terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

" os padrões de Bartolomeu Dias "



O Prof. Eric Exelson, catedrático jubilado da Universidade de Cape Town, África do Sul, começou as suas pesquisas na história da presença portuguesa no sudeste africano em 1936, tendo desde então permanecido por vários anos na Europa investigando os mais importantes arquivos documentais e bibliotecas em Portugal, Grã-Bretanha, França e no Vaticano.
Em 1938 dirigiu as escavações que permitiram a descoberta, recuperação e reconstrução do padrão de S. Gregório, erigido por Bartolomeu Dias em 1488, no Ilhéu da Fonte (hoje Kwaaihock – África do Sul)

A seguir se transcreve o texto da sua autoria.



Pormenor do padrão S. Gregório de Bartolomeu Dias, recuperado por Eric Axelson em 1938 e reconstruído com base nos mais de cinco mil fragmentos encontrados no local. (Original na Universidade de Witwatersrand).Existe uma réplica na Sociedade Geografia de Lisboa.

A descoberta do Padrão de São Gregório, de Bartolomeu Dias, em 1938

“ Foi Diogo Cão quem iniciou a prática de erguer padrões, cortados em pedra calcária portuguesa e gravados em Lisboa, com inscrições que proclamavam, com orgulho, que os Portugueses eram os primeiros a terem chegado aos novos mares.
Havia relatos contraditórios sobre o sítio onde o sucessor de Diogo Cão, Bartolomeu Dias, tinha erguido o seu padrão mais distante. A maioria estava de acordo que tinha sido numa ilha, e que uma ilha na Baía de Algoa tinha recebido o nome de Santa Cruz.
Mas uma descrição muito pormenorizada da costa, escrita pelo piloto português João de Lisboa em 1514, esclareceu que o padrão estava numa ilha que só parecia uma ilha quando vista dum barco no mar, porque de facto estava ligada à terra por dunas de areia muito baixas.
Esta ilha falsa ficava a cinco léguas para além da Baía de Algoa.


Kwaaihoek, [falsa ilha], -foto de Chantelle de Clercq, do Google Earth
Medidas numa carta moderna, cinco léguas calhavam mesmo num promontório chamado False Island, ou Kwaaihoek, como é conhecido hoje.
A descrição deste promontório na moderna AFRICA PILOT é quase idêntica, palavra por palavra, àquela de 1514.
Parecia assim que para se encontrar o padrão bastaria ir até lá.
Em 1938, pouco antes da segunda guerra, fui até Kwaaihoek. A colina com cerca de 30 metros de altura era o sítio certo, mas do padrão não havia sinal.
Mais tarde, o meu irmão Charles ajudou-me a procurar o padrão.
A superfície de Kwaaihoek era de areia com arbustos baixos. Perfurámos a areia com uma vara de aço, que num sítio bateu em qualquer objecto soterrado na areia.
Começamos a cavar e desenterrámos vários pedregulhos que, conforme o tamanho, podiam ter servido como suporte para um padrão. Depois descobrimos um bloco de pedra que era totalmente diferente da rocha local: era dura e cristalina, como mármore, e tinha duas faces tão suaves e paralelas que parecia que tinham sido cortadas artificialmente.
Uma das pedras, colocada à beira da escavação, rolou encosta abaixo para o mar, atraindo assim a nossa atenção para a base do penedo.


