sábado, 9 de janeiro de 2010

" razões e fundamentos sobre o navegador Diogo Cão "

Referências bibliográficas:
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Afonso, A. Martins – Curso de História da Civilização Portuguesa
Araújo, Julieta M. A. de Almeida & SANTOS,
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Barroqueiro, Diana – O cometa – uma viagem impossível
Bartaburu, Xavier – Revista Terra – Costa da Namíbia
Bosi, Alfredo (1993). Dialéctica da Colonização. São Paulo, Companhia das Letras.
Boxer, C. R. (1977). A Mulher na Expansão Ultramarina Ibérica. Lisboa, Livros Horizonte.
Braga, Universidade Católica do Porto/Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos
Portugueses, pp. 637-660.
Cardoso, António – revista descobrimentos
Cordeiro, Luciano – Descobertas e descobridores, Diogo Cão
Cortesão, Jaime – A expansão dos portugueses na história da civilização
Costa, Fontoura da – Às Portas da Índia e A marinharia dos descobrimentos

Cronistas:
Rui de Pina (Crónica de D. João II- Cap.62º,
Garcia de Resende (Crónica D. João II, Cap. CLV),
António Galvão – Tratado dos Descobrimentos,
João de Barros (Décadas da Ásia liv. 3º Cap.III),
Duarte Pacheco Pereira (Esmeraldo de Situ Orbis).
Delgado, Ralph – História de Angola – 1º volume – edição Banco de Angola
Dias, Gastão de Sousa – História da expansão portuguesa no mundo
Duarte, Pedro H. Duarte – concepção e design – Mensagem Fernando Pessoa
Ernesto J. Oliveira dos (1993). "Os Portugueses e o Reino do Congo.
Ferronha, António Luís – da presença Portuguesa no Congo e Angola – Rotas da Terra e do Mar
Galvão, Henrique – Outras Terras, Outras gentes
Günther, Sigundo – A época dos descobrimentos
Moita, Irisalva – O Congo
Mapas – google Earth
Mapas – www. Fallingrain.com
Mapa de Cristóforo Soligo – 1485/86
Mapa de Henricus Martellus Germanus 1489
Martim Behaim – Martinho da Boémia -Globo terrestre 1492
Matos, J. Semedo – A Marinha Joaninha – Diogo Cão
Navarrete (Coleccion de los viages Y descubrimientos, tomo IV, pág. 343 a 355
Oração de obediência ao papa Inocêncio VIII
Peres, Damião – Diogo Cão
Pessoa, Fernando – Mensagem
Pigafeta, Filipo – Relatione del Reame di Congo et delle Circonvicine Contrade
Pombo, Pr. Ruela . Revista Diogo Cão
Prestage, Edgar – Descobrimentos dos Portugueses
Primeiros Contactos". In: Missionação Portuguesa e Encontro de Culturas.
Radulet, Cármen – "As Viagens de Diogo Cão: Um Problema Ainda em Aberto"
Ramalho, Américo da Costa, "Sobre a data da Morte de Diogo Cão"
Ravenstein, E.G., "The Voyages of Diogo Cão and Bartolomeu Dias 1482-88"
Sanceau, Elaine – D. João II
Schedel, Therese - o mosteiro e a coroa
Sérgio, António – História de Portugal
Silva. Dr. Manuel Luciano da, Cristóvão Cólon [Colombo] era Português
Sousa, Marina de Melo e – Catolização e Poder no Tempo do Tráfego
Teixeira, Manuel João de Pimentel. - A história e a natureza de mãos dadas
Vainfas, Ronaldo – Catolização e Poder no Tempo do Tráfego
Razões e fundamentos

