sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

" 1ª viagem de exploração marítima da guarnição de Diogo Cão"




caravela Bartolomeu Dias
Os factos:

Os mais destacados navegadores portugueses ao serviço da coroa portuguesa nos finais do séc. XV [1470 – 1500]: João Vaz Corte Real, seus filhos Gaspar e Miguel, Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral 
Bartolomeu Dias, deixou o rio Tejo a 05 de Agosto de 1487, com duas caravelas e uma naveta.
A pequena frota constituída por duas caravelas e uma naveta de mantimentos, fez escala em São Jorge da Mina. Seguiu a costa ocidental africana reconhecida e traçada pela guarnição de Diogo Cão.
Dias não encontrou o Prestes João, nem chegou ao Oriente, mas abriu o caminho marítimo para a Índia.
A costa marítima que é hoje a África do Sul, desde as Ilhas Chãos até ao Rio do Infante estendia-se indubitavelmente para Nordeste e a água do mar, que é muito mais quente do que aquela perto dos cabos mais a Oeste, só podia vir das latitudes tropicais. Sem dúvida, tinha dobrado a África e aberto o caminho marítimo para a Índia.
A célebre viagem do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, realizada em [1497-1499], por uma armada de quatro navios comandada por Vasco da Gama, largou do rio Tejo a 08 de Julho de 1497.
A largada da frota Pedro Álvares Cabral, constituída por 13 navios com destino a Índia., foi a 9 de Março de 1500. A antecipação da viagem para a estação  primaveril, resultou das recomendações de Vasco da Gama, única excepção conhecida na altura.
Foi para evitar a época das monções do oceano Índico, pois atrasavam a navegação. Tempo de espera, em Sofala, ou na ilha de Moçambique, até que as guarnições topassem ventos de feição.
Nas duas viagens efectuadas para Sul do Equador (1482) e (1485), ao longo da costa ocidental de África ainda desconhecida , para lá da latitude 2º Sul, as guarnições de Diogo Cão, largaram do rio Tejo em plena estação estival, Ao sulcar as águas do oceano Atlântico a Sul do Equador, era necessário encontrar  tempo bonançoso e ventos de feição, factores determinantes para o bom sucesso do empreendimento..
Já se ouviu falar de Diogo Cão, aquele duro capitão da caravela que tão desagradável se tornou ao pobre Eustache de la Fosse, quando o turnesino andava a cruzar em frente à costa do golfo da Guiné.
Veio dos montes selváticos de Trás-os-Montes, no Norte de Portugal.
Filho de uma família de guerreiros enérgicos foi educado como escudeiro na corte do reino. O  seu avô e o seu pai, distinguiram-se nos reinados de D. João I e D. Afonso V.
D. João II nomeou o navegador Diogo Cão, um homem à sua feição, para comandar uma expedição marítima, com o objectivo claro  de navegar o mais possível  pela costa ocidental africana até atingir  o cabo mais meridional e entrar no oceano Índico.
A expedição partiu – ignora-se a data precisa, antes dos finais do mês de Agosto de 1482.
O caminho marítimo foi traçado até S.Jorge da Mina, Gana, onde Diogo de Azambuja comandava a construção de uma fortaleza, uma espécie de feitoria, para comercializar produtos locais e servir de base para futuras explorações.
S. Jorge da Mina era um porto com utilidade, ali os navios podiam fazer aguada. A guarnição  forneceu-se, sem dúvida, de tudo o quanto pode, antes de seguir viagem, ao longo da vasta curva do golfo da Guiné.
Seguindo para Leste e para Sul, atravessou o Equador.
Escalou a Ilha de S. Tomé e a ilha de Ano Bom.
Seguiu  o rumo do cabo de Santa Catarina, à latitude 2º Sul, último ponto da costa ocidental africana descoberto e reconhecido no tempo do rei  D. Afonso V,  por Rui Sequeira em 1475.
Bordejando a costa para  Sul e Sudeste, numa extensão aproximada de 350 milhas náuticas entrou num largo estuário dum grande rio, o rio Poderoso, rio Zaire ou Congo.

