
É possível, ainda, João da Nova, tendo saído de Lisboa em 1501 e chegado a 11 (ou 13) de Setembro de 1502, possa ter fornecido algumas informações para o desenho do padrão real de onde terá sido copiado este mapa, e um argumento que tem sido usado a favor desta hipótese é a marcação da ilha de Ascensão, eventualmente descoberta por este navegador na viagem de ida para a Índia.
Em boa verdade, pouco tempo teria o cartógrafo desde a chegada de João da Nova até o mapa ter embarcado para o seu destino, mas sempre se admitiu que a colocação de uma ilha, por pequena que fosse e por não alterar grandemente o desenho, não traria grande dificuldade.
Nota-se, no entanto, que o que está no mapa não é a ilha de Ascensão.
Nesse lugar, e apesar de ter esse mesmo nome, está lá um arquipélago de seis ilhas que não parece terem sido acrescentadas à pressa.
O arquipélago (que é, naturalmente, um erro geográfico) não só foi desenhado antes da teia de linhas de rumo, como existem sinais evidentes de que a união de pergaminhos sobre a qual está situado foi descolada e voltada a colar (com um pequeno deslocamento), já depois do traçado.
A representação da Ilha da Ascensão não é um aditamento simples de última hora, e o que lá está mais parece ser o resultado de avistamentos difusos, anteriores à viagem de João da Nova, do que o resultado de um descoberta conhecida em Lisboa umas semanas antes de ter sido completado o mapa..

Finalmente, uma acta notarial de Valentim Fernandes de Moravia, datada de 20/5/1503, integrada no códice de Peutinger, na Biblioteca de Estugarda,  confirma que Gonçalo Coelho chegou à altura do pólo Antárctico, a 53 graus, "tendo encontrado grandes frios no mar". Chegou também ao arquipélago das Maldivas ou Falkand. e  ao extremo Sul do continente americano, pela evidência demonstrata  da análise do mapa de Waldseemuller de 1507, tendo navegado,  inclusivé, a costa ocidental da América do Sul! 
Há vários relatos que testemunham quando Fernão de Magalhães, em Outubro de 1520, chegou ao estreito que actualmente tem o seu nome, tinha consigo um mapa da região. 
O piloto genovês António Pigafetta nos relatos da 1ª viagem à volta do mundo refere…” este [Fernão de Magalhães], tão hábil como valente, sabia que era preciso passar por um estreito muito oculto, que tinha visto representado numa carta feita pelo excelente cosmógrafo Martin da Boémia, que o rei de Portugal D. Manuel I guardava na sua tesouraria… Américo Vespúcio viveu em Portugal entre 1499 e 1505, nos seus escritos divulgados por toda a Europa afirma que participou nestas expedições de Gonçalo Coelho a mando do D. Manuel I
Nunca foi encontrado qualquer registo da sua participação nas mesmas. As suas alegadas descobertas, com as quais pretendeu ocultar os feitos de Colon, foram elaboradas com base em relatos dos marinheiros portugueses, com quem contactou durante os 5 anos que viveu em Lisboa.
A África do Cantino tem sido apontada como a mais surpreendente representação de um continente que só tinha sido contornado três vezes.
É impressionante o rigor conseguido, atribuído à eficiência técnica dos navegadores portugueses daquele tempo.
Essas navegações foram, de facto, magníficas, mas não se crê que fosse essa a razão porque o continente africano aparece representado com tanto rigor no Cantino , levando a supor que estaria perdido o “mapa padrão” da Casa da Índia, servindo de modelo a todas as cartas da época.
Neste mapa de 1502 a distância em graus grandes (graus de círculo máximo) que separa as ilhas afortunadas do Cabo Guardafui, corresponde à medida exacta dada por Ptolomeu na sua Geografia, e não é provável que os portugueses tenham esquecido uma informação deste calibre (ainda por cima referente a uma zona que era, por demais, conhecida no tempo de Ptolomeu) para irem à procura da sua própria África que descobririam em apenas três viagens marítimas.
E por muito que se queira elevar as viagens portuguesas de Quinhentos, compreende-se que não foram feitas de forma linear, nem com a ajuda de referências, decorrendo em enormes travessias irregulares, de que se sabe hoje alguns pormenores e, sobretudo, as indefinições.
O desenho da África do Cantino (ou o desenho do padrão real) parte de um pressuposto fundamental: a sua largura ou distância entre as ilhas Canárias e o Cabo Guardafui é de 83º de longitude, como tinha dito Ptolomeu (distância entre as Ilhas Afortunadas e o Cabo Aromata).
A partir deste dado, foi explorada e desenhada a costa Africana - primeiro ocidental e depois oriental - ajustando-se sucessivamente os contornos, para que se pudesse unir aos extremos conhecidos.
Os autores que abordaram este assunto referiram a destruição dos mitos ptolemaicos, na medida em que foram, de facto, eliminados os seculares erros que povoavam o conhecimento geográfico ocidental, mas não se lembraram que havia valores bem conhecidos do sábio alexandrino, sendo lógico que os portugueses os adoptassem.
Um desses valores era a distância em graus do Cabo Aromata às Ilhas Afortunadas.
A África de 1502 deve-se, portanto, à conjugação de dois saberes:
um clássico, conhecia a diferença de longitude entre os dois extremos do continente;
outro de experiência feito , assente nas navegações do século XV, foi construindo os contornos do resto da costa até unir as duas partes conhecidas.
O enquadramento da costa, de aí até à Índia fez-se, pois, com relativa facilidade, subsistindo o evidente desenho ptolemaico do Golfo Pérsico a confirmar a importância do geógrafo grego.
Em tempos, alguns autores invocaram um conjunto de inscrições que se podem ver no interior do continente africano, para supor que D. João II imaginara o Preste João mais perto da costa ocidental do que realmente estava, e uma África muito mais estreita, que servira de base ao desenvolvimento de uma estratégia política.
Sem contestar os pressupostos da estratégia política, creio que a visão da África sempre teve a largura que lhe deu Ptolomeu, aguardando apenas o fecho da linha de costa, com as navegações a Sul.
O traçado dos contornos europeus corresponde ao que era tradicional naquele tempo, decorrendo da técnica cartográfica mediterrânica, com os seus centros principais nas Ilhas Baleares e na Itália (cada uma com as suas peculiaridades, mas com traços gerais semelhantes).
É evidente a existência de uma repetição de imagens que vinha do século XIV, que os portugueses encaixaram no seu próprio conhecimento, verificando-se com facilidade onde estão os pontos de descontinuidade.
Repare-se, por exemplo, como as dimensões do Mediterrâneo, no sentido Leste-Oeste, estão muito curtas em relação ao tamanho da África, criando um istmo de Suez com uma dimensão descomunal, que, de maneira nenhuma, pode ser explicada pela falta de conhecimento sobre um local que, durante séculos, tão batido fora por mercadores e peregrinos.
Este erro permaneceu nas cartas portuguesas durante décadas e compreende-se muito facilmente porquê.
Lembremo-nos que a África está desenhada com base numa quadrícula de graus grandes (como se fossem graus de Equador), enquanto as representações do Mediterrâneo eram feitas com base num conhecimento de distâncias lineares (na realidade distâncias e rumos, embora, para este efeito, apenas nos interesse considerar as distâncias).
Um grau de longitude no Mediterrâneo (38º ou 39º de latitude) tem apenas 13,5 léguas.
Ora quando se une uma carta graduada em distâncias, duma zona que se desenvolve longitudinalmente e em que o grau de longitude tem 13,5 léguas, com outra onde o grau tem 17,5 léguas, o desfasamento é inevitável, e as descontinuidades dos contornos do território só podem ser evitados com artifícios de que resultam tão absurdos como o enorme istmo de Suez.
Pedro Nunes dá esta explicação 35 anos mais tarde, referindo-se às cartas do seu tempo, onde ainda subsistia este erro.
Finalmente, resta-me falar da Ásia, sobretudo da Ásia para Leste do Cabo Comorim onde nunca tinham estado os portugueses.
A parte do Cantino que representa essa região surge-nos tosca e desajustada das linhas de referência gerais do mapa (Equador e Trópicos). É fácil compreender como a informação dessas paragens resulta de uma fonte oriental cuja linguagem técnica ainda não era entendida pelos portugueses.
O mapa tem assinalados locais com valores de alturas estelares em isba (unidade oriental) , mas, com frequência, mal colocados, mesmo que fosse feita uma conversão directa para graus.
Na verdade a navegação oriental é complexa e não foi compreendida pelos portugueses logo aos primeiros contactos e é provável que esta representação tosca tenha a ver com isso.
A impressão que salta à vista numa observação rápida desta parte oriental do mapa é a de que ali foi acrescentada uma outra carta, cuja escala era diferente e que em nada se ajustava à representação que estava feita.
Sem perceber nada de correspondência de unidades ou sem saber o significado dessas alturas estelares em isba, nunca seria possível conciliar as duas técnicas, podendo ser essa uma das razões da discrepância existente.  Identificam-se alguns acidentes geográficos mais importantes, completando o conjunto da carta com uma área que, para os portugueses ainda iria entrar em exploração.
Observações sobre o Planisfério «Cantino» (1502) , in Estudos de História, vol IV, Coimbra, Universidade, 1976, pp 181-221. CORTESÃO, Armando e MOTA, Teixeira da, Portugaliae Monumenta Cartographica, vol I, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1987. LEITE, Duarte, O Mais Antigo Mapa do Brasil , in História da Colonização Portuguesa do Brasil, dir. Carlos Malheiro Dias, vol II, cap. IX, Porto, Litografia Nacional, 1923, pp 223-281. MOTA, Teixeira da, A Viagem de Bartolomeu Dias e as concepções geopolíticas de D. JoãoII , in Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Outubro-Dezembro de 1958, Lisboa, 1958, p 297-322.