O monarca português D João II (1481-1495), vem dar novo alento à continuidade das expedições marítimas ao longo da costa ocidental africana ainda desconhecida, sempre com objectivo claro da alcançar definitivamente o Cabo extremo meridional de África.
Uma vez alcançado, abrir-se-iam as portas do caminho marítimo para a Índia das especiarias, intuitivamente desfazia-se para sempre a dúvida da “teoria de Ptolomeu”, de que o Oceano Índico seria um mar fechado sem acessibilidades.
Pronto a satisfazer as suas ambições, o rei rapidamente destacou entre os seus valentes marinheiros um rude capitão chamado Diogo Cão, que em 1480 enaltecera os feitos gloriosos dos portugueses, aprisionando 4 navios castelhanos que andavam a piratear nas águas do golfo da Guiné.
Para comandar a pequena frota devidamente aparelhada, constituída por duas caravelas, mandou o navegador dar continuidade à exploração da costa ocidental africana para além da latitude 2º Sul, último paralelo alcançado no reinado de seu pai D. Afonso V, em 1475 pelo navegador Rui Sequeira.
Todas as viagens de exploração marítimas efectuadas no reinado de D. João II,  foram sempre tidas e envoltas em "segredo de estado", face  à obsessão tida com os rivais espanhóis,  na altura eram os  principais adversários e concorrentes.
Mais tarde, ao secretismo das viagens de exploração marítimas,  deu lugar ao esquecimento e  durante séculos as expedições das guarnições do navegador adormeceram no fenómeno da indolência!
Nos finais do século XIX , o epigrafista Luciano Cordeiro, Iniciou um estudo muito detalhado das inscrições dos padrões colocados pelas guarnições, ao longo da costa ocidental africana a Sul do paralelo 2, anotadas na sua célebre e conhecida “Monografia”, que se encontra na Sociedade de Geografia de Lisboa.
chave do enigma das viagens e morte de Diogo Cão”, abre  um novo espaço para se conhecer a verdade histórica! O que hoje se crê, já foi muito divulgado por alguns autores depois de Luciano Cordeiro, encontrando-se desta forma a literatura muito dispersa, sem o rigor indispensável à concretização dos factos ocorridos.
Este trabalho dá uma certa relevância às famosas expedições realizadas pelas guarnições do navegador, retracta com clareza os acontecimentos, quando, como e porque foram realizadas. Em conclusão, disseca o  que mais provável teria acontecido sobre desaparecimento do navegador.
A inexistência de documentos oficiais, diários de bordo, roteiros das viagens efectuadas, dificultam a tarefa de expressar com exactidão o dia a dia das mesmas.
Ao certo, não se sabe quase nada sobre o navegador, data de nascimento, sua adolescência, estudos efectuados,  e em que circunstâncias ocorreu a sua morte.
O seu pai, o nobre Álvaro Fernandes Cão membro da casa real, nos tempos de Afonso V, foi distinguido nas campanhas efectuadas pelo rei. O  filho foi educado na corte real como escudeiro.
A história narra uma aventura, duas viagens iniciáticas envolta no mistério das descobertas, brindando a vontade na procura entusiástica dos exploradores intrépidos.
Para evitar que os espanhóis entrassem nas rotas da Guiné firmou-se o Tratado de Toledo, de 1480, onde se cederam as Canárias mas onde se reservou o exclusivo da navegação a Sul do paralelo que passava por aquele arquipélago e se atribuía à Espanha a navegação e terras a descobrir 100 léguas a Oeste do meridiano que passava em Cabo Verde; e, mais tarde, em 1494, o Tratado de Tordesilhas em que se aumentava aquela distância para 370 léguas da ilha de Santiago.