costa ocidental africana do cabo Stª Catarina à foz do rio Zaire
Fluindo do centro do misterioso continente, corre majestoso, com três léguas de largo na embocadura, misturando as suas águas castanhas com as azuis do oceano até vinte milhas além da foz, descobrimento na verdade, digno de nota.
Os portugueses viram os rios do Senegal e Gâmbia. O pátrio Tejo, nada se assemelhava a tamanha grandeza. Em nada, porém, se podia comparar com este rio.
Perceberam que o rio se chamava "rio Zaire", atravessava um grande império governado por um poderoso rei, conhecido por Manicongo, vivendo com a sua corte no interior a certa distância dali, praça do M'Pinda, pelo menos distante  40 léguas para o interior na margem esquerda do rio Zaire


estuário e península extrema " ponta do padrão" margem esquerda e Sul da foz do rio Zaire
Uma multidão de habitantes de cabelo encarapinhado surgiu correndo das choças cobertas de folhas de palmeira. Juntaram-se na margem do rio, onde é hoje a cidade do Soyo, a olhar espantada para os castelos flutuantes com homens brancos dentro.
Na aparência não diferiam das tribos encontradas pelos portugueses noutros locais da África,  falavam uma língua incompreensível a qualquer dos intérpretes que seguiam na expedição.
Por meio de sinais e pantominas estabeleceu-se a comunicação.
Estabelecida a confiança com o chefe local, residente na praça do M'Pinda, o Manisoyo, e na sua presença, a guarnição, levantou o primeiro padrão de pedra calcária na península extrema e margem esquerda e Sul da foz do rio Zaire, à latitude 6º 5’ Sul, num sítio arenoso, conhecido por "Moita Seca" ou "ponta do Padrão".
Iluminura da colocação do Padrão S. Jorge
O rei de Portugal desejava manter relações de amizade com todos os potentados da África.
Preparou um rico presente de várias coisas para oferecer à majestade negra.
Dois mensageiros cristãos foram à corte  dizer ao Manicongo que o grande rei branco, estava em paz com todo o mundo e desejava a sua amizade.
Utilizando o curso fluvial, os navios  foram até às imediações de Nóqui, 160 Km da foz.
Os emissários, acompanhados por pisteiros cedidos pelo Manisoyo, autoridade da praça de M'Pinda, desembarcaram e desapareceram no mato, penetrando 20 léguas para o interior.
 Itinerário fluvial do rio Zaire, da foz às cataratas de Yellala

Chegaram a uns montes cobertos de florestas, agrupadas no cimo por habitações cobertas de palmeiras, Congo - Ambasse, ou M’Banza Congo, capital e residência do rei Congo.
O rei e suas gentes ficaram contentíssimos com os visitantes. Naturalmente acharam-se meios de comunicação eficazes. O rei e seus vassalos depois de muitas perguntas a fazer e interessados pelas respostas,  mostraram-se contrários a deixar partir os estranhos.
Enquanto estes acontecimentos decorriam, a guarnição velejou contra a corrente a montante de Nóqui, onde o rio se estreita cada vez mais.
município de Nóqui, rio Zaire
Duas milhas depois,se  apercebeu da enorme dificuldade que os esperava. Os navios ficaram impossibilitados de  avançar pela forte corrente fluvial. A guarnição não conseguiu avançar.  Deu meia a volta e retrocedeu para Nóqui. O rio na  altura  corria vertiginoso.
Como os emissários enviados ao rei congolês tardassem o regresso, depois de algum dias de espera, a guarnição fez- se à  vela,  seguindo  o curso do rio até à foz.
Chegado à foz,  zarpou para Sul  à procura da tão desejada  passagem marítima para Oriente.
costa marítima do rio Zaire ao rio Loge 
A 80 milhas náuticas da foz do rio Zaire atingiu o “Cabo Redondo”, 7º 14’ latitude Sul  N’ Zeto, Ambrizete.
costa marítima do cabo farol do Ambrizete, N'Zeto
 
costa e barra das salinas do Ambriz e foz do rio Loge
A 22 de Julho de 1483, chegou à foz do rio Loge, “Rio da Madalena” lat. 7º 48’ 40’’ Sul,  explorando a baía adjacente à actual vila do Ambriz.