O problema da determinação da longitude no Tratado de Tordesilhas

A. Estácio dos Reis
Revista MARE LIBERUM
nº 8 - Dezembro 1994

O Tratado de Tordesilhas tem, quanto a nós, um lugar privilegiado na história da diplomacia.
De facto, não parece ter havido, ao longo dos tempos, um convénio que tanto tenha apaixonado os estudiosos e são várias as razões que nos levam a fazer tal afirmação. Quem ler atentamente o seu articulado, constata que, para além do propósito bem claro de dividir o Atlântico em duas áreas de influência, o Tratado deixa-nos dúvidas que não sabemos explicar, criando uma problemática que constitui um permanente desafio a todos aqueles que se têm debruçado sobre este palpitante assunto.
Mas para além do mistério que encerra, este convénio tem uma particularidade curiosa, invulgar em documentos deste tipo. Isto, porque os negociadores sobrestimaram a capacidade científica dos executantes, não se apercebendo que estes, na época, não dispunham dos mecanismos indispensáveis para levar a cabo a missão que lhes competia.
Entre os problemas que se levantam ao estudarmos o Tratado de Tordesilhas parece-nos que o primeiro é, sem dúvida, tentar explicar a tão rápida concordância em alargar a área de domínio português, empurrando 270 léguas para oeste, a linha divisória que a bula Inter Caetera tinha estabelecido um ano antes.
Efectivamente, a pedido dos reis de Castela e Leão e logo a seguir à descoberta do Novo Mundo por Colon, o papa espanhol Alexandre VI tinha definido aquela linha como o meridiano que passava a 100 léguas a ocidente dos Açores e Cabo Verde, o que já de si denunciava uma forte indeterminação, não só porque não é indicada a partir de que ilha deveria ser feita a contagem, como acontece que os arquipélagos se estendem por longitudes não coincidentes.
No Tratado de Tordesilhas, todavia, só é referido o arquipélago de Cabo Verde, mas a indeterminação mantém-se, ao longo 2°42´ que separam as longitudes das ilhas extremas.
Iremos voltar a este aspecto, que merece uma análise mais cuidada mas que, na realidade, em nada nos ajuda a explicar, como atrás nos interrogávamos, a pronta concordância, pelas duas partes, da nova posição da linha divisória.
Têm sido apontadas várias razões. Uma delas, seguida por alguns autores, pretende afirmar que D. João II teria forçado a levar o meridiano divisório para Oeste porque, assim, os navios dispunham de maior área de manobra para realizarem as navegações no Atlântico, dado que, como é sabido, elas faziam-se descrevendo uma larga volta para aproveitar os ventos de feição e Corrente marítima Brasileira 1.
Este argumento não nos parece aceitável pelas seguintes razões: 
a) Não era possível, no mar e na época, exercer uma fiscalização que permitisse assegurar a entrada de um navio português na zona de influência dos nossos vizinhos ibéricos, por não se dispor de meios capazes de definir com rigor a posição do meridiano divisório. Se houve, ao longo dos tempos algumas intromissões de navios portugueses e consequentes reclamações, não consta que estas tivessem tido seguimento, talvez por falta de provas.
b) Se estivesse na mente de D. João II, e daqueles que o representaram em Tordesilhas, defender o direito de passagem de navios portugueses para além da linha divisória que viesse a ser estabelecida, esse aspecto teria sido, certamente, negociado com sucesso, se fundamentado no incontestável direito de reciprocidade. De facto, no ponto 4 do Tratado, assenta-se que os navios dos «senhores rei e rainha de Castela e de Leão e de Aragão, etc. possam ir e vir, e vão e venham livre, segura e pacificamente sem contradição alguma pelos ditos mares que ficam com o dito senhor rei de Portugal dentro da dita raia, em todo o tempo e cada e quando suas altezas e seus sucessores quiserem e por bem tiverem» 2. Excepção à passagem inofensiva era quando os navios espanhóis, antes de atravessarem a linha de demarcação, encontrassem novas terras que teriam de entregar ao rei de Portugal.
Portanto, a nosso ver, a única justificação, que parece válida, para ter levado o soberano português a defender o alargamento da sua zona de influência, teria sido a certeza, ou pelo menos, a suspeita da existência, de novas terras, a oeste, fossem elas ilhas ou continente. Não nos vamos deter neste campo, aliás várias vezes abordado, mas para além dos argumentos que têm sido usados para defender esta hipótese, há um que julgamos imperioso atender. Reportamo-nos ao texto do Tratado quando refere o traçado do meridiano divisório, dizendo, muito claramente, que no caso de se topar alguma ilha ou terra firme «se faça algum sinal ou torre» 3, afirmação que, só por si, nos garante que as suspeitas que hoje admitimos já existiam na época.
Todavia, não nos parece que o afastamento da linha divisória para as 370 léguas de Cabo Verde (oportunamente tentaremos procurar explicar o porquê das 370 léguas) conviesse apenas a Portugal, como é comum afirmar-se. A nosso ver um convénio, a menos que seja negociado pela força das armas, o que não é o caso, só é possível quando há interesse para ambas as partes e, por isso, parece-nos importante avaliar quais as vantagens que, em Tordesilhas, poderiam advir para os Reis Católicos.
A nós parece-nos que, estando Colon a procurar o caminho do Oriente por Oeste, tornava-se conveniente, para Fernando e Isabel, que o início da sua área de influência se situasse o mais possível para ocidente, desde que, bem entendido, não pusesse em causa as terras descobertas pelo Almirante. Deste modo, assegurava-se aos Reis Católicos uma área mais alargada, onde se poderiam encontrar novas terras durante a viagem que se pretendia fazer até alcançar o Catai 4.
Aliás, como se constatou, alguns anos mais tarde, com a célebre questão das Molucas, era inevitável a divisão do mundo em dois hemisférios de influência como, na realidade, veio a acontecer.