Estes tratados foram reconhecidos pela Santa Sé, a autoridade de direito internacional da altura. Estava pois em curso a tese do “mare clausum”. Deve recordar-se que Bartolomeu Dias tinha dobrado o Cabo da Boa Esperança, em Janeiro de 1488, e as informações da expedição de Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã, do mesmo ano, chegaram às mãos do rei, em 1491. Ou seja, D. João II não tinha quaisquer dúvidas sobre como chegar à Índia.
D. João II veio pôr ordem no reino e mudar a política: centralizou e reforçou o poder real face à nobreza e procurou o apaziguamento com os reinos peninsulares.
No seu reinado aparecem claras as seguintes linhas político-estratégicas:
–  manutenção da autoridade real e segurança interna do reino;
–  defesa da rota da Guiné;
–   busca da rota da Índia através do contorno de África;
–  neutralidade atenta na Península (conter Castela em Terra e batê-la no mar);
–  relações privilegiadas com a Santa Sé;
–  comércio e presença diplomática na Europa do Mar do Norte, impedindo o acesso dos seus marinheiros às nossas rotas a Sul;

- política de segredo em relação a tudo que se relacionasse com as descobertas.
O mistério das navegações tem como ponto de partida como acima se refere "o sigilo", confidencialidade no reinado de D. João II. O rei português pautou-se  sempre pelo segredo das coisas do mar.
Nesse tempo, Portugal e Espanha disputavam as terras descobertas além fronteiras.
As duas potências marítimas tinham interesses económicos importantes na descoberta do caminho marítimo para a Índia.
Como se sabe, o objectivo das viagens de Diogo Cão e dos marinheiros que o acompanharam, era descobrir o extremo Sul do continente africano, a passagem definitiva para o oceano Índico, navegar o mais possível para Oriente e estabelecer a rota marítima da Índia das especiarias ou,   encontrar através do curso superior do rio Zaire ou Congo, uma ligação directa e rápida entre a costa ocidental Atlântica e Zanzibar, Quilóa na costa Oriental do Índico, até atingir as terras do reino do Preste João – rei cristão da Etiópia,
A máxima latitude que a guarnição alcançou foi os 22º 26’ Sul, “Ponta dos Farilhões”,  Sul de “Cape Cross” de hoje, Sudoeste Africano, Namíbia, lugar inóspito e turbulento, onde impera uma costa traiçoeira chamada dos "Esqueletos" subjacente ao deserto  do Calaári.
O cabo de Boa de Esperança está à latitude. 34º 21´ Sul. Uma distância de 1.500 km, 810 milhas náuticas separam de “Cape Cross”.
Não coube à guarnição, dobrar o cabo de Boa Esperança, a sua aventura pelo mares até então desconhecidos, trouxe os conhecimentos necessários ao célebre navegador Bartolomeu Dias.
Para atravessar a costa deserta e avassaladora até ao Cabo extremo Sul de África, era necessário vir bem provido de alimentos, água potável o quanto bastasse, destemidos homens cheios de entusiasmo e coragem, acautelar-se com a navegação pelos enormes perigos que a "costa dos esqueletos"  representava, enfrentando  mar revolto, correntes contrárias e ventos desfavoráveis.

Elucida-se para os seguintes pontos fundamentais:

1º - Quantas viagens de exploração marítimas foram efectuadas,  pelas guarnições do navegador Diogo Cão, para além da latitude 2 Sul, ao longo da costa ocidental africana, datas e duração, não existem quaisquer roteiros ou diários de bordo!

Não há um consenso geral dos historiadores de quantas  expedições marítimas foram realizadas pelas guarnições do navegador Diogo Cão!
Em atenção aos padrões implantados, dois  em cada viagem de exploração marítima, constata-se que as viagens não foram 3 três, mas sim  duas. Para o apuramento e determinação das datas e duração das expedições é importante realçar nos símbolos da Bandeira Nacional Portuguesa a posição dos escudetes e da  flor-de-lis,   inscritos nos padrões!