Kwaaihoek, [falsa ilha], -fotografia de Chantelle de Clercq, do Google Earth
Felizmente era uma lua cheia e as marés estavam muito baixas. Num poço, com 60 cm de água, havia um bloco de qualquer coisa coberto de ostras e mexilhões.
Tirámos os mariscos e partimos um pedaço dum canto: era da mesma qualidade da pedra que tínhamos encontrado no cimo da colina e com a mesma largura.
Desenterrámo-la o mais rapidamente possível e transportámo-la para um lugar fora do alcance do mar.
No dia seguinte, um fazendeiro de cor transportou-a através das dunas, num trenó puxado por um burro.
Tínhamos a certeza que estes fragmentos eram do padrão, mas não tínhamos provas.
O professor Leo Fouché, que em 1936 sugerira que eu estudasse a história de Portugal e procurasse, também, o padrão, convenceu a Universidade de Witwatersrand a financiar uma pesquisa científica.
Passei cinco semanas em Kwaaihoek, com uma equipa de trabalhadores.
Construímos um dique à volta da base do penedo e encontrámos mais fragmentos grandes. No topo da colina cavámos até à base da rocha, cerca de 6 metros, e peneiramos à volta de 20 toneladas de areia.
 


réplica do padrão dedicado a São Gregório em Kwaaihoek [ falsa ilha] – Africa do Sul

foto de Flintstone do Google Earth  [ 33º 43’ 06,29’’ latitude Sul e 26º 37’ 25,91’’ longitude Este]
Encontramos um grande número de lascas e pedaços de pedra calcária, num total de cinco mil.
Alguns ostentavam sinais de inscrições em letras daquele tempo e os geólogos confirmaram que os fósseis encontrados eram iguais aos encontrados na pedra calcária portuguesa.
O professor Riet Lowe e o Professor Fouché reconstruíram o padrão com os fragmentos encontrados e a Comissão dos Monumentos Históricos entregou-o à Universidade de Witwatersrand, onde ainda hoje (1988) se encontra.

O PADRÃO DE LUDERITZ BAY, dedicado a S. Tiago Zebedeu

Por: Eric Exelson

Do padrão que Bartolomeu Dias ergueu no Cabo de Boa Esperança, no dia 06 de Junho de 1488 dedicado a S. Filipe, não há quaisquer vestígios. O Padrão de Luderitz ainda estava de pé no fim do século 18, mas caiu pouco depois.
Há cem anos, alguns apanhadores de guano levaram quatro fragmentos para a cidade do Cabo. Dois deles foram oferecidos a Portugal e Sir George Grey o então governador Inglês, levou um para a Nova Zelândia, onde desapareceu. O quarto encontra-se no Museu da Cultura da África do Sul, no Cabo.
Havendo dúvidas sobre o sítio certo onde tinham sido encontrados os fragmentos, a Comissão dos Monumentos Históricos de Sudoeste da África, por iniciativa do presidente, Dr. Lemmer, convidou-me a ir a Luderitz.
O Dr. Lemmer levou-nos a Dias Point um outeiro baixo de rocha preta que se projectava no mar e que podia claramente ser um sítio ideal para um padrão.
No topo do outeiro encontrava-se um edifício ameado, construído por um alemão sentimental.
Descendo até às rochas em baixo, apanhei um pedaço da já nossa conhecida pedra calcária, semelhante à de Kwaaihoek com a mesma largura.
No dia seguinte, encontramos um bloco grande ostentando sinais de inscrição.
A minha mulher encontrou mais fragmentos.
Andamos dentro da água, cortámos algas e fizemos buscas nos poços.
Peneirámos areia no topo do outeiro e em baixo, ao pé do mar.
Encontrámos uns 50 quilos de pedra calcária e umas duzentas lascas.
Em 1987 o Museu Estatal de Windhoek (Namíbia) iniciou a reconstrução deste padrão.
Os restos destes padrões de Diogo Cão e de Bartolomeu Dias são os mais antigos monumentos históricos sul africanos e lembram a grandeza daqueles navegadores portugueses e a dívida que temos para com eles, por terem descoberto a África do Sul, além do facto de que foram os Portugueses que trouxeram a civilização, a cristandade e a cultura europeia à África austral.

 réplica do padrão dedicado a S. Tiago de Zebedeu [25 de Julho de 1488] latitude 26º 38'43'' Sul e longitude 15º 05' 70'' Este em Dias Point,  Luderitz , Namíbia -foto de S. Vaz do Google Earth

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