sábado, 9 de janeiro de 2010

" 1ª viagem de exploração marítima da guarnição de Diogo Cão, para Sul do Equador "




Saída do rio Tejo – Julho/Agosto de 1482
D. João II mandou o navegador Diogo Cão, seu escudeiro, prosseguir na descoberta de terras além da latitude 2º Sul, da costa marítima ocidental de África.
A guarnição levava víveres para larga demora, numerosos artigos para permutar e presentes aos potentados das regiões africanas a visitar.
Em vez das cruzes de madeira como era habitual os navegadores dos reinados anteriores costumavam colocar nas terras descobertas, as  caravelas da guarnição de Diogo Cão, transportavam 2 (dois) padrões de pedra calcária.
Nesse propósito, partiu do rio Tejo, Lisboa com duas caravelas, no segundo semestre de 1482, provavelmente no início do mês de Agosto.
Seguindo a rota traçada ao longo da costa ocidental africana, fez escala em São Jorge da Mina, Gana.
réplica caravela Bartolomeu Dias
A caravela com dois mastros de pano latino, uma coberta e um pequeno castelo de popa, com um só piso, com cerca de 50 tonéis de arqueação. Navio ideal para singrar em mares desconhecidos, pela facilidade com que bolinava (isto é, progredia em ziguezague contra o sentido dominante do vento). A caravela podia navegar junto à costa e entrar em embocaduras de rios: um navio adequado para a exploração marítima.
Foi o maior navio até então empregue nas viagens de descobrimento, representando por isso a vantagem e necessidade de progredir para Sul com uma embarcação capaz de levar os tripulantes até mais longe, combinando uma autonomia adequada com as quantidades marinheiras que as viagens exigiam. A caravela latina de dois mastros protagonizou as viagens de exploração Atlântica até 1488, sem deixar de continuar a ser utilizada depois dessa data em várias circunstâncias".
 
 rota S. Jorge da Mina, Elmina ao cabo Stª Catarina
“ O estabelecimento da feitoria de S. Jorge da Mina foi resolvido por D. João II em fins de 1481, sendo encarregado dessa assaz delicada missão Diogo de Azambuja. Partiu de Lisboa em Dezembro daquele ano, comandando uma frota constituída por dez caravelas e duas urcas. Naquelas seguiam quinhentos homens de armas e cem artífices. Nestas os materiais de construção, já aparelhados, os mantimentos e munições”.
“A frota fundeou a 12 de Janeiro de 1482 defronte ao lugar escolhido para assentamento da feitoria, próximo da Aldeia das Duas Partes, um pouco além da mina de ouro. A construção dos edifícios começou imediatamente e prosseguiu com rapidez. Por vezes os indígenas vinham perturbar o curso dos trabalhos. Diogo de Azambuja, com prudência logrou levar a obra a bom termo rapidamente

 forte S. Jorge da Mina, Gana
Após longa demora em S. Jorge da Mina, a guarnição fez-se à vela para Sul,  Dezembro de 1482, rumo às ilhas de S. Tomé e Príncipe!

 monumento Gago Coutinho, ilhéu das Rolas, S. Tomé e Príncipe, passagem do Equador
Em S. Tomé e Príncipe, seguiu a rota da ilha de Ano Bom, a Sul do ilhéu das Rolas, descoberta por Pero Escobar e João de Santarém a 01 de Janeiro de 1471.
Navegou para Este  onde alcançou a costa ocidental africana à latitude 2º Sul, Cabo Santa Catarina, Gabão, reconhecido em 1474/75 por Lopo Gonçalves e Rui Sequeira no reinado de D. Afonso V, evitando deste modo o percurso ao longo da costa marítima, desde o castelo de S. Jorge da Mina, Gana.