De salientar na 1ª viagem de exploração marítima, de Agosto de 1482 a Abril de 1484 : 


O padrão de S. Jorge, não está aqui representado pelo facto de,  segundo ""Edgar Prestage", ter sido  destruído em 1642 pelos holandesesquando tomaram a foz do estuário do rio Zaire. De notar que, o padrão de S. Jorge erguido na primeira expedição marítima pela guarnição do navegador Diogo Cão, a 26 de Abril de 1483, na "Ponta do Padrão"  península extrema da margem Sul e esquerda  da foz do rio Zaire, Angola, à latitude 6º 4' Sul e longitude 12º 19' Este, as características dos símbolos da Bandeira Nacional serem idênticos ao Padrão de S. Agostinho!
península extrema da margem Sul e esquerda  da foz do rio Zaire ou Congo, Ponta do Padrão, Angola
O escudo da bandeira correspondia exactamente à posição dos escudetes e da flor-de-lis do padrão de Stº Agostinho, como pode ser observado na figura acima projectada. Esta  correspondência tem por base o facto do brasão de armas do navegador representar os dois padrões que  mandou erguer na 1ª expedição marítima!
O padrão de Stº Agostinho, encontra-se actualmente na sociedade de Geografia em  Lisboa,  erguido na primeira expedição marítima pela guarnição do navegador Diogo Cão a 28 de Agosto de 1483,  no "cabo do Lobo", actual "Cabo Stª  Maria", em Angola, à latitude 13º 25' Sul e longitude 12º 32' Este.
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baía e cabo de Stª Maria, Angola
O escudo da bandeira tem os escudetes laterais virados ao centro e a   flor-de-lis como símbolo da cruz da dinastia  de  Avis. Existe apenas uma  inscrição  em português , refere a data de 1482.

De salientar na 2ª viagem de exploração marítima, de Setembro de 1485 a Dezembro de 1486/Janeiro 1487? :

O padrão do Cabo Negro, encontra-se actualmente na sociedade de Geografia em  Lisboa,  erguido pela guarnição do navegador Diogo Cão,  no cabo Negro, Angola a 16 de Janeiro de 1486, na segunda expedição marítima, à latitude 15 º 40' Sul e longitude 11 º 55' Este. Encontra-se em estado avançado de deterioração, não é possível apurar a data da sua  inscrição. O Escudo da Bandeira bem como a inscrição   correspondia exactamente ao que foi inscrito no padrão do cabo da Cruz., devido à semelhança que os caracteriza.

cabo Negro, Angola
cabo Negro no horizonte, foto obtida da ponta do Pinda Angola
O padrão de cabo da Cruz ou da Serra,  encontra-se na Alemanha,  erguido pela guarnição do navegador Diogo Cão, na segunda expedição marítima em Fevereiro ou Março de 1486 em "Cape Cross", Sudoeste Africano, Namíbia,  à latitude 21º 46' Sul e longitude 13º 57' Este.  O escudo da bandeira tem  todos os escudetes virados para baixo e a  flor-de-lis  suprimida.. Existem duas inscrições uma em português e outra em Latim. A inscrição em Latim  refere a data de 1485, sendo  imperceptível o último algarismo da data  na inscrição em Português, 148__. O único padrão que mantêm a cruz original de pedra calcária
baía e cabo da Cruz, Cape Cross, Namíbia
Tal facto deve-se às modificações nele introduzidas por D. João II, depois de Março de 1485.
"Embora perdido o livro da chancelaria relativo ao ano de 1485, existem elementos de arquivo (Câmara Municipal do Porto, vereações vol.5º  págs 83-84) que permitem asseverar que o rei D. João II  não estava em Beja antes de Março de 1485, data em que decretou a modificação do Escudo" .
Com efeito, os cronistas Garcia de Resende (Crónica de D.João II. cap. 55 e 56 e João de Barros, crónica de D.João II cap, 18 e 19, afirmam ter sido em Beja, em 1485, que o monarca decretou as modificações do escudo nacional.
"Supressão da flor-de-lis (Cruz de Avis), redução do número de castelos a sete, modificação da posição dos escudetes laterais, que deixaram de ser apontados ao centro, para o serem para baixo."    
A construção dos padrões feitos de pedra calcária e suas inscrições foram concluídos  antes das expedições de exploração marítimas terem início! Assim, aquelas  datas correspondem aos anos (1482 e 1485) da largada da armada do rio Tejo, Portugal.
Não havendo provas para confirmar ou infirmar as 3 viagens para além do paralelo 2 Sul, caso tenha acontecido, surgiu uma primeira até finais de 1482!
Saindo do Tejo em Agosto desse ano, numa primeira abordagem da exploração da costa ocidental africana.
Depois de escalar S. Jorge da Mina em fase de conclusão, a guarnição  bordejou a costa ocidental africana do paralelo 2º Sul até à baía de Malembo ou Molembo 5º 20’ lat Sul, actual enclave de Cabinda.