Deste modo conseguimos explicar a pronta concordância dos Reis Católicos 5, mas admitimos que a escolha das 370 léguas tenha sido ditada por outra razão, como a que mais adiante indicaremos.
Um problema sério na aplicação do Tratado, para além da indefinição, já referida, de não se indicar qual a ilha do arquipélago de Cabo Verde, a partir da qual, se faria a medição das 370 léguas, era a dificuldade, que existia na época, de proceder à marcação da linha divisória. Esta dificuldade, aliás que já se verificava quando da bula Inter Caetera de 4 de Maio de 1493, atrás referida, que definia aquela linha como um meridiano, alterando a filosofia de um outro Tratado que, pondo termo à guerra que D. Afonso v moveu a Castela e Aragão, se celebrou em Alcáçovas no ano de 1479 e foi firmado em Toledo no ano seguinte. Neste caso, entre outras cláusulas, os Reis Católicos, para que a paz fosse firme, estável e para sempre duradoura prometiam ao rei de Portugal «de agora em diante para todo o tempo» o direito «à possessão e quase possessão em que estão em todos os tractos, terras, resgates da Guiné com suas minas de ouro e quaisquer outras ilhas, costas, terras descobertas e por descobrir achados e por achar, ilhas da Madeira, Porto Santo e Deserta e todas as ilhas dos Açores e ilha das Flores e assim as ilhas de Cabo Verde e todas as ilhas que agora tem descobertas e quaisquer outras ilhas que se acharem ou conquistarem, as ilhas de Canária para baixo contra Guiné, porque tudo o que é achado e se achar, conquistar ou descobrir nos ditos limites para além do que está achado, ocupado, descoberto, fica para o dito rei e príncipe de Portugal e seus reinos, tirando apenas as ilhas Canárias, a saber: Lançarote, Palma, Fuerte Ventura, La Gomera, El Hierro, La Graciosa, La Gran Canária, Tenerife todas as outras ilhas de Canária ganhas ou por ganhar, as quais ficam para os reinos de Castela» 5.
Assim, neste tratado de Alcáçovas/Toledo estabelecia-se que seriam portuguesas as terras e ilhas «descobertas e por descobrir» a partir das ilhas Canárias «para baixo» isto é, para Sul, o que envolvia a noção de latitude que, com os conhecimentos da época, era possível determinar a partir da altura da estrela polar ou do Sol ao meio-dia. Ao contrário, na apressada bula de Alexandre VI e no tratado de 1494, a linha divisória, por ser um meridiano, criava um problema que só foi possível resolver, a bordo, quase três séculos mais tarde.
Todavia, o convénio estabelecido em Tordesilhas era bem claro. Deveria ser traçada no «mar oceano uma raia ou linha direita de pólo a pólo, a saber do pólo Árctico ao pólo Antárctico, que é de Norte a Sul. A qual raia ou linha se haja de dar e dê direita, como dito é, a 370 léguas das ilhas de Cabo Verde para a parte do poente, por graus ou por outra maneira como melhor e mais prestes se possa dar de maneira que não sejam mais.» 6.
Para dar cumprimento a esta cláusula, estabelecia-se mais adiante no Tratado que, «dentro de dez meses primeiros seguintes contados do dia da factura desta capitulação, os ditos senhores seus constituintes hajam enviar duas ou quatro caravelas, a saber uma ou duas de cada parte, ou mais ou menos segundo se acordar pelas ditas partes que são necessárias». E nelas embarquem pilotos, astrólogos e marinheiros e quaisquer outras pessoas que conheçam» tanto de uma parte como de outra para que juntamente possam melhor ver e reconhecer o mar e os rumos e ventos e graus do Sol e Norte, e assinar as léguas sobreditas, tanto que para fazer o sinalamento e limite concorram todos juntos os que forem nos ditos navios que enviarem ambas as partes e levarem seus poderes. Os quais ditos navios todos juntamente continuarem seu caminho às ditas ilhas de Cabo Verde, e dali tomarão sua rota direita ao ponente até às ditas 370 léguas, medidas como as ditas pessoas que assim forem acordarem que se devem medir, sem prejuízo das ditas partes. É ali de onde acabarem se faça o ponto e sinal que convenha, por graus do Sol ou do Norte ou por singraduras de léguas, ou como melhor puder em concordar» 7. E que esta raia «seja havido por sinal e limitação perpetuadamente para sempre jamais» e no caso de se topar alguma ilha ou terra firme «se faça algum sinal ou torre, e que em direito do tal sinal ou torre se continuem daí em diante outros sinais pela tal ilha ou terra em direito da dita raia, os quais partem o que a cada uma das partes pertencer dela» 8.
Sem dúvida que o tratado incluía os ingredientes para se cumprir a soberana vontade dos reis que governavam os destinos dos habitantes da Península Ibérica, mas apenas no pergaminho e não no mar, pelas razões a seguir indicadas, uma delas, aliás, já atrás referida:
a) Indeterminação do início da contagem das 370 léguas, dado que o arquipélago se estende por 2º 42´ de longitude, sem ser indicada a ilha de referência;
b) Indefinição do valor da légua, pois ao tempo da assinatura do Tratado usava-se 16 2/3 ou 17 1/2 léguas por grau, para não referir o de 18 léguas, proposto por Duarte Pacheco Pereira no Esmeraldo de Situ Orbis, escrito entre 1505 e 1508, mas que o autor já teria em mente quando foi testemunha em Tordesilhas.
Se não bastassem estas dificuldades, o articulado estipulava ainda que, percorridas pelos tais navios, as 370 léguas para ponente a partir das ilhas de Cabo Verde, «se faça o ponto ou sinal que convenha» (isto no caso de não se topar alguma ilha ou terra firme) o que certamente não seria no mar, por razões óbvias, mas sim numa carta onde se traçaria a mencionada «linha direita de pólo a pólo», constituindo assim o padrão que, muitas vezes copiado, seria o atestado formal da execução do Tratado.
Mas em que carta, e qual o tipo de projecção (como hoje diríamos) em que se traçaria esta linha?