costa marítima ocidental africana do rio Loge, Ambriz à ilha do Mussulo
Depois alcançou a embocadura do rio Dande, 8º 28’ lat. Sul, “Rio de Fernão Vaz.
 foz do rio Dande
Feita aguada no rio Bengo 8º 44´52’’ lat. Sul “Angra Grande” atingiu a ilha de Luanda povoada de pescadores, a que chamou ”Ilha das Cabras”.
Ilha do Cabo, Luanda
Atingida a baía da futura Luanda, a ilha do mesmo nome, da Cazanga e Mussulo, separadas estas duas, pela barra da Corimba, a frota seguiu a derrota do Sul.
lha do Mussulo
Afastados da costa, por causa dos ventos e da corrente, navegou ao largo.
A 27 milhas náuticas a Sul da ilha do Mussulo, observou o “Monte Alto" lat. 9º 19’ Sul, relevo adjacente à margem direita do rio Cuanza  não avistando a sua foz.
montes da Lua
Aproximando-se da costa, a 32 milhas náuticas da ilha do Mussulo e 12 milhas náuticas da foz do rio Cuanza, a guarnição  entrou na “Terra das Duas Pontas”, praia do Sangano 9º 33’ lat. Sul.

 praia do Sangano
A vinte léguas da ilha das Cabras, encontrou uma ponta onde os habitantes locais pescavam em canoas a que chamou de “Ponta das Camboas”, Cabo de S. Brás  lat. 9º 58’ 30” Sul.
costa marítima ocidental  africana da foz do rio Bengo à baía de Benguela
A 22 milhas náuticas da Ponta das Camboas, cabo S. Brás, atingiu a foz do,  rio Longa, 10º 14’ latitude Sul onde fez aguada.
baía e  cabo S Brás

 foz do rio Longa
No dia 10 de Agosto de 1483, à latitude 10º 45’ Sul , entrou no “Golfo de S. Lourenço”  Benguela à Velha,  Porto Amboim.
baía de Porto Amboim
À latitude 12º 26' 42'' Sul atingiu o rio Catumbela, a que chamou de " rio do Paul", 10 Km a Sul da cidade do Lobito, onde fez aguada. Na altura as águas do rio corriam limpas, era a estação seca "cacimbo", livres da sujidade, águas lamacentas da época estival!
 foz do rio Catumbela
A 15 de Agosto de 1483 ancorou na “Angra de Stª Maria ”, 12º 35’ 24” latitude Sul,  baía de Benguela, praia Morena, a fim de aparelhar as caravelas e folgar, por ser abrigo e porto seguro.

praia Morena de baía de Benguela
A esta  latitude, deparou-se uma forte corrente marítima fria vinda do Sul, “ a Corrente Fria de Benguela”. 
A 20 de Agosto, zarpou para Sul, reconhecendo o “Canal de Alter Pedroso” l12º 53’ latitude Sul , rio Capololo ou Caporolo.

Sombreiro, Benguela
Foi dado à Ponta Choca, Sombreiro, o nome de Castelo de Alter Pedroso?! Eis a dúvida. A carta geográfica de Soligo revela o nome de um Canal ou o nome duma espécie de Castelo?!
iluminura da colocação do padrão Stº Agostinho
 
 baía do cabo de Stª Maria
À latitude 13º 25' Sul, entrou numa baía abrigada de ventos e correntes, à vista de um ilhéu rochoso (280 mx120m) a meio km de distância da costa e do cabo do Lobo, mapa de Cristóforo Soligo,1485/86 - cabo de Stº Augusti, mapa Henricus Martellus Germanus - 1489 -  ponta Preta, Esmeraldo de situ Orbis, de 1502 - Duarte Pacheco Pereira: cabo Santa Maria, onde a 28 de Agosto 1483, ergueu num local pedroso  a 60 metros de altura o padrão de Stº Agostinho, seguida de celebração de missa.