baía de Malembo, Cabinda
Por razões desconhecidas, chegados a esta baía regressou ao castelo de S. Jorge da Mina.
Novos preparativos da exploração da costa ocidental africana se efectuou, com o propósito firme de prosseguir a rota do Sul, ultrapassando a baía de Malembo.
A título de curiosidade, chama-se a atenção para a “Terra da Praia Formosa de São Domingos”, actual Praia de Ponta Negra – Congo Brazaville. O nome vem assinalado no mapa de Cristóforo Soligo!
A topologia cronológica dedica o dia de São Domingos(ou de Gusmão ou de Silos) a 8 de Agosto  e a 20 de Dezembro. Deste modo, estas datas de 1482, podem indiciar  a presença da guarnição de Diogo Cão nesse local!
Consultar:
1º expedição marítima
2º expedição marítima

2º - O mapa ou carta de “Cristóforo Soligo” de 1485 ou 1486 correspondente à 1º viagem de exploração marítima da guarnição de Diogo Cão,  primeiro documento cartográfico a registar e a revelar pela primeira vez, a costa ocidental africana, além da latitude  2º Sul até à latitude 15º 8' Sul

Zona explorada pela guarnição do navegador Diogo Cão durante a primeira viagem de exploração marítima, 1482 -1484, ao longo da costa ocidental africana segundo a carta veneziana  de 1485/1486 de “ Cristóforo Soligo” existente no British Museum. Constitui o primeiro documento cartográfico do Cabo de Stª. Catarina, Gabão,  à Ponta Redonda do Farol do Giraúl, Moçâmedes, Namibe em Angola.


Há quem suspeite, depois do Cabo de Stª Maria, baptizado de "Cabo do Lobo" onde a guarnição de Diogo Cão implantou o 2º padrão dedicado a Stº Agostinho, navegou a partir dali, umas 27 milhas náuticas, 50 Km, para Sul, onde atingiu a actual baía de Lucira Grande e o cabo de Stª Marta que delimita a baía a Oeste, onde se encontra o registo da latitude (14º) no mapa referenciado de Soligo
 
 baía e cabo de Santa Maria, onde foi erguido o padrão de Stº Agostinho, sentido Sul
Por razões desconhecidas, talvez porque a guarnição sofresse de escorbuto, voltou para trás convencida de ter alcançado o extremo Sul do continente africano, o que se considera improvável devido à geografia da costa marítima depois da baía da Lucira Grande e do cabo de Stª Marta, seguir o sentido do ponto cardeal  Sul! 
  baía de Lucira Grande, vista para Norte 
 
 

baía de Lucira Grande, vista para Sul
Assim sendo, a curva enigmática, extremo Sul, "Promontorium Prassum" desenhada na carta ou mapa por Cristóforo Soligo,  “ inflectindo para Oriente e Nordeste”, é a actual “Ponta Redonda do Farol do Giraúl”, entrada Norte da grande baía de Moçâmedes, Namibe, Angola, onde se encontra o farol de sinalização marítima da baía! Dista a baía de Moçâmedes  106 e 77 milhas náuticas(195 e 142 Km) do cabo de Stª Maria e do cabo Stª Marta, respectivamente.

