quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

"grande viagem de Bartolomeu Dias e João Infante "


África planisfério dito Cantino 1502
Por: Eric Exelson

Logo que os sobreviventes da expedição de Diogo Cão chegaram a Portugal, o rei mandou Bartolomeu Dias continuar o empreendimento.
Dias, deixou o Tejo a 05 de Agosto de 1487, com duas caravelas e uma naveta de mantimentos.
A pequena frota fez escala em São Jorge da Mina e depois seguiu a costa reconhecida e traçada pela guarnição de Diogo Cão.

caravela Boa Esperança
Lançando ferro numa baía abrigada, "Angra das Aldeias", Porto Alexandre, Tombua, Angola, Dias, transferiu mantimentos para as caravelas e seguiu para o Sul, deixando 9 nove homens na naveta, bem como os indígenas levados para Portugal  pela guarnição de Diogo Cão.
Para além do último padrão erguido por Diogo Cão e para lá da Serra Parda, as caravelas navegaram com terra à vista.

O próximo nome que aparece no mapa anónimo português de 1502, dito de Cantino, é a "Terra de Santa Bárbara", que se presume ter sido baptizado no dia 4 de Dezembro de 1487.
A seguir vêm os nomes de Praia das Pedras, o Monte da Praia e o Ponto de Ug, que talvez queira significar Ag, dado que se celebrava o dia de Santo Agatão a 7 de Dezembro.
A Praia das Verdes foi provavelmente situada na foz do Rio Swakops.
É impossível localizar a Praia das Aves, a Praia das Malhas e a Enseada Branca, mas o Golfo de Santa Maria da Conceição, baptizada a 8 de Dezembro, é provavelmente o Walvis Bay de hoje.
Dias, deu nomes à Ponta do Salrão, à Terra da Roca e, no dia 21 de Dezembro, ao Golfo São Tomé, que hoje pode ser Spencer Bay.
Devido ao vento e à corrente do Sul, que são normais, naquela época do ano, a viagem tornou-se muito lenta.
Dias baptizou a Coleta dos Três Irmãos e o Golfo de Santa Vitória, provavelmente o Hotentot Bay de hoje, enquanto uma ilha, perto da costa indicada no mapa, é a ilha de Ichabo.
O historiador quinhentista João de Barros, afirmou que na Angra dos Ilhéus, Dias deixou em terra uma negra.
Adiantou que eram quatro as negras da Guiné que tinham seguido com a expedição, para serem deixadas em terra, bem vestidas e com instruções para cantar os louvores de El - Rei D. João II, dar a entender que esse rei estava à procura do caminho para a Índia e esperava entrar em contacto com o Prestes João.
Cada uma levava amostras de ouro, prata e de especiarias e tinha de perguntar aos indígenas se havia tais produtos nas redondezas.
Dias, deixou a segunda negra na Angra das Voltas.
Angra das Voltas -Namíbia
Segundo Barros, esta Angra recebeu este nome por causa do número de vezes que os barcos foram obrigados a bolinar.
É provável que soprasse um forte vento do Sul e que tivesse dificuldade em bolinar para entrar na baía, mas uma vez lá dentro, ficou cinco dias à espera que o vento abrandasse.
Dias e os seus homens não viram a foz do Rio Orange – supõe-se que as chuvas estivais ainda não tivessem começado. – mas, um proeminente alcantil a oito quilómetros a Sul daquele rio, ainda hoje ostenta o nome de Voltas, provavelmente uma reminiscência da Volta das Angras que aparece no mapa de Martellus.
O Morro da Pedra das cartas primitivas é provavelmente a colina de Roodewall, a Sul da Baía de Hondeklip, e a Lombada da Pena pode ser a Kamiesberg.
O Rio Infante, que se supõe ter sido baptizado assim por, ou em honra de João Infante, capitão da segunda caravela “Pantaleão”, era a foz do Rio Olifant.
A Serra dos Reis, assim baptizada no dia 6 de Janeiro de 1488, era provavelmente a montanha de Matsikama.

cidade do Cabo, África do Sul
Dias, afastou-se da costa depois de passar a Serra dos Reis.
Segundo Barros, os barcos navegaram durante treze dias, com ventos em popa e com apenas metade das velas içadas, através de mares frios e tempestuosos

Mas, em pleno Verão, uma nortada deste tipo é impossível naqueles mares.
Parece claro que Dias, cansado de bolinar em face dos ventos do Sul, afastou-se deliberadamente da costa e, chegando aos “ roaring forties” (ventos rugidores, na latitude 40º Sul, apanhou uma tempestade de Oeste.
Os pilotos navegaram então para Leste e não encontraram terra.
Sem saber, tinham dobrado a África.
Mudaram a trajectória para Norte e deram com terra na foz dum rio, em cujas margens se encontravam manadas de gado guardadas por “Vaqueiros”. 