costa marítima da baía de Benguela à baía de Moçâmedes
A 27 milhas náuticas, 50 Km para Sul do cabo de Stª Maria, entrou numa larga baía conhecida mais tarde por angra de João de Lisboa, “ baía de Lucira Grande”, onde tomou a latitude do lugar (14º) 13º 52’ lat. Sul.
A 5,5 milhas náuticas para Oeste da baía de Lucira Grande, dobrou para Sul  o cabo de Stª Marta, atingindo aPonta Sul das Salinas” designada de “Pontalva”, ou Ponta Branca, 14º 11’ lat. Sul .
Bordejando a costa para Sudeste da Ponta Sul das Salinas,  e Sul da foz do rio Bentiaba reconheceu:
A Ponta Sul do rio Piambo,  baía Mariquita ou Furado.
A Ponta Sul da baía de Baba,
A Ponta da Pedra Gigante da baía das Pipas,
A Ponta do Bambarol da foz do rio Giraul.
À latitude 15º 7' 36'' Sul, sem darem por isso, entrou numa larga baía onde se encontra a  Ponta Redonda do Farol do Giraul, baía de Moçâmedes, Namibe,  que corre para Este e Nordeste de águas profundas!
Um espesso manto de nevoeiro retirou toda a visibilidade da baía e região envolvente, dificultando deste modo a navegação  prosseguir a sua rota.
A guarnição terminou ali a  1ª viagem de exploração marítima!
Animá-los-ia certamente, a vontade de prosseguir e desvendar o mistério da rota Oriental que os levasse até à Índia.
Confrontados com esta situação, voltou para trás, convictos de  ter alcançado  o promontório mais  meridional  de África  da geografia de Ptolomeu, "O Promontorium Prassum"!
Retomado o regresso na direcção do Norte, a navegação  tornou-se mais veloz, alimentada agora pelos ventos alísios que sopram no sentido SE- NW e pela força da Corrente Fria de Benguela.
Chegados ao baixo Soyo em M'Pinda, a guarnição certificou-se que os emissários enviados meses antes, ao potentado do rei do Congo, ainda não tinham voltado, embora a sua ausência durasse muito mais tempo conforme o  combinado.
Como os seus homens demorassem o regresso, resolveu não esperar mais. Não deixou sair quatro homens de categoria que visitavam os  navios. Enviou  recado ao rei congolês a dizer que voltaria mais tarde.
Todos os dias apareciam africanos nos navios a comprar panos e objectos, não foi difícil reter quatro deles.
Além disso, para evitar qualquer injúria aos emissários portugueses, por meio de sinais, o navegador deu a entender que os levava para os mostrar ao seu soberano.
Prometeu passadas 15 luas, trazê-los de volta à sua terra. Entretanto, os seus mensageiros ficariam confiados aos cuidados do rei do Congo.
Os africanos levados pela guarnição do navegador estudaram português! Tiveram tempo de aprender a língua e os costumes da terra. No futuro, podiam  estabelecer o intercâmbio, abrindo-se fontes de informação útil.
Esta viagem já se prolongava por mais de um ano, era provável que escasseassem as provisões.
A guarnição fez-se à vela para Portugal. Tratou os africanos como hóspedes de honra, também como discípulos distintos. Durante todo o percurso da viagem receberam instrução intensiva.
Os africanos souberam corresponder.
João de Barros, diz,  adaptaram-se bem por serem de nobre nascimento!
Quando chegaram a Lisboa, já sabiam falar um pouco de português, aptos a responder às perguntas que o rei lhes quereria fazer.
D. João II ficou encantado com os seus visitantes, vindos dum reino negro até então desconhecido. Não ordenara  que lhe levasse exemplares humanos, contudo aprovou a iniciativa.
O rei  proporcionou aos nobres africanos o melhor tempo de vida deles: vesti-os com roupas magníficas, alojou-os admiravelmente, mostrou-lhes todas as maravilhas da sua corte; os grandes do reino da casa real faziam-lhes muita honra com as atenções devidas a hóspedes distintos, de uma nação estrangeira e amiga.
Do ponto de vista das investigações antropológicas foi uma providência muito sensata – menos satisfatória talvez para os portugueses perdidos na África equatorial, pior ainda para os africanos levados por seres desconhecidos para terras ignoradas dentro de meios de transporte nunca vistos!
Depois de desembarcarem em Lisboa, não se perdeu a oportunidade de os ir integrando nos costumes, hábitos e práticas portuguesas, dando-lhes a conhecer muitas coisas que eles até então ignoravam, no aspecto material, social e religioso.
O navegador, pretendeu apresentá-los ao Rei e à corte como testemunho válido da sua importante descoberta.