baía e cidade de Moçâmedes, Namibe, Angola
 baía e e porto mineiro de Moçâmedes, Namibe, Angola
Por ironia do destino, depois da 2ª viagem de exploração marítima da guarnição de Diogo Cão, a curva enigmática desenhada por Soligo, foi designada por “Cabo Zorto”, ver [Mapa – mundi Henricus Martelus Germano , 1489]. Evidência histórica da falsa informação obtida na 1ª viagem de exploração marítima ao longo da costa ocidental africana!
Consultar:

3º - As inscrições das "Pedras de Yellala", localizadas a 160 km da foz do rio Zaire ou Congo, 2 Km da foz do rio M'Pozo, a montante da cidade de Matádi, R.D.Congo, teriam sido gravadas no regresso da 2ª viagem de exploração marítima?!
ao fundo local onde se encontram as inscrições das pedras de Yellala, rio Zaire  ou Congo, 2 Km de Matádi, DPCongo


inscrições pedras Yellala, rio Zaire  ou Congo, a montante e 2 Km de Matádi, DPCongo margem esquerda
foto aérea da garganta onde se encontram as inscrições das pedras Yellala, rio Zaire  ou Congo, a montante e 2 Km de Matádi,RDCongo
Autores há, a concordar ou contextualizar o que escreveu o cronista João de Barros, 30 anos depois. “…. Diogo Cão no regresso da 2ª viagem subiu o rio Zaire ou Congo, … foi visitar o rei do Congo à sua residência (M’ Banza)... e  regressou ao reino…”
Andava Diogo Cão por mares desconhecidos, João de Barros ainda não tinha nascido, não foi contemporâneo do navegador.
O cronista limitou-se a escrever o que ouvira, ou que outros cronistas escreveram sobre os factos. Desta forma, adulterou os acontecimentos.
Os historiadores modernos  acreditam neste disparate!? Houve alguma preocupação em investigar o rigor dos acontecimentos históricos!?
Não foi no regresso da 2ª viagem que o navegador subiu o rio Zaire, muito menos ter regressado ao reino dessa fatídica viagem! Fê-lo seguramente na ida para a 2ª viagem de exploração marítima  ao longo da costa ocidental africana!
 itinerário do percurso superior da foz do rio Zaire/Congo até Matádi e localidade da residência do rei do Congo, M'Banza Congo
Desde a chegada ao rio Zaire da guarnição do navegador Diogo Cão, até à criação da colónia de Angola em 1575, os portugueses estavam de facto muito preocupados em encontrar uma ligação directa e rápida entre a costa ocidental Atlântica e Zanzibar, Quilóa na costa Oriental do Índico, até atingir as terras do reino do Preste João – rei cristão da Etiópia -, de forma a encurtar a viagem de navegação à volta de África, que tanto risco e perda de vidas causava aos portugueses no seu comércio com a Índia.
Assim, a incursão da guarnição do navegador através do rio Poderoso, rio Zaire ou Congo até às quedas ou cataratas de Yellala, a montante de Matádi, a 170 Km da foz, logo a seguir à confluência com o rio M’Pozo, obedecia de facto às instruções secretas de procurar uma ligação pelo interior de África, através do rio Zaire ou Congo até às famosas terras do Preste João. O documento que atesta a possibilidade de tal façanha era de facto o mapa elaborado pelo frade veneziano " Fra Mauro ". No mapa pode ser observado um canal de ligação entre os dois oceanos, Atlântico e Índico, a atravessando o interior  africano.

Consultar:

4º - Segundo o Insulário ou mapa de Henricus Martellus de 1489 o limite da 2ª viagem de exploração é a serra Parda, a Sul do Cabo da Cruz, Cape Cross de hoje, onde se crê que o navegador falecera ”hic moritur”. " aqui morre"