  
A CARTOGRAFIA NÁUTICA

A cartografia é a ciência e também a arte, que permite representar num plano a superfície terrestre. Se a porção é pequena, as superfícies quase se confundem e o processo não oferece qualquer dificuldade.
Quando, porém, a área em causa é de grandes dimensões, e como a superfície esférica não é planificável, há que procurar encontrar uma solução em que:
a) Exista um sistema de coordenadas perfeitamente definido;
b) O contorno das terras seja, o menos possível, deformado;
c) A correspondência entre a superfície da terra e a carta seja unívoca, isto é, a cada ponto daquela deverá corresponder um único ponto desta e vice-versa;
d) Na cartografia náutica ainda se exige (o que só foi realidade a partir do século XVIII) que os azimutes marcados e os rumos seguidos pelo navio sejam iguais no mar e na carta.
As primeiras cartas náuticas foram as chamadas cartas-portulano, que apareceram a representar o Mediterrâneo e são bem conhecidas pela teia de linhas de rumo que apresentam. O contorno da costa era desenhado a partir de pontos, cada um deles definido por uma distância estimada a um determinado rumo. Rumos da agulha de marear, portanto magnéticos, como se pode constatar por numerosos exemplos, dos quais o mais divulgado tem sido a carta de Angelino Dulcert (1339) na qual Gibraltar e a cidade de Alexandria aparecem no mesmo paralelo, quando o Estreito se encontra na latitude de 36º Norte e Alexandria em 31º Norte, o que mostra bem que a representação das terras apresenta uma distorção de 5º, correspondente à declinação magnética local 9.
As cartas náuticas portuguesas começaram por ser do mesmo tipo das atrás mencionadas, com as imperfeições próprias do sistema elementar em que se baseavam, mas, ainda no tempo do Infante D. Henrique, o contorno das terras passou a ser obtido por derrotas e alturas. Foi um avanço considerável, pois conseguiu-se, pelo menos, um certo rigor quanto à coordenada latitude, já que a longitude continuou a ser estimada o que, naturalmente, provocava erros, por vezes importantes. Este problema só veio a resolver-se, na prática, com a utilização do cronómetro de bordo, inventado em 1735, pelo inglês John Harrison, mas que só no fim do século começou a ser usado nos navios, por se tratar de um instrumento que requeria alta tecnologia para a época, do que resultava uma baixa produção e, inevitavelmente, um custo elevado.

COMO SE NAVEGAVA

Actualmente são os cartógrafos que elaboram as cartas náuticas, desde o trabalho de «campo», até ao produto final preparado para impressão. Todavia, no passado, a carta, apesar de ser produzida pelo mestre cartógrafo, o seu trabalho era resultado de um permanente diálogo entre ele e o piloto. Assim, este recolhia os elementos ou esboçava o desenho da costa e dos seus acidentes, por vezes, ainda desconhecidos, entregando esta informação ao cartógrafo que corrigia ou actualizava a carta padrão. A partir desta elaboravam-se outros exemplares, manuscritos, que eram usados pelos pilotos em viagens futuras. É oportuno esclarecer-se que estas cartas nada têm a ver com as que, belamente iluminadas, resistiram à fúria dos tempos e chegaram até aos nossos dias. Estas, eram destinadas a ofertas ou conservadas por altos dignitários e, portanto, bem diferentes da simplicidade dos exemplares de trabalho, usados pelos pilotos e que, assim o julgamos, todos eles desapareceram.
Para se entender como era colocada na carta náutica, por exemplo, uma nova ilha, é indispensável conhecer como é que um piloto, quando se começou a fazer a navegação por alturas, determinava o ponto do navio.

Antes de mais nada há que esclarecer, já o dissemos atrás, que o piloto governava pelo rumo da agulha, portanto magnético, pois só a partir do segundo quartel, do século XVI, em consequência dos trabalhos de D. João de Castro, é que se começa a tomar em consideração a declinação magnética que ao tempo era conhecida por variação 10
Deste modo, quando um piloto lançava o rumo Rv a partir do ponto P, a sua posição de chegada C1, ao paralelo j, calculado por observação astronómica, seria teoricamente o cruzamento de Rv com o referido paralelo.
Todavia, devido à declinação magnética d, o navio navegava na realidade ao rumo Rm, e assim o seu ponto de chegada ao paralelo j era C2, cometendo o erro e em longitude.
Este era, portanto, um erro inevitável, ou quase, pois em certos casos poderia atenuar-se, como a seguir veremos, utilizando a distância percorrida. Este elemento, porém, era estimado pois não havia, ao tempo, nenhum instrumento capaz de a calcular com um mínimo de rigor. Não se dispunha, ainda, da chamada barquinha, só inventada no fim do século XVI, mas que os nossos pilotos só começaram a utilizar no século XVIII 11. Assim, o piloto para estimar a distância percorrida, tinha que recorrer à sua experiência, ou então a regras empíricas, função da força do vento e da sua direcção em relação ao rumo do navio, de que conhecemos uma tabela tardia, já de cerca de 1604, inserida no Roteiro da Carreira da Índia, de Gaspar Manuel. Por exemplo, «Com vento teso em popa, 36-38 léguas», numa singradura de 24 horas ou «Com vento quando a nau governa pela bolina, 8 léguas». Todavia, como muitas vezes, o navio era obrigado a efectuar um caminho poligonal, devido aos condicionalismos do vento, a distância efectiva tinha de ser reduzida a partir das várias pernadas percorridas pelo navio, usando o chamado Regimento das léguas 12.
Veja-se agora como era marcada na carta a posição do navio, com a ajuda da distância. Para o efeito vamos admitir que o navio partia do ponto P e ao fim, por exemplo, de uma singradura tinha alcançado o paralelo j, calculado a partir da altura da estrela polar ou da meridiana do Sol.
No caso do navio ter seguido ao rumo R1, e, ao fim de percorrer a distância D1, estimada pelo piloto, se encontrar precisamente no paralelo de latitude j  observada, o piloto não tinha qualquer dúvida: a sua posição era C1.
Todavia, quando ao percorrer-se a distância D2 não atingisse o paralelo j e o rumo R2 fosse infe­rior a 45º, em relação ao meridiano, o piloto mantinha o rumo e alterava a distância, considerando C2 como a posição do navio.
Se o ângulo entre o rumo R3 e o meridiano fosse superior a 45º, era dada primazia à distância D3, admitindo-se C3 como a posição provável do navio. Veja-se que, neste caso, se corrigia o rumo, provavelmente afectado pelo abatimento, devido ao vento ou corrente, ou, também pela declinação magnética.
E em que carta se colocava esta informação? A este respeito, admitiu-se que as cartas usadas pelos portugueses, eram cartas quadradas, isto é, com uma grelha de meridianos e paralelos, de graus iguais. Em termos modernos, esta carta corresponderia à projecção do globo num cilindro tangente ao equador e com o seu eixo, naturalmente, coincidente com o da Terra. Neste tipo de projecção, os paralelos, apesar do seu perímetro real ir diminuindo do Equador para o Pólo, quando planificados, têm todos o mesmo comprimento.