Pode-se afirmar da tarefa educativa e civilizadora de Portugal, em relação à futura Angola, começou com a primeira viagem de exploração da guarnição de Diogo Cão. Positivamente, não foi imposta, foram  os naturais, as populações locais, que a assimilaram, vendo nisso vantagens evidentes.
O navegador permaneceu em Portugal, de  Abril de 1484 a finais de Agosto de 1485, data da partida para a 2ª viagem de exploração marítima da costa ocidental africana.
Os africanos trazidos deveriam regressar ao Zaire no espaço de 15 meses, promessa feita pelo navegador ao Manisoyo, residente em M’ Pinda,  10 km da foz do rio Zaire.
A primeira viagem de exploração marítima da costa ocidental africana para além da latitude 2º Sul,  despertou interesse especial, não tanto pelo descobrimento de um novo império africano, mas pela extensão da costa revelada!
Vemo-la traçada cuidadosamente pelo veneziano Cristóforo Soligo num mapa desenhado em 1486 por informações colhidas em Portugal, ali se pode ver, o padrão de Santo Agostinho no cabo do Lobo, actual cabo de Santa Maria, em Angola; depois desse cabo  navegando costa atinge uma grande ponta, volta para leste e de repente desaparece.
Oh! Essa enigmática curva para leste! Os geógrafos consultaram o seu Ptolomeu.
A latitude alcançada pela guarnição encontra-se perto do paralelo do Promontorium Prassum dos Antigos! Os sábios da Antiguidade não acreditavam que a África se estendesse mais a Sul.
A guarnição chegara ao ponto que a levaria  ao oceano Índico!?...
A ideia obtém aceitação da parte dos homens de saber, colige-se da oração de Vasco Fernandes de Lucena, proferida no dia 11 de Dezembro de 1485 quando foi enviado por D. João II a prestar obediência ao papa Inocêncio VIII.
O eloquente doutor excedeu-se a si próprio. Em sonoros períodos latinos, proclamou tudo o que os reis de Portugal têm feito pelo Cristianismo e pela expansão da Fé. Assim como se esmagou a cabeça duma serpente venenosa, assim D. João I esmagou o poder dos mouros em Ceuta, os seus descendentes continuaram a boa obra.
Estendendo o domínio da Igreja pelas costas de África e pelas ilhas do oceano. Em especial D. João II, em quatro anos, três meses e treze dias, leva a cabo coisas maiores do que as realizadas durante quatro décadas.
Depois de descrever o castelo da Mina, facho da civilização entre “ estes povos ferozes e bárbaros”, que já mostram indícios de grande mudança devido ao contacto com os cristãos, o orador apresenta a sua conclusão mais sensacional; a tudo aquilo, exclama ele:
“ a esperança fundada de explorar o golfo Arábico, onde reinos e povos que habitam a Ásia, mal conhecidos de nós por notícias muito incertas, praticam escrupulosamente a fé santíssima do Salvador, dos quais, a dar crédito a experimentados geógrafos, já a navegação portuguesa se não encontra senão a alguns dias de viagem. Efectivamente, descoberta já uma parte enormíssima da costa africana, chegaram os nossos no ano passado até perto do Promontorium Prassum onde começa o golfo Arábico; foram explorados os rios, praias, e todos os portos desde Lisboa, numa extensão de mais de 45 centenas de milhares de passos, estão enumerados com exactíssima observação de mar, das terras e dos astros”.
brasão de armas do navegador Diogo Cão
Acreditasse ou não o rei em tal feito, o certo é que deu ao navegador uma bela recompensa.
A 8 de Abril de 1484, depois de o ter armado cavaleiro, D. João II concedeu-lhe uma tença de 10 mil reais. Cinco dias depois elevou-o à nobreza, autorizou-o a usar um brasão com dois padrões, como os que  levantara em África, erguendo-se altivamente sobre dois montes.
Qual a região, mais a Sul  da costa ocidental africana atingida pela guarnição de Diogo Cão da  1ª viagem de exploração marítima!
Comparado o traçado da costa marítima desenhado no mapa de Cristóforo Soligo por um mapa real, do rio Catumbela, rio do Paul  ao cabo extremo Sul, verifica-se o local  exacto onde a guarnição chegou.
Afirmam alguns historiadores que a guarnição atingiu  a baía de Lucira Grande, dista 26 milhas náuticas, 48 km a Sul do cabo de Stª Maria, designado de cabo do Lobo. Nessa baía  a guarnição terá voltado para trás, porque provavelmente   sofresse de escassez de víveres e também  de escorbuto!
A viagem  de exploração não teve o "términus" na baía de Lucira Grande!
Tomada a  latitude do lugar, 14º , na baía de Lucira Grande, mapa de Cristóvão Soligo, a guarnição fez-se ao mar largo.
baía de Lucira Grande
Seguindo a derrota do Sudeste, à latitude 14º 03' Sul, registou uma Ponta onde desagua o rio Inamangando.