Embora não exista referências históricas oficiais, a indicar o que acontecera a este nobre cavaleiro, “no parecer de los astrónomos y pilotos españoles de la junta de Badajoz sobre la demarcacion y propriedad de las islas del Maluco”, apresentado perante “ los disputadores” do rei de Portugal, lê-se;
“ ..y del dicho cabo Mensurado se pusieron 930 leguas hasta Cabo de Buena Esperança, de las cuales descubrió Diego Can, desdel Cabo de Catalina hasta el Monte-negro, que puso 380 leguas, y en otro viaje dicho Monte-negro pasó à Sierra Parda, donde murió…”.

oceano Atlântico e baía de Cape Cross, Cabo da Cruz, Namíbia, vista para Norte
Se os cosmógrafos de Badajoz interpretam o “ hic moritur” como “aqui morre”, isto quer dizer que na naquela época foi este o sentido corrente da expressão. Assim a morte do navegador – oferece a chave para esclarecer de uma vez por todas o desaparecimento de Diogo Cão. [ Carmen M. Radulet]
“Não há dúvidas que Diogo Cão morreu aí,  nunca mais se ouviu falar dele. Não se sabe onde foi enterrado, não há sepultura em Portugal, o seu corpo ficou por terras da Namíbia! A obsessão do segredo das “coisas do mar” com os rivais espanhóis não  permitiu o conhecimento oficial da morte do navegador”.
O navegador mostrou-se digno da confiança do rei.
Esteve mais de seis anos no mar, sem qualquer garantia de sobreviver, simplesmente ao serviço de uma causa, mostrou inigualável espírito e sentido nacional”. [ Ferreira do Amaral ]
Consultar:

5º - João de Barros afirmou que o navegador  tornou a trazer Caçuta como embaixador do Manicongo e alguns filhos dos cortesãos para serem instruídos na Fé Cristã

Rui de Pina, cronista acrescentou na sua crónica que o rei do Congo, pediu que lhes mandasse padres para instruir o seu povo, desejava ter pedreiros que construíssem igrejas e casas, de modo que, neste e noutros aspectos, o seu reino fosse semelhante ao de Portugal, todos eles foram recebidos pelo rei de Portugal D. João II, em Janeiro de 1489.
É importante sublinhar a data [ Janeiro de 1489], a embaixada congolesa, não podia ter vindo nos navios da guarnição de Diogo Cão. Como foi possível ser recebida pelo monarca D.João II dois anos depois?!
Alguém estará convencido que assim foi!?
Os sobreviventes da 2ª viagem da guarnição de Diogo Cão regressaram ao reino antes de Agosto de 1487! E porquê assim foi? João de Santiago foi o piloto escolhido por Bartolomeu Dias para pilotar a naveta de mantimentos da sua frota constituída por mais duas caravelas.
Anteriormente a esta viagem João de Santiago, fez parte da 2ª viagem de exploração marítima da guarnição de Diogo Cão, viagem que teve início em Setembro de 1485. Pilotou uma das duas caravelas da guarnição, sendo Pero Escobar o piloto da caravela capitânia.
O nome de "João Santiago"  está gravado nas Pedras de Yellala para a posteridade.
 itinerário de ida e volta da frota da guarnição de Bartolomeu Dias da descoberta do Cabo de Boa Esperança, autor desconhecido
Bartolomeu Dias, saiu do Tejo na demanda da descoberta do cabo de Boa Esperança a 05 Agosto de 1487 com duas caravelas e uma naveta de mantimentos. A pequena frota fez escala em S. Jorge da Mina, Gana. Seguiu depois a costa reconhecida e traçada pelos sobreviventes da guarnição de Diogo Cão.

baía de Tombua, Porto Alexandre, Angola, "Angra das Aldeias" , nome primitivo
Lançado ferro, numa baía abrigada, “Angra das Aldeias”, actual Tombua, Angola, da naveta de mantimentos transferiu víveres para as caravelas e seguiu para Sul deixando 9 homens seus na naveta e os indígenas repatriados para a sua terra, onde eram oriundos, levados para Lisboa pelos sobreviventes da 2ª expedição marítima da guarnição de Diogo Cão, no regresso daquela viagem!