COMO SE CONSTRUÍA A CARTA NÁUTICA

Admitiu-se que as antigas cartas náuticas portuguesas eram quadradas ou até rectângulares, seguindo a carta de Marino de Tiro, concebida para o paralelo médio de 36º (correspondente à latitude de Rhodes) na qual o comprimento do grau da escala de latitudes, é constante e igual a cerca de 5/4 do grau do referido paralelo.
Todavia, António Barbosa, em 1948, chamou a atenção para o erro que estava a cometer-se mostrando, num longo estudo 13, que as cartas náuticas portuguesas dos séculos XV e XVI, não tinham um sistema de projecção definido. Vamos ver porquê.
Comecemos por apresentar uma gravura onde se vê parte da superfície terrestre (à direita) e a sua representação cartográfica em projecção cilíndrica (à esquerda), na qual os graus de latitude têm a mesma dimensão dos de longitude. Na verdade, uma carta quadrada, onde se constata claramente que, quanto mais nos aproximamos do Norte, mais a carta se deforma, chegando ao extremo do Pólo Geográfico ser representado por uma linha.
Vamos agora recuar no tempo, até ao século XVI e convidar o leitor a embarcar connosco num navio que, saindo do ponto A, vai navegar para Oeste, exactamente sobre o Equador. 
Para efeitos de pilotagem, usaremos a escala de 17,5 léguas por grau. Percorrida a distância de 350 léguas, encontraremos o ponto B, extremidade leste da ilha X, que visitamos, para constatar que se trata de uma estreita língua de areia com a largura de 175 léguas. Esta ilha, coloca-mo-la rigorosamente, na carta, entre as longitudes 20º (B1) e 30ºW sobre o Equador.
Em seguida, decidimos partir do ponto B, na extremidade leste da ilha X onde tínhamos chegado, e rumar Norte. Ao fim de 6x175 léguas, isto é, na latitude de 60ºNorte, encontramos o ponto C, a extremidade leste de uma outra ilha, a Y, medimo-la para constatar que era como a primeira, uma extensa língua de areia, mas com a largura de 87,5 léguas. Assim foi marcada na carta a ilha em Y1, a partir da sua ponta leste C1.
Aconteceu, porém, que um outro navegador, participante destas viagens imaginárias que estamos a relatar, partiu do ponto D, situado como o ponto A, no meridiano de referência (hoje seria o de Greenwich), rumou para Oeste sobre o paralelo dos 60ºNorte e encontrou, ao fim de percorridas 175 léguas, a ilha Y que nós já tínhamos visitado. E, como para os navegadores e cartógrafos da época, a escala usada era a mesma para toda a superfície terrestre, estando a ser considerada, como já o dissemos, as 17,5 léguas por grau, a ilha Y foi colocada na carta na posição Y2, a partir de C2.
Verifica-se assim que a ilha Y que, na realidade, se situa entre os 20º e 30ºW de longitude, na latitude de 60ºN, foi, em ambos os casos mal representada cartograficamente. De facto, na posição Y1, está correcta a ponta leste (Cl) da ilha em 20ºW, mas incorrecta a largura, pois a ponta Oeste devia ter sido colocada em 30ºW. 
Na posição Y2, está toda a representação cartográfica errada, pois a ilha foi situada entre 10º e 15ºW, quando os seus extremos se encontram, repetimos, nas longitudes de 20º e 30ºW.
Constata-se assim que, na cartografia usada na época, a posição de uma ilha (ou de uma costa) dependia do rumo que seguia o navio quando a achasse. Assim a ilha foi, não só representada na carta em duas posições diferentes, como a correspondência, entre os pontos da superfície terrestre e os da carta, deixou de ser unívoca, contrariando uma condição fundamental em cartografia.
Aliás estes erros, pela primeira vez assinalados por António Barbosa, foram mais tarde apontados por Teixeira da Mota que apresenta alguns casos concretos, em Reflexos do Tratado de Tordesilhas na Cartografia Náutica do século XV 14.
Salta portanto à vista que, atendendo ao modo como era feita a cartografia, os meridianos deixavam de ser rectas, perpendiculares ao Equador, a não ser o meridiano de referência, onde se iniciavam as contagens. Assim, a chamada carta quadrada, só o era no nome, porque na sua execução o aspecto que deveria ter era o da imagem ao lado.
Este tipo de projecção, aliás, viria a ser apresentado no Atlas Coelestis, da autoria de John Flamsteed (1646-1719), personagem muito importante na história da astronomia por ter sido o primeiro director do Observatório de Greenwich, fundado em 1676 e desempenhado um papel preponderante no desenvolvimento da ciência náutica.
Nas cartas ditas quadradas que temos vindo a analisar, a escala era indicada por um petipé, também chamado tronco, que, como vimos, correspondia ao número de léguas por grau, medido no meridiano ou no Equador. Os troncos de léguas, figuras comuns e características das cartas náuticas, aparecem graduados em 16 2/3 léguas, mas, especialmente em 17 1/2, léguas por grau.
A inconveniente utilização de um tronco de léguas único para toda a carta e, portanto, independente da latitude onde se navegava, já tinha sido notada por D. João de Castro e Pedro Nunes. A este respeito, D. João de Castro, no seu Roteiro de Lisboa a Goa, de 1537, com a sua longa experiência e sabedoria, diz-nos que, na travessia da costa do Brasil ao Cabo da Boa Esperança, o caminho percorrido é 150 léguas mais curto. E que «já está assentado por máxima nos mareantes, que neste caminho se hão-de contar mais léguas em cada um dia natural, do que acharem que a nau podia andar por qualquer via que fosse» 15.
Apesar destas constatações, bem evidentes, só no princípio do século XVIII, aparece referência à utilização de troncos de léguas (que têm sido designados por troncos particulares das léguas), no Regimento Náutico, entregue pelo rei a Gaspar Jorge do Couto, em 13 de Março de 1608: «Na carta de marear usareis dos troncos de léguas, que o dito João Baptista [Lavanha] deu, que são acomodados às alturas e servem nelas para lançar o ponto na carta com certeza, sendo os outros troncos falsos causadores de grandes erros na navegação» 16.
Este importante avanço na prática da navegação, só resolveu em parte o problema, porque os troncos de léguas que se desenhavam, a partir das tabelas para o efeito calculadas, só eram aplicadas com rigor quando se caminhava sobre um paralelo. Ficava portanto por resolver a redução do caminho percorrido, quando o navio seguisse a um rumo oblíquo, dado que, quando se caminhasse sobre o meridiano ou sobre o Equador se utilizava, muito justamente, o tronco geral de léguas. Todavia, nas proximidades do Equador a diferença entre o tronco geral e os particulares, não era significativo para a náutica praticada na época.
Os portugueses assim navegaram até meados do século XVIII, quando a chamada carta de latitudes crescidas, começou a ter uso comum no nosso país. Esta carta que se deve a Gerard Kremmer, conhecido pelo nome de Mercator, foi um dos mais importantes avanços na evolução da náutica, porque permitiu que, nestas cartas também desenhadas em projecção cilíndrica, mas com os graus de latitude crescendo para o pólo, o rumo do navio desenhado na carta fosse o mesmo que o navio, de facto, segue no mar. É no entanto indispensável esclarecer, que a realização prática desta carta de latitudes crescidas ficou na história, ligada ao nome de Mercator, mas o seu conceito deve-se sem qualquer dúvida, a Pedro Nunes. Efectivamente, este ilustre matemático e cosmógrafo português, nos seus dois tratados, publicados em 1537 – Sobre certas dúvidas da navegação Em defensam da carta de marear – mostra que as cartas quadradas têm defeitos que é necessário remediar. Admitindo porém que, até aos 18º de latitude, estas podiam ser usadas sem inconveniente, pelas razões que atrás referimos, mas que a partir deste valor, deveriam ser utilizados o que ele designa por quarteirões, isto é, cartas parciais abrangendo pequenas regiões, desenhadas em projecção rectângular, na proporção do grau do meridiano para o grau do paralelo médio. Apenas faltou a Pedro Nunes, integrar os quarteirões numa carta geral, solução que veio a ser conseguida com sucesso por Mercator.


O COSMÓGRAFO JAIME FERRER

Não foram estes, porém, os principais óbices para a não aplicação do Tratado, mas sim determinar a posição correcta do meridiano de partilha.
O assunto foi muito discutido pelos negociadores do referido convénio e haveria de continuar a sê-lo posteriormente. Há no entanto uma contribuição, acerca da qual merece a pena que nos detenhamos um pouco.
Para o efeito teremos de nos deslocar a Blanes, não muito longe de Barcelona. Aqui vive Jaime Ferrer, nascido em Vidreras, na Gerona, possivelmente em 1445, que navegou largos anos à procura de pedras preciosas para a corte de Nápoles e que, a partir de 1480, se dedicou ao comércio e lapidação de gemas. Filósofo, apaixonado pela obra de Dante, Jaime Ferrer interessou-se pela cosmografia, onde atingiu notável prestígio que chegou ao conhecimento dos Reis Católicos. Alguns historiadores chegam a afirmar que Ferrer, com os seus conselhos, influenciou os soberanos a darem apoio à proposta de Colon de viajar para ocidente 17.
Certo é, porém, que após a assinatura do Tratado, Fernando e Isabel preocupados com a sua aplicação, procuram quem os possa ajudar a resolver o problema da marcação do meridiano divisório. E é, precisamente, neste contexto que se inicia uma troca de correspondência entre aqueles soberanos e Ferrer. Em 27 de Janeiro de 1495, este envia uma carta para a corte, acompanhada de um planisfério onde diz que «la distancia de las dichas trecientas setenta léguas cuando se estiende la línea occidental, partindo del dicho Cabo Verde (…) que en el equinócio distan viente e tres grados» 18.
Vallicrosa transcreve este texto 19, dizendo que as 370 léguas se deveriam contar no paralelo das ilhas de Cabo Verde e não no equador, mas não nos parece correcto este comentário porque, a diferença de longitude entre os meridianos de Cabo Verde e de Tordesilhas, uma vez definida na latitude deste arquipélago, mantém-se como não podia deixar de ser, ao longo de todo o globo. Luís de Albuquerque fez também idêntica advertência acerca deste passo, mas quanto à equivalência entre as 370 léguas e os 23º, procura explicá-la dizendo que o cosmógrafo chegou a este resultado usando o módulo de 16 2/3léguas por grau 20.
Em 28 de Fevereiro de 1495, os Reis Católicos responderam a Ferrer, ordenando-lhe que se desloque a Madrid, o que o cosmógrafo faz, acompanhando depois a corte até Burgos, onde esta se mantém durante os meses de Junho a Agosto.
Aqui, Ferrer volta ao assunto, notando que as ilhas de Cabo Verde distam do equador 15º e que as 370 léguas contadas a oeste das ditas ilhas equivalem a 18º, pois cada grau, contado em tal paralelo equivale a 20 léguas e 5/8 de légua 21.
Como este último texto é, seguramente, de 1495 22, não se compreende como é que, no mesmo ano, aquele ilustre cosmógrafo tenha usado dois valores tão díspares para o grau equinocial, como o de 16 2/3 léguas, conforme deduzido por Albuquerque mas que Ferrer nunca refere, e o de 21 5/8 léguas, que parece ser, incontestavelmente, o que ele admite para o grau do equinócio ou do meridiano 23. Vamos tentar ilibar o cosmógrafo de Blanes dum erro que ele não cometeu.
Os textos que temos referido fazem parte de uma obra de Ferrer, compilada pelo seu criado Rafael Ferrer Coll e publicada em 1545, após a morte do autor que teve lugar certamente, pouco depois de 1523, pois nesta data o seu estado de saúde já era muito precário.
A obra com o título Sentencias Catholicas del Divi poeta Dant florenti compiladas per lo prudentissim mossen laume Ferrer de Blanes, M. D. xlv., reúne vários opúsculos, e num deles o autor fala da sua «gran pratica en Cosmographia y molta experiencia en lart de Navegar» 24.
Nós temos estado a seguir os textos desta obra publicados por Navarrete, mas no que respeita à carta de 27 de Janeiro, solicitámos à Biblioteca da Universidade de Barcelona para nos enviar cópia fiel do texto original 25 e assim verificamos que, quando Ferrer afirma que as trezentas setenta léguas «distan [del equinócio] xxiii grados», esta cifra está escrita, aliás por duas vezes, em algarismos romanos. Parece-nos perfeitamente possível que o impressor tenha tomado um v por um x, cometendo um erro, aliás comum, deixando assim de imprimir o valor correcto de «xviii grados». Deste modo todo o texto de Ferrer fica coerente com as 20 5/8 léguas que utiliza no paralelo de Cabo Verde 26.
Este cosmógrafo de Blanes tem um lugar destacado no processo de Tordesilhas, porque apresentou uma solução prática para calcular, no mar, a posição do meridiano divisório. É certo que o próprio Tratado indicava que esta linha devia ser estabelecida por «rumos de vento» e «graus do sol e do norte» 27 o que, para Luís de Albuquerque, significa o recurso ao Regimento das léguas e à latitude pela determinação das alturas daqueles astros 28
Todavia, coube a Ferrer o mérito de ter apresentado aos Reis Católicos uma proposta para se chegar à posição do meridiano de partilha.
Para o efeito, o cosmógrafo aconselhava que se largasse das ilhas de Cabo Verde, que se situam na latitude de 15ºN, navegando para poente, ao rumo oeste 1/4 noroeste, isto é, 281º 15´, até se atingir a latitude de 18º 1/3. Ao chegar a este ponto, o navio faria rumo Sul e ao atingir a latitude de Cabo Verde, estaria numa posição distanciada 370 léguas daquele arquipélago. Ferrer diz ainda que aqueles 3º 1/3 correspondem a 74 léguas à razão de vinte por cento 29.
Esta solução nunca foi posta em prática porque, seria extremamente difícil, ou melhor, seria impossível fazer com que o navio seguisse o caminho correcto com o rigor exigido, dado que quando se navega à vela, é-se obrigado a fazer bordos, quando o vento não sopra dos sectores da popa, fugindo-se constantemente ao rumo base. Além disso, há factores que não era possível corrigir, como por exemplo o abatimento do navio devido ao vento e à corrente. Aliás, mesmo na época, havia consciência que «esta maneira é muito dificultosa pela impossibilidade que há de caminhar o navio em linha recta», como afirmou Fernando Colombo na Junta de Badajoz-Elvas que teve lugar em 1524 30.
E existia ainda um outro factor que tornava as coisas mais complicadas quando se pretendia seguir o rumo certo. E isto porque, já o dissemos atrás, o piloto da época, ao navegar pela informação que lhe dava a agulha de marear, estava a utilizar o rumo magnético e não aquele que ele pretendia, cometendo um erro correspondente à declinação magnética ou variação da área onde navegava, circunstância que tornava completamente impraticável o método proposto por Jaime Ferrer.
Aliás, mesmo que fosse possível definir com rigor a posição, a 370 léguas de Cabo Verde, onde deveria passar o meridiano de Tordesilhas, este só poderia ser uma «linha direita de pólo a pólo» (como o Tratado estabelecia) sobre a superfície da Terra mas não nas cartas náuticas ou geográficas onde essa linha devia ser marcada. Efectivamente – e repetimos o que já atrás dissemos – nas cartas ditas quadradas, usadas na época, a sua projecção, apesar de não ser bem definida, aproximava-se, como vimos, da usada por Flamsteed, onde o único meridiano «direito» é o de referência. Deste modo, a linha divisória seria sempre uma curva.
E é por esta mesma razão que os mestres cartógrafos portugueses têm sido acusados de desenhar, dolosamente, alguns territórios para oriente da linha divisória, quando, hoje sabemos, que se encontram em posição errada. Parece-nos que a acusação é injusta, pelo menos em grande parte dos casos, pois resulta de não ter sido utilizado o tronco particular das léguas adequado à latitude em que, nas cartas, os territórios foram colocados.