praia de Inamangando
À latitude  14º 11' Sul,  registou uma ponta designada de "Pontalvo "  decomposta a palavra significa Ponta Alva, isto é, Ponta Branca,  correspondente  à actual ponta da baía das Salinas, na Bentiaba, areias de aspecto esbranquiçado.
ponta Sul da baía das Salinas, Bentiaba
A foz do rio Bentiaba está localizada a Sul e dista 10 Km  da  ponta  da baía das Salina.    
A partir da ponta da  baía das Salinas, não existem outras referências toponímicas registadas no mapa de Cristóforo Soligo. Porém constata-se pelo mapa a  delineação para Sul daquela ponta,  de quatro saliências ou pontas de terra que entram pelo mar, constituindo entre elas quatro baías .

A primeira, a ponta Sul do rio Piambo, da baía  Mariquita ou Furado.
baía da Mariquita,Furado
A segunda, a  ponta  Sul da baía Baba
baía da Baba
A terceira,  a ponta da Pedra Gigante da baía das Pipas.

ponta Sul da baía das Pipas
A quarta, a  ponta do Bambarol,  na foz do rio Giraúl.
ponta do Bambarol, foz rio Giraúl 
Por último, a delimitação de um cabo extremo Sul, ponta Redonda do Farol do Giraúl, baía de Moçâmedes, Namibe, inflectindo para Leste e  Nordeste.
porto mineiro do Saco Giraúl e baía de Moçâmedes, Namibe
A ponta Redonda do farol do Giraúl, dista  105 milhas náuticas, 194 km a Sul do Cabo de Stª Maria,  e 79 milhas náuticas,146 km  do Cabo de Stª Marta.
A Ponta Redonda  do farol do Giraúl faz lembrar a falange de um  dedo polegar. Alonga-se até ao actual porto mineiro da baía do Saco  Giraúl numa  extensão aproximada de 3 Km.
baía de Moçâmedes, Namibe
É constituída por rochas pontiagudas com falésias de 30 metros de altura até 1 km da ponta onde se encontra o farol de sinalização marítima.
A seguir a costa inflecte   para Nordeste até ao porto mineiro do Saco Giraúl.
No porto mineiro a orla   marítima inicia uma inflexão e descreve um arco na direcção do Sul e Nordeste até à Ponta Grossa, formando  a larga baía de Moçâmedes.
baía de Moçâmedes, Namibe. No horizonte a Ponta Redonda do Farol do Giraul 
A orla marítima da baía de Moçâmedes  é longa, descreve um arco desde o porto mineiro do Saco Giraúl, a Norte, até ao porto cais da cidade de Moçâmedes a Sul e Ponta Grossa ou de Noronha a  Noroeste.
A baía de Moçâmedes, caracteriza-se por fortes nevoeiros cerrados matinais,  intempérie adversa à navegação. Foi o cenário encontrado pela guarnição quando aí chegou, Setembro de 1483, não avistando a larga baía que acabava de entrar.
baía de Moçâmedes, Namibe. No horizonte a Ponta Grossa e porto cais de Moçâmedes
De notar desde o cabo de Stª Catarina, Gabão, latitude 2º Sul à ponta Redonda do Farol do Giraúl, baía de Moçâmedes,latitude 15º 8' Sul, a guarnição  percorreu 940 milhas náuticas, o equivalente a 1740 Km de costa marítima ocidental africana revelada, na 1ª viagem de exploração.