Árvore do correio em Mossel Bay
Não encontrando sítio para desembarcar, os navegadores continuaram para Leste e, depois de passar uma escarpa, entraram numa baía que, sendo 3 de Fevereiro de 1488, Dias baptizou Baía de São Brás.
Árvore do correio em Mossel Bay
Mais tarde os Holandeses deram-lhe o nome de Mossel Bay, Baía dos Mexilhões.
Os Portugueses desembarcaram e abasteceram-se de água fresca.
Viram vários indígenas, que no século dezassete se conheceram pelo nome de hotentotes.
Não há qualquer descrição deste povo feito por Dias, mas um membro da expedição de Vasco da Gama, que lançou ferro na baía dez anos mais tarde, descreveu os homens como morenos, vestidos com mantos de peles, com braceletes de marfim e levando na mão um enxota-moscas.
Tocavam instrumentos musicais de sopro e possuíam rebanhos de ovelhas com grandes rabos, bem como manadas de gado.


aguada em Mossel Bay
Os bois, os maiores dos quais levavam selas feitas de junco, eram grandes, gordos e muito mansos, o que faz lembrar aos Portugueses os bois do Alentejo.
Mas, Dias não conseguiu aproximar-se deste povo, que recusou os presentes que lhes ofereceu.

monumento em Mossel Bay em homenagem a Bartolomeu Dias
Um dia, os indígenas apedrejaram alguns marinheiros que tinham ido buscar água; Dias, pegou numa besta e matou um dos atacantes.
A costa, uma alta e recortada serra que os hotentotes chamavam Tsitsikama, fez lembrar aos Portugueses a serra mais alta de Portugal e deram-lhe o nome de Serra da Estrela.

cabo Boa Esperança
À outra ponta deram o nome de Pescaria, devido à grande quantidade de peixe que apanharam; é provavelmente Gericke Point de hoje.
Os vigias viram Laço Çarrado, que seria um dos Wilderness Lakes ou Knysna.
O penhasco, Cabo Talhado dos velhos mapas, ficou com o nome de Cape Seal.
À baía além deste Cabo, Plettenberg Bay de hoje, Dias deu o nome de Baía das Alagoas.
Os incêndios que lavravam na altura levaram Dias a chamar ao actual Cape Stº. Francis a Ponta das Queimadas.
À baía a Leste chamaram o Golfo dos Vaqueiros ou Pastores.
Dias, deu o nome de Cabo de Roca ao actual Cape Recife.
A baía a seguir recebeu o nome de Baía da Lagoa, que alguns séculos mais tarde ficou conhecida como Algoa Bay.
As caravelas lançaram ferro a sotavento de três ilhéus, onde ergueram uma cruz de madeira e celebraram missa. Chamaram-lhe Ilhéu da Cruz.
Outros marinheiros desembarcaram em terra, onde deixaram a última negra (uma já tinha morrido), perto de duas mulheres que recolhiam mariscos.

monumento de Bartolomeu Dias em Mossel Bay
Foi ali, segundo Barros, que as tripulações exigiram que a expedição voltasse a Portugal, pois escasseavam os mantimentos, os homens sofriam de falta de vitaminas e estavam cansados, fartos de bolinar contra ventos desfavoráveis

Penedo das Fontes,  Kwaaihoek
Dias convocou uma reunião em que os capitães, contramestres, pilotos e imediatos argumentaram que a expedição devia regressar.
Dias, convenceu-os a continuar durante mais dois ou três dias.
Continuando a viagem, as caravelas navegaram entre a costa e o que os marinheiros chamaram os Ilhéus Chãos, agora conhecidos como Bird Islands, e alcançaram a foz dum rio, provavelmente  o Heiskama, onde João Infante foi o primeiro a desembarcar.
Provavelmente devido à falta de pontos altos, decidiram não erguer um marco naquele sítio.


padrão  S. Gregório original, reconstruído
Ergueram então um no primeiro sítio apropriado, perto do que os Portugueses chamaram Penedo das Fontes, hoje Kwaaihoek, que se situa a sete quilómetros de Bashman’ s River.

réplica  padrão São Gregório, Kwaaihoek, África do Sul
Como o padrão foi dedicado a São Gregório, supõe-se que foi erguido a 12 de Março de 1488.
Iniciou-se então a viagem de regresso.
As caravelas voltaram à Baía de São Brás, onde os Portugueses esperavam abastecer-se de água potável, lenha e carne. Teriam navegado perto da costa a partir do Rio dos Vaqueiros.
Deram o nome do incansável João Infante ao cabo que hoje é conhecido como Cape Infanta, o que significa que as caravelas ancoraram perto da foz do actual “River Bree”, que Dias, baptizou de Nazaré.
Esta baía tem o nome de Golfo de Coberti no mapa “Cantino”, coberto significando abrigado.
Pode ser que a tivessem chamado assim devido ao facto de ter dado abrigo contra os ventos de Noroeste, que podiam ter começado a soprar mais cedo naquele ano.

Lançaram ferro numa baía que é indicada no mapa Cantino como o Golfo das Agulhas, a actual “Struis Bay”, que fica a cinco quilómetros do Cabo Agulhas. Aqui, os pilotos descobriram que não existia qualquer variação magnética.
Ao Cabo Agulhas, Dias deu o nome de Cabo de São Brandão.

cabo das Agulhas , África do Sul
O dia deste santo celebra-se a 16 de Maio e parece estranho que a viagem do regresso fosse tão morosa.
É possível que as caravelas ficassem retidas bastante tempo, ou no Golfo Coberto, ou no Golfo das Agulhas, a fim de serem reparadas dos estragos provocados pelas tempestades.
Aparentemente, Dias não se apercebeu que o Cabo de São Brandão era o ponto mais meridional da África, pois o mapa de Martellus e outros mapas primitivos, indicam o Cabo da Boa Esperança como tal ponto.
A actual False Bay recebeu o bem elucidativo nome do Golfo dentro das Serras, enquanto Dias chamou Cabo da Boa Esperança ao promontório que ficava a Oeste desta baía.

cabo  Boa Esperança

Como o Cabo da Boa Esperança era muito proeminente e Dias estava convencido de que era o ponto mais meridional do continente africano, obviamente teria tentado erguer lá um padrão.
Se Dias assim fez é provável que fosse dedicado a São Filipe, mas nunca foi encontrado no Cabo qualquer vestígio dum padrão.
O dia de São Filipe é a 6 de Junho, donde se conclui que, ou navegaram contra ventos desfavoráveis, ou foram forçados a abrigar-se das tempestades, ou houve um infortúnio qualquer.
Nos mapas primitivos, o primeiro ponto a Norte do Cabo da Boa Esperança é o escarpado Porto Fragoso, mais tarde chamado Hout Bay.
Com ventos em popa, Dias passou Table Bay sem a ver e, durante a noite, passou também a entrada da baía que os Holandeses viriam a chamar Saldanha e a ponta ocidental da Baía de Santa Helena.
Depois teve de navegar contra ventos de Noroeste e parece que foi só no dia 24 de Julho de 1488, dado que a chamou “Golfo de São Gregório”, que chegou à baía que hoje tem o nome de Luderitz.

réplica padrão São Tiago Zebedeu - baía de Luderitz

Angra Pequena ou Angra de São Cristóvão, situa-se na costa da Namíbia, na actual cidade de Lüderitz. O primeiro Europeu a chegar a estas paragens foi Bartolomeu Dias, no dia 24 de Julho de 1488, no regresso da descoberta do Cabo da Boa Esperança.

O navegador colocou ali um padrão, que resistiu até ao início do séc. XIX quando, já em pedaços, foi levado para museus da África do Sul e de Portugal. Até ao início do séc. XX, em quase todos os mapas, o local foi chamado de Angra Pequena. Em 1988, no 500º aniversário da viagem de Dias, o Governo da Namíbia construiu uma réplica do padrão no local onde o original tinha sido colocado.
Continuando a viagem de regresso, escalou a  "Angra das Aldeias",Tombua, Porto Alexandre, Angola onde deixara a naveta de mantimentos, havia nove meses.

Dos nove homens que tinham deixado na naveta, só três ainda estavam vivos e um deles morreu ao ver os seus companheiros de novo.
O resto dos mantimentos foram transferidos para as caravelas e a naveta foi queimada.
Dias fez escala na foz do rio Zaire ou Congo, onde embarcou embaixadores do rei do Congo para Portugal, tendo seguido depois para a ilha do Príncipe, onde recolheu Pacheco Pereira, cujas explorações à volta do golfo do Biafra tinham terminado devido a doença e naufrágio.
As caravelas chegaram bem a Portugal a 16 de Dezembro de 1488.
Dias, não encontrou o Prestes João, nem chegou ao Oriente, mas abriu o caminho.
A costa desde as Ilhas Chãos até ao Rio Infante estende-se indubitavelmente para Nordeste e a água do mar, que era muito mais quente do que aquela perto dos cabos mais a Oeste, só podia vir das latitudes tropicais.
Sem dúvida, tinha dobrado a África e aberto o caminho marítimo para a Índia.
Estava desfeito o mito do "mar que fervia" na região equatorial, desenhado o Golfo da Guiné e, muito mais importante, confirmada a passagem entre o Atlântico e o Índico. Com o périplo da África garantido pela viagem de Bartolomeu Dias em 1487-88, os portugueses estabeleciam o acesso, pelo Atlântico, às fontes das especiarias. 

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