cabo da Boa Esperança
Depois de regressar da descoberta do Cabo de Boa Esperança e aberto o caminho marítimo para a Índia, fez novamente escala na “Angra das Aldeias” , onde deixara a naveta de mantimentos com os seus homens, havia 9 meses! Dos nove homens que tinha deixado, só três ainda estavam vivos, e um deles morreu ao ver os seus companheiros de novo.
O resto dos mantimentos foram transferidos para as caravelas e a naveta foi queimada!
De seguida a guarnição de Dias, zarpou para Norte e fez escala  na foz do rio Zaire em M’Pinda, onde embarcou em Outubro de 1488 os embaixadores do reino do Congo para Portugal, um dos quais era o Caçuta, familiar do rei do Congo.
Seguiu depois para a Ilha do Príncipe, onde recolheu Duarte Pacheco Pereira, cujas explorações à volta do golfo de Bicara - Nigéria terminaram, devido a doença e naufrágio. Depois tomou o rumo de S. Jorge da Mina , Gana, onde carregou ouro.
As caravelas de Bartolomeu Dias chegaram a Portugal a 16 de Dezembro de 1488.
itinerário da guarnição de Bartolomeu Dias na dobra do cabo da Boa Esperança segundo Eric  Exelson
Estava D. João II em Beja e para lá se dirigiu a embaixada do rei do Congo, com Caçuta à frente, nos começos de 1489.
Foi grande o entusiasmo do rei e da corte ao conhecerem os propósitos e pedidos do chefe africano e a recepção dispensada.
Mais tarde Caçuta foi baptizado com o nome de D. João da Silva, e os seus companheiros entregues aos padres dos Loios, encarregados de os "aportuguesar".
Como é fácil de ver, a embaixada só podia ter vindo nos navios de Bartolomeu Dias.

6º - Para justificar o desaparecimento do navegador, vários autores afirmaram  que foi votado ao ostracismo pelo rei D. João II, uma vez que não encontrou a passagem para o oceano Índico, ainda que tivesse prestado relevantes serviços ao reino!

Não se  aprofunda a votação ao “ostracismo”, do navegador pelo rei D. João II, porque à luz do que hoje se sabe, não tem qualquer consistência, carece de razões e fundamentos.
Consultar:

7º -  enigma que envolve a morte do navegador  Diogo Cão.

Quando, como e em que circunstâncias teria ocorrido a sua morte? Quais as provas consistentes em que nos  apoiamos, para clarificar este assunto de primordial importância!
O leitor é o melhor observador e crítico deste trabalho, o passo a seguir é o apuramento da verdade, ponto por ponto, divergência por divergência, das informações que os cronistas nos legaram.
Há que recorrer não só aos cronistas que sobre o assunto pouco escreveram, quase sempre se limitam a uma descrição sem grande objectivo crítico, também a obras de autores modernos, de destacar o epigrafista Luciano Cordeiro e outros, estas já imbuídas de um espírito bastante mais exigente na procura da verdade, melhor da verdade possível, já que em alguns casos é praticamente impossível haver certezas.
Estamos empenhados neste momento em tal trabalho, difícil e moroso. Até à sua conclusão, para evitar demoras, resolvemos dar à estampa, o resultado das confrontações que fizemos dos diferentes relatos.
Sendo a primeira vez que isto se faz, há nele, com certeza, omissões e falhas. Mesmo assim, os estudiosos com material para sobre ele se debruçarem e rectificarem ou esclarecerem mais alguns pontos.
Esperamos que este trabalho desperte o interesse para a grande figura grandiosa, e por vezes tão maltratada, de Diogo Cão, que, embora não tivesse podido atingir o seu objectivo principal – contornar o extremo Sul do continente africano, foi o grande orientador e guia de tão extraordinário feito: as viagens ao longo da costa ocidental africana ainda desconhecida em 1482, para além do paralelo 2 Sul, até ao alcance das imediações do Trópico de Capricórnio, Fevereiro/Março de 1486.

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