 ilhéu das Rolas, S. Tomé e Príncipe
Alcançado o Cabo Stª Catarina, Gabão, retomou  a exploração da costa. A guarnição encontrava-se na presença duma costa totalmente desconhecida para Sul deste cabo

 trecho costa ocidental africana, do cabo Stª Catarina à foz do rio Zaire
O método de navegação, se era vantajoso por permitir um meticuloso conhecimento da costa, não era isento de graves dificuldades, estavam a navegar contra correntes e ventos contrários!
Duarte Pacheco mais tarde ainda aconselhava, “sabendo pouco a pouco o que nella hia, a asy suas Rootas e conhecenças, e cada província de que gente era, pela verdadeiramente saberem ho luguar em que estauam, por onde podiam seer certos da terra que hiam buscar” [Esmeraldo de situ orbis].
Seguindo para Sul, depois do cabo Santa Catarina, Gabão, a guarnição reconheceu sucessivamente:
Angra “, Sette Cama, Gabão – 2º 30’ latitude Sul [mapa de Cristóforo Soligo1485/86].


 Sette Cama, Gabão
Munda“, baía da Mayumba, Gabão – 3º 22’ latitude Sul [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86].


 Mayumba, Gabão
“Duas moitas”, Mamas de Banda, Gabão – 3º 47´latitude Sul [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86].

 Medras, Gabão
Esmeraldo de Situ Orbis de 1502 – Duarte Pacheco Pereira:
"Adiante do cabo Santa Catarina são achadas umas barreiras vermelhas sobre o nível do mar as quais distam uma légua mais ou menos. Ao longo da ribeira são razoavelmente altas e jazem do dito cabo  Santa Catarina noroeste e sueste e toma a quarta de este e oeste e a vinte léguas na rota e estas se apartam em latitude da linha equinocial contra o pólo antárctico cinco graus e desta terra é de muito arvoredo e povoados e ali há nela muitos elefantes e outros muitos animais de diversas espécies".
"Doze léguas além das ditas barreiras vermelhas são achadas duas grandes moitas sobre o nível do mar que é mais alto o seu arvoredo que todo o outro e ao longo da ribeira tudo é praia e costa brava e esta terra não é alta nem muito menos é baixa senão num meio razoado e jazem as ditas barreiras vermelhas com estas moitas noroeste e sudeste e tem as ditas doze léguas como dito é".

A Praia Formosa”, Luango, Brazaville] – 4º 38’ latitude Sul [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86].


 praia do Loango, R.Brazaville
A Terra da Praia Formosa de São Domingos”, [Ponta Negra – Brazaville]. 4º46’30’’ latitude Sul [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86].
 praia a Sul de Ponta Negra, R. Brazaville
Ponta Branca”, [Lândana - enclave de Cabinda] – 5º 13’ lat. Sul [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86].
 
 foz rio Chiloango, Lândana
Ponta da Barreira Vermelha”, [Cacongo – enclave de Cabinda] 5º 14’ lat. Sul [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86].
 

Cacongo, Cabinda
 baía de Cabinda
Cabo do Paúl”, [MuandaRepública Popular do Zaire Kinshasa] 5º 56’ lat. Sul [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86].

 costa marítima  Sul de Cabinda em Nsiamfumu,RDCongo
 cabo do farol  da Muanda, RDCongo