1ª Viagem de Exploração 1482 – 1484

Padrão de S. Jorge

O padrão de S. Jorge foi implantado a 26 de Abril de 1483, junto à foz do Rio Zaire, na península extrema e Sul da margem esquerda, num local conhecido por ponta do Padrão, perto da  Moita Seca,  latitude 6º 5’ Sul” e longitude 12º 19' Este.
Edgar Prestage em – descobrimentos portugueses – pág. 197, refere que o original do Padrão de S. Jorge, foi em 1642 destruído pelos holandeses quando invadiram a cidade de Stº António do Zaire - Soyo. Em 1972, a administração civil portuguesa funcionava num desses antigos pavilhões construídos pelos holandeses como reminiscência da defesa estratégica, centro de saúde e arrecadação de materiais e víveres.
Não existe  qualquer monograma indicativo das inscrições e do escudo da Bandeira Portuguesa do original do Padrão de S. Jorge.
De notar que o navegador escolheu para o seu brasão de armas os dois padrões que ergueu, S. Jorge e S. Agostinho.
No ano de 1482, quando se deu   início à 1ª viagem  de exploração marítima, a reforma da Bandeira  Portuguesa ainda não tinha sido operada.
Assim as inscrições e o escudo do padrão de S. Jorge original eram idênticas ao Padrão de Stº. Agostinho:
 

facmile do padrão original de Stº. Agostinho
Restaurado o padrão de S. Jorge em 1648, surgiu a 1ª réplica:

1ª réplica do padrão de S. Jorge
A Flor de Lis foi suprimida.
Os Escudetes laterais em vez de virados ao centro, estavam virados para baixo, não correspondendo ao original do padrão.

Padrão de S. Jorge.
Um dia do ano de 1855, um vaso de guerra britânico, despedaçou a tiros de canhão a 1ª réplica do  Padrão de S. Jorge. Alguns fragmentos seguiram para Portugal, encontram-se na Sociedade de Geografia em Lisboa, por ordem do governo português na altura.
A parte superior encontra-se perdido nas águas do rio Zaire.
 padrão de S. Jorge, réplica, ponta do Padrão
No dia 13 de Setembro de 1859, o governo de Angola mandou um navio de guerra colocar outro padrão, 2ª réplica, no mesmo local, comemorativo do "Padrão de S. Jorge", que cinco anos depois, 1864, desapareceu, destruído segundo a tradição por uma grande cheia ou maré.
Em 1892, o governador de Angola mandou erigir novo padrão, 3ª réplica, comemorativo do primitivo, que permanece até hoje, na Ponta do Padrão, num local mais afastado da margem das águas do rio. Foram então procurados os fragmentos e obtidos que os habitantes da península conservaram em número de dois levados para o museu da Sociedade de Geografia em Lisboa.
Padrão de Stº. Agostinho
“O Padrão de Stº. Agostinho foi implantado a 28 de Agosto de 1483, no Cabo do Lobo, hoje Cabo de Stª Maria – Sul de Benguela -Angola, lat. 13º 25' Sul”, pela guarnição do navegador Diogo Cão.
padrão de Stº Agostinho original
Encontra-se  na Sociedade de Geografia em Lisboa muito bem conservado. Refere  uma inscrição em português arcaico daquele tempo, menciona duas eras:
O governador geral Guilherme Augusto de Brito Capelo, em 1891 ordenou que o Padrão de Stº Agostinho fosse substituído por uma réplica e recolhido ao Museu Colonial, criado vinte anos antes e mandado entregar, em 1892, à Sociedade de Geografia, pelo ministro Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, em cujo átrio se encontrava metido, numa forte tripeça de ferro bronzeado, que o mantinha em posição vertical.
réplica padrão de Stº Agostinho, cabo de Stª Maria, Angola
O padrão de Stº Agostinho foi assim substituído em 1892 por uma réplica, que  ficou na posição frontal ao farol do Cabo de Stª Maria.
A 1ª viagem de exploração marítima da costa ocidental africana da guarnição de Diogo Cão teve início antes de terminar o mês de Agosto de 1482, após o começo do solstício, 21 de Junho.
A duração da 1ª viagem de exploração, teve a duração de 20 meses, 1 ano e 8 meses. Saída do rio Tejo a Julho/Agosto de 1482, chegada a Portugal  princípios de Abril de 1484.

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