PORQUÊ  370 LÉGUAS?

Tem-se procurado conjecturar o motivo que determinou a escolha da distância de 370 léguas, para separar o meridiano de partilha das ilhas de Cabo Verde. Já aventámos razões que poderiam ter estado na mente dos soberanos das duas nações vizinhas. Todavia, alguns historiadores 31 admitem que a posição da linha divisória tenha tido como finalidade, dividir em partes iguais, o espaço que medeia o arquipélago de Cabo Verde à mais próxima ilha descoberta por Colombo na sua primeira viagem.
Para esta hipótese ter viabilidade, torna-se necessário que a distância entre a ponta oeste da ilha de Santo Antão (admitindo que a contagem se faria a partir do extremo ocidental do arquipélago de Cabo Verde, o que não é pacífico) e a costa leste da ilha La Española, a actual Haiti, seja igual a 2 x 370 léguas.
Efectivamente, a diferença de longitude entre os dois pontos acima assinalados é 43º 13´ (25º 22´W para o limite ocidental de Santo Antão e 68º 35´W para a costa do lado nascente da Espanhola) e portanto as 370 léguas corresponderiam a metade daquela diferença de longitude. Isto conduz a 17.12 léguas para o comprimento do grau, valor muito próximo dos usados na época que eram, como sabemos, 16 2/3 e 17 1/2 32.
Julgamos que esta justificação para a distância das 370 não passa de uma simples coincidência. De facto, estamos a arquitectar um esquema com base numa longitude rigorosa da ponta leste da ilha La Española, quando, na época, os elementos disponíveis eram apenas os estimados por Colombo durante a sua primeira viagem. Jaime Cortesão, que estamos a seguir, para justificar esta coincidência, utiliza o valor do grau de 18 léguas, conforme Duarte Pacheco Pereira preconiza, reduzindo-o para o paralelo de 17º 4´ N, onde a contagem das 370 léguas era feita, obtendo o valor de 17,21 léguas, praticamente igual ao módulo 17,12 acima mencionado. Todavia, este ilustre historiador, como nós, põe sérias reservas a esta tentativa de justificar a escolha do segmento de 370 léguas para separar o meridiano de partilha do arquipélago de Cabo Verde.
Portanto, parece-nos que as 370 léguas, inventadas em Tordesilhas, vão continuar sem uma justificação plausível.

A JUNTA BADAJOZ-ELVAS

O Tratado de Tordesilhas volta a ser notícia, quando se começa a disputar a posse das famosas ilhas das especiarias. Tudo começa quando Afonso de Albuquerque, após a conquista de Malaca em 1511, manda António Abreu, com duas naus e uma caravela, alcançar a ilha de Banda. Dois anos mais tarde, Francisco Serrão chega a Ternate, onde é bem recebido pelo soberano local. Serrão envia cartas não só ao rei D. Manuel e a Albuquerque, dando-lhes notícias da importância económica do arquipélago das Molucas, mas também ao seu amigo Fernão de Magalhães (que alguns anos atrás, em Malaca, tinha salvo a vida de Serrão, quando este foi apanhado numa cilada) dizendo-lhe que, na sua opinião, as Molucas estavam no hemisfério que, pelo Tratado de Tordesilhas, fora atribuído à Espanha.
Magalhães, desgostoso com a corte portuguesa, oferece os seus serviços a Carlos V, propondo-se alcançar as Molucas por ocidente, afirmando, por convicção ou por interesse, que as ilhas são pertença de Espanha.
Aceitando o argumento de Magalhães, Carlos V confia-lhe uma armada de cinco navios que largam de São Lucas de Barrameda a 20 de Setembro de 1519.
D. Manuel tem conhecimento desta viagem e delibera enviar uma frota, comandada por Jorge de Brito, com a finalidade de construir uma fortaleza no local mais adequado e apresar os navios de Magalhães. Esta frota demora-se na Índia e em Malaca e, quando chega às Molucas em Fevereiro de 1522, sob o comando de António de Brito, irmão de Jorge, já falecido, sabe que tinham estado em Tidore, uma outra pequena ilha próxima de Ternate, duas naus, as que restavam da armada de Magalhães que, por uma vez, tinha sido morto, num pequeno ilhéu das Filipinas, quando mais de um milhar de indígenas se opuseram a uma cinquentena de espanhóis. E, que dessas naus, uma delas, a Victória, sob o comando de Juan Sebastian de Elcano, tinha seguido pela rota de oriente. A outra, que arribara a Ternate por fazer muita água, tinha sido destruída por António de Brito e os seus tripulantes feitos prisioneiros. Foi esta a altura em que os Portugueses iniciaram a construção de uma fortaleza em Ternate.
Em face desta situação juntamente com outras notícias que mostravam claramente as intenções de Castela a respeito dos territórios no Oriente, o Tratado de Tordesilhas ganha nova dimensão. Agora, já não se limita à linha que divide as águas do Atlântico. O semi-meridiano, terá de ser prolongado pelos antípodas para se definir a quem pertence esse apetecido arquipélago das especiarias.
Após contactos prévios, comissários de D.João III e de Carlos V, em Março de 1524, reúnem-se em Badajoz e Elvas, para se voltar a discutir o modo de concretizar o Tratado confirmado em Arévalo.
Não nos vamos deter demoradamente nesta nova fase do processo. Todavia merece a pena referir a reunião de 30 de Maio, na qual os delegados portugueses, reconhecendo a falsidade das cartas e das pomas [globos], propõem quatro modos de «medirem a largura das terras verdadeiramente e se fazer esta demarcação na verdade, as quais são as seguintes: Item a primeira uma terra por distancia de lua com alguma estrela fixa conhecida, e a segunda per tornar per distancias do sol e da lua em seus ocasos e esta mesma em terra que tiver o horizonte sobre a augoa e a terceira pera hum grado sem algum signal do çeo para mar e terra – item a quarta por eclipses lunares» 33.
Destas quatro soluções, as duas primeiras baseiam-se no processo indicado, em 1514, por João Werner 34, que utiliza as distâncias angulares entre a Lua e uma estrela. Todavia para a sua utilização era indispensável a existência de instrumentos rigorosos, o que só veio a acontecer no século XVIII com os chamados instrumentos de dupla reflexão, como octante e o sextante e, também, de tábuas que fornecessem a hora no meridiano de referência, em relação ao ângulo entre a Lua e uma estrela, das várias escolhidas para o efeito. Este foi o método, assaz complexo, que antecedeu a utilização do cronómetro, solução que resolveu de uma maneira prática e eficaz a determinação da longitude no mar.
Se, quanto à terceira solução não se entende como se pode aplicar, no que respeita à última tornava-se necessário dispor de tabelas que indicassem a hora, em que, por exemplo, começavam ou terminavam os eclipses lunares, reportada ao meridiano de referência. Mas mesmo que os pilotos dispusessem de tais efemérides, a raridade do fenómeno tornava o método, praticamente, inexequível. Solução deste tipo, aparece mais tarde, quando no ano de 1609, Galileu constrói a luneta com a qual descobre os satélites de Júpiter, em que as ocultações frequentes permitem a elaboração de tabelas, muito úteis para a determinação da longitude, mas não no mar, onde a carência de uma plataforma estável, tornavam o método impraticável.
Nessa famosa junta de Badajoz-Elvas, Fernando Colombo apresentou, na sessão de 13 de Abril, várias soluções para a determinação do meridiano divisório, algumas já atrás mencionadas como aquela sugerida por Ferrer, caminhando para poente, ao rumo oeste 1/4 noroeste, mostrando-se porém, pouco confiado no seu sucesso como foi atrás referido. Nessa mesma sessão o filho do célebre almirante, afirmou que «La outra forma seria formar un instrumento fluente, el cual en el mas largo y determinado espacio de tiempo que ser pudiesse acabase de correr asinando él sus puntos divisos por sus horas y cuartas é fracciones, y con ele tal instrumento comenzar á caminar desde el lugar dó comienza la praticion al punto de mediodia, y cuando caminasse mas al oriente por cada quincena parte de hora que ele mediodia viniese al caminante antes de haber corrido 24 horas, diremos que habia caminado un grau hácia el oriente ó por el contrario hacia el occidente, …35.
O instrumento fluente viria a ser o cronómetro de bordo, já referido, que podia guardar a hora do meridiano de referência e assim, por diferença de tempo, determinar longitude. Na época, porém, o relógio de bordo era a ampulheta que, devido às suas características, mas especialmente em resultado da sua deficiente operação, não oferecia qualquer rigor.
Desta junta de Badajoz-Elvas nada resultou de positivo e por isso, a questão das Molucas acaba por ser resolvida de um modo insólito, em que Portugal, por escritura outorgada em Saragoça, no dia 22 de Abril de 1529, adquire ao rei de Espanha, por 300 000 ducados um arquipélago que, mais tarde, veio a confirmar-se, que lhe pertencia.
Não é possível referir a história pormenorizada do Tratado de Tordesilhas. Apresentamos os factos mais significativos, relacionados com a sua aplicação técnica, mas depois de mais de um século de aparente calma, a controvérsia volta a renascer após a fundação, pelos portugueses da colónia de Sacramento, na margem esquerda do rio da Prata, no ano de 1680.
Sitiada e ocupada pelos espanhóis, estes acabaram por devolver aquele território pelo tratado de 7 de Maio de 1681. Todavia, a questão da propriedade ficaria para resolver em conferência posterior, que veio a ter lugar durante os anos de 1681 e 1682, em Badajoz e Elvas, onde em 1524 se tinha discutido em vão o problema das Molucas.
É evidente que continuava em causa a correcta definição do meridiano de partilha, constatando-se, mais uma vez, por carência de recursos técnicos, que não foi possível o entendimento entre as partes.
No dia 13 de Janeiro de 1750 é assinado, entre Portugueses e Espanhóis, o Tratado de Madrid em que se declara abolida a linha de partilha que, afinal nunca tinha sido definida. Tordesilhas foi, assim, um tratado impossível. Todavia, a sua não concretização foi, sem qualquer dúvida, o factor mais importante que permitiu o extraordinário crescimento para ocidente dessa grande nação que é o Brasil.

NOTAS 

1«Assim, insisto em que o primeiro convénio de Tordesilhas primeiro, para não confundir com o chamado das pescas só foi para o Príncipe Perfeito uma vitória na medida em que lhe deixava campo de manobra marítima no Atlântico», Luís de Albuquerque, Os Descobrimentos Portugueses, Lisboa, 1985, pág. 117.
Tratado de Tordesilhas e Outros Documentos, Lisboa, 1989, pág. 70.
Idem, pág. 70.
Já há alguns anos atrás, Ramon Ezquerra dizia «Siempre han considerado los historiadores portugueses un gran triunfo propio la modificación introducida en la línea de partición; pero, dada la incertidumbre de lo descubierto por Colon, suponiendo que eran aquellos países las soñadas Indias y que habia llegado a las cercanias del Catay, el traslado occidental de la Línea suponia asegurar a los Reys Católicos más extension hacia el Oeste …». Las Juntas de Toro y de Burgos, in El Tratado de Tordesilhas y su projección, Valladolid, 1973, tomo i, pág. 154.
Tratado de Tordesilhas e Outros Documentos, Lisboa, 1989, pág. 46.
Idem, pág. 68.
Idem, págs. 69-70.
Idem, pág. 70.
9 Albuquerque, Luís de, Curso de História da Náutica, Rio de Janeiro, 1971, pág. 9.
10 Actualmente, utiliza-se o termo variação para designar o somatório da declinação com o desvio da agulha. Este, devido à influência magnética produzida no navio, só passou a ter expressão a partir do século xix quando os navios começaram a ser construídos em ferro.
11 A barquinha foi descrita pela primeira vez por William Bourne em 1577 mas só aparece num livro náutico português em 1755, quando Francisco Xavier do Rego publicou o Tratado Completo de Navegação.
12 O Regimento das léguas, permite resolver o triângulo da estima.
O leitor interessado em desenvolver este assunto, deverá consultar A Marinharia dos Descobrimentos, de Fontoura da Costa, Lisboa, 1983, 4.ª ed., pág. 363 e seguintes.
13 António Barbosa, Novos subsídios para a história da ciência náutica portuguesa da época dos descobrimentos, Porto, 1948.
14 In El Tratado de Tordesilhas y su projección, Valladolid, 1973, tomo i, págs. 137 e segs.
15 Edição anotada por João Andrade Corvo, Lisboa, 1882, pág. 241.
16 Livros das Monções, Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1880, vol. i, págs. 216-17.
17 Vallicrosa, José M.ª Millás, Estudios sobre história de la ciência española, Barcelona, 1949, pág. 469.

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