Passado aquele Cabo,  deparou-se a 23 de Abril de 1483, dia de São Jorge, uma corrente de 15 km de largo, barrenta e rumorejante que invade o mar com violência de catarata, trazendo consigo, em remoinhos, ilhas de capim, troncos raptados à margem, ramos estilhaçados, toda a triste e aflitiva bagagem das grandes inundações.
É a embocadura de um grande rio, “Rio Poderoso” [Rio Zaire ou Congo], como lhe chamou alguém da frota, conhecido depois por “Rio do Padrão”.
A curiosidade da guarnição, já de si aguçada pelo facto de navegar em novos mares, despertou esta inesperada circunstância.
À medida que navegava, experimentou os efeitos de uma corrente vertiginosa que corta o mar perpendicularmente à costa:
Esmeraldo de situ orbis – Duarte Pacheco Pereira;
"Partindo das ditas duas moitas com vinte e cinco léguas de caminho ao sul - sudoeste é achado um grande rio a que nós agora chamamos o rio do padrão o qual mandou descobrir o sereníssimo Dom João o segundo por Dieguo Caão cavaleiro de sua casa do ano de nosso Senhor de mil cccc e oitenta e quatro anos e este rio se aparta da linha equacional contra o pólo antárctico sete graus em latitude; e no inverno desta terra que é do mês de Abril até fim de Setembro trás este Rio tão grande corrente de água doce que em trinta léguas em mar se sente a força dela e porque quando o descobriram puseram na terra da boca na parte dalém do Sul um longo padrão de pedra com três letreiros sendo um em língua latina o outro em português o outro em língua arábica por esta causa lhe puseram nome do Rio do Padrão do qual tem no canal de sua boca oito a dez braças de água de altura e aqui é o reino do Congo no qual no capítulo seguinte falaremos e os ditos letreiros falam do Rei que o mandou descobrir e em que tempo".
Torneando, atravessou a corrente da embocadura do rio. A  armada foi ter a um majestoso estuário de margens baixas, margem esquerda junto à foz.
Viram uma península, língua de terra, bocado de terra frisada, que avança pelo mar como braço recurvado de muralha a proteger um ponto,  olha de um dos lados para o Atlântico e do outro para a foz do Zaire, arribou as caravelas.
Festivamente, a guarnição desembarcou, a que pelo grande volume de águas e impetuosidade da corrente, logo chamou de “rio Poderoso”, conhecido depois  por "rio do Manicongo" e mais tarde  rio do Padrão.
 foz  estuário rio Zaire, península extrema margem esquerda, Ponta  Padrão, Sazaire, Soyo
Em M' banza Malele, praia fluvial do Soyo, hoje porto e estaleiro fluvial petrolífero da cidade, a guarnição  encontrou um pescador, Ndom Lwolo, um súbdito da rainha Malele Kya Nsi, nome que figura entre os primeiros da lista dos soberanos do Mfutila Neanda, o "Soyo de baixo".
O navegador perguntou o nome da terra, o pescador respondeu: "Kinzadiko", "não sei". Ao interrogá-lo sobre o nome do grande rio, Ndom Lwolo respondeu: "Nzadi", "rio".
O visitante concluiu que o rio se chamava "Zaire".
O navegador manifestou o desejo de ser apresentado à rainha. A soberana foi informada deste acontecimento e desta solicitação. Lembrou-se do seu antepassado Nezinga que recebera ordens do tio, o Ntotila/ Manicongo, impedindo-a de, como seu soberano, estabelecer relações com povos estrangeiros. A rainha recusou qualquer contacto com os visitantes, mandou-os conduzir a M'banza Kongo....”
Os habitantes do Soyo, gente pacífica, ao verem surgir das grandes águas navios e homens nunca vistos,  não fazendo parte da sua taxionomia habitual, começaram a gritar em sinais de admiração.

 Iluminura assentamento padrão S. Jorge
No século XVII, em 1694 um missionário italiano Bernardo de Gallo, recolheu as primeiras imagens gravadas nas memórias dos mais velhos, transmitidas de geração para geração:
«..multidão de pessoas do Soyo, vendo a novidade dos navios, sem saber que coisa aquilo era, começam a gritar com sinais de admiração, amindele, amindele, igual a mudele, branco na significação actual, naquele tempo, amindele significava coisas, como baleias, que vêm do mar..»
Embora não estabelecesse contactos com a rainha “Malele kya Nsi”, o navegador foi aconselhado a ir ao encontro do “Manisoyo”, Ndom Malele kya Nsi, chefe e soberano local, representante do rei do Congo, à praça de M’ Pinda,  10 km da ponta do Padrão.
Dos habitantes do baixo Soyo e do Manisoyo, residente em M’ Pinda, souberam os portugueses que os locais dependiam dum grande potentado, “o Manicongo”.
A sua corte ficava na “M’ Banza real”, "residência" do Congo, para Sudeste, no interior das terras, a 40 léguas de distância do baixo Soyo, cujo império se estendia largamente por ambas as margens do rio, e muito para Sul da costa africana.
A 26 de Abril de 1483, na presença de diversos naturais e do Manisoyo, a guarnição ergueu  à latitude 6º 4' 42,9'' Sul e longitude 12º 19' 54,3'' Este, na península extrema e ponta meridional, Moita Seca, margem esquerda na foz do rio, onde 3 dias antes tinham arribado, o Padrão de S. Jorge, “ como quem toma posse por parte de el-rei, de toda a costa que leixaua atras” (Ásia, Década I, João de Barros, liv.II, capº.3), seguida de celebração de missa.
 réplica padrão  S. Jorge, península extrema  margem esquerda foz  rio Zaire
Estabelecida a certeza da existência do potentado, em obediência às instruções recebidas do próprio D. João II, que lhe mandou proceder de forma a ganhar a confiança dos povos que encontrasse, a abraçar o cristianismo, escolheu 2 portugueses idóneos para levarem ao imperador um presente, de muitas coisas variadas umas das outras.
E lhe mandou dizer como há dita armada era D’el-rei de Portugal, que com todo o mundo tinha paz e amizade. E por lhe dizerem quam grande Rey elle era, desejando de ha ter com elle, e muita prestança, e trato, o mandaua buscar, dizendo-lhe logo o proueito e honra que aos seus e a sua terra dahy lhe poderão vir” (Crónica de el-rei D. João II, Garcia de Resende, Cap. CLV). 
O navegador decidiu enviar ao potentado dois emissários, com ofertas e presentes. Seguiram de M’ Pinda para a M’ Banza Congo, por via terrestre, 23 dias de caminho, acompanhados por guias do Manisoyo!
réplica padrão  S. Jorge, península extrema  margem esquerda foz  rio Zaire
A grandiosidade do rio despertou a curiosidade da guarnição. Sondou e explorou o estuário, navegando muitas milhas para o interior. O mapa de Soligo releva os contornos do estuário e embocadura, e grande parte do percurso superior do rio Zaire.
Foram dois meses de exploração, Maio e Junho de 1483.
 
 itinerário navegável do rio Zaire/Congo, da foz até Matádi
Porém, nesta acção exploratória, velejando para o interior, os emissários enviados ao rei do Congo foram largados perto de Nóqui, localidade mais próxima da M’ Banza real!
A comitiva seguiu por via terrestre até à M’ Banza CongoManisoyo, residente em M’ Pinda, cedera a pedido do capitão, alguns guias que os acompanhou.
 rio Zaire em Nóqui 
Após algum tempo de espera, como a comitiva não regressava da residência do Manicongo, dando notícias, a guarnição não se deteve no local, Nóqui. Desceu o curso do rio até à foz e  prosseguiu a viagem de exploração da costa marítima para Sul da foz do rio Zaire .

Esmeraldo de Situ Orbis – Duarte Pacheco Pereira;

Do terceiro livro capº 2º do “Esmeraldo de situ orbis” do Reino do Conguo e da terra dos antigos onde comem os homens.
Por este Rio do padrão acima do qual atrás no último item deste terceiro livro é escrito estas do Reino do Gonguo e em sua língua chamam a este Rio Emzaze o qual nasce numas terras cinquenta léguas no certaão apartadas das Ribeiras do mar pela dita distância; outros muitos Rios entram em Zaze que o fazem ser tão grande como ele é, e nele há muita e grandes almadias com que se servem os negros desta terra; é muito doentio de febres e até é de muita pescaria; esta gente chamam por Senhor many e por isso dizem em sua linguagem manicongo que quer dizer senhor do Conguo;
Tanto que o sereníssimo Rei Dom João descobriu esta terra logo trabalhou de fazer manicongo e sua gente cristã e a isso mandou lá frades e clérigos para lhe ensinarem as coisas da fé, os quais levaram ricos ornamentos de Igreja, órgãos e outras coisas necessárias. Vendo manicongo e os fidalgos e outra gente a missa e todo o outro ofício divino foram todos muito contentes e logo ele com seus fidalgos e outros homens principais se baptizaram e fizeram cristãos, e não quis que outrem o fosse dizendo que tão santa coisa e tão boa não devia ser dado a nenhum vilão, somente lhe foi grave deixar de ter muitas mulheres como sempre tiveram, e disto os não puderam mudar; mas pela pouca participação que com esta gente temos a doutrina entre eles se vai perdendo quanto pode;
Item; Nesta terra de maniconguo não há ouro nem sabem que é, mas nela há razoadamente  cobre muito fino e aqui há muitos elefantes e ao elefante chamam Zaão os dentes, dos quais resgatamos , e ali há cobre por lenço ao qual os negros desta terra chamam molele; neste Reino do Conguo se fazem bons panos de palma de pelo de veludo e deles com lavores como cetim veludado tão formosos que a obra deles se não faz melhor feita em Itália; e em toda a outra Guiné não há terra em que saibam fazer estes panos senão neste Reino do Conguo; nesta terra se resgatam alguns escravos em pouca quantidade e até agora não sabem que aqui haja outra mercadoria.
Item; adiante desta terra do Conguo aparta do nordeste é sabido  outra província a que chamam anzica e o senhor há nome agora em nossos dias em cuqua- anzico estes são negros como os do Conguo e são serrados na testa ou fonte em roda de maneira de caracol; e as mais das vezes têm guerra com maniconguo e qualquer homem que morre na guerra ora seja dos seus ora dos alheios logo o comem e ali comem qualquer outro que é doente em tal extremo que lhe parece que pode morrer; e esta terra é metida muito no certaão e halonguada da Ribeira do mar e se nela há alguma cousa de proveito até agora o não sabemos;

 
  costa marítima de Angola, foz rio Zaire à foz do rio Loge

costa marítima para  Sul  da foz rio Zaire
Seguindo junto à costa para Sul , a 80 milhas náuticas da foz do rio Zaire atingiu o “Cabo Redondo”,  N’ Zeto - Ambrizete 7º 14’ latitude Sul [mapa de Cristóforo Soligo (1485/86)].
 
  cabo do farol  N´Zeto, Ambrizete
  

N´Zeto, Ambrizete
A 22 de Julho de 1483, chegou à foz do rio Loge, “Rio da Madalena”  7º 48’  latitude Sul, [mapa de Cristóforo Soligo (1485/86)] explorando a barra e lagoa adjacente ao actual município do Ambriz.
foz  rio Loge e barra e lagoa  do Ambriz
barra e lagoa do Ambriz
trecho costa marítima de Angola, do rio Loge à ilha de Luanda
costa marítima para Sul do Ambriz, 
 costa marítima na região do Catembo
Alcançou a embocadura do rio Dande, 8º 28’ lat. Sul, “Rio de Fernão Vaz” [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86].

foz rio Dande
Feita aguada no rio Bengo 8º 44´52’’ lat. Sul “Angra Grande” [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86] atingiu a ilha de Luanda povoada de pescadores, a que chamou ”Ilha das Cabras”. 
baía da foz do rio Bengo
Esmeraldo de situ orbis  de 1502– Duarte Pacheco Pereira;

"
Além deste Rio de que atrás falamos com trinta e cinco léguas de caminho pouco mais ou menos é achado um rio pequeno que se chama o rio de Mondego e ali faz a terra uma pequena enseada que será pouco mais duma légua em roda da boca da qual estão duas ilhas pequenas baixas e rasas de pouco arvoredo que chamam as Ilhas das cabras e estas estão muito perto da terra e são povoadas de negros do senhorio de manicongo e ainda vai adiante a terra do Congo e nestas ilhas apanham os ditos negros uns búzios pequenos que não são maiores que pinhões com sua casca a que eles chamam de Zimbos os quais em terra de manicongo correm por moeda e cinquenta deles dão por uma galinha, e trezentos valem uma cabra e ali outras coisas segundo são e quando manicongo quer fazer mercê a alguns seus fidalgos ou pagar algum serviço que lhe fazem manda lhe dar certo número destes zimbos pelo modo que nossos príncipes fazem mercê da moeda destes reinos a quem lha merece; e na terra do Beni de que já é escrito no quarto item do sétimo capítulo do segundo livro usam uns búzios por moeda um pouco maiores que estes Zimbos de manicongo aos quais búzios no beny chamam Iguou e todas as coisas por eles compram e quem mais deles tem mais rico é; e do Rio do padrão até ao Rio de Mondego e Ilhas das cabras a terra ao longo do mar é baixa e de muito arvoredo; e esta costa do dito Rio do padrão até às ditas Ilhas jaz norte sul e tem trinta e cinco léguas na Rota como em cima se faz menção e estas ilhas das cabras se apartam em latitude a linha equacional contra o pólo antárctico nove graus e por isto se podem conhecer; e ao mar destas ilhas nas trinta braças há muita infinda pescaria".
 baía e ilha de Luanda
Os habitantes locais apanhavam “zimbos”, célebres búzios pequenos, que corriam naquele reino, como moeda.
Abastecidos as caravelas de caça e peixe fresco, riqueza local, a guarnição seguiu a sua rota.

 costa marítima de Angola, da foz do rio Dande à Ponta Redonda do Farol do Giraúl, baía de Moçâmedes

Quando  chegou à ilha de Luanda, os africanos tomaram-nos por cadáveres vivos, “os vumbi”:
«Nossos pais viviam confortavelmente no planalto de Luabala. Tinham vacas e culturas: eles tinham salinas e bananeiras. De repente viram sobre o grande mar surgir um barco. Este barco tinha asas todas brancas, cintilantes como facas. Os homens brancos saíram da água e disseram palavras que não compreendiam. Os nossos antepassados tinham medo, dizendo que eram os vumbi, os espíritos vindos do outro mundo.»
Desta forma a proveniência clássica dos portugueses e do cristianismo provocou um estranho equívoco na mentalidade dos africanos. É que, na cosmogonia congolesa, a jazida dos defuntos situa-se na água e os espíritos dos antepassados encarnam no outro mundo em corpos brancos e vermelhos. Saídos do mar, os portugueses apareciam no domínio do sagrado e «eram reverenciados como deuses na terra», como afirmou a comerciante Duarte Lopes, que esteve no Congo no séc. XVI”.
ilha do Mussulo
Alcançadas, a baía da futura Luanda, a ilha do mesmo nome, da Cazanga  e Mussulo, separadas estas duas, pela barra da Corimba, a frota seguiu a derrota do Sul.
Afastados da costa, por causa dos ventos e da corrente, navegou ao largo.
A 27 milhas náuticas a Sul da ilha do Mussulo, observou o “Monte Alto" lat. 9º 19’ Sul [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86], relevo adjacente à margem direita do rio Cuanza que  não foi possível avistar a sua foz.
 miradouro montes da lua
 
foz rio Cuanza
Aproximando-se da costa, a 32 milhas naúticas da ilha do Mussulo e 12 milhas náuticas da foz do rio Cuanza, a guarnição  entrou na “Terra das Duas Pontas”, [ praia do Sangano], [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86], 9º 33’ lat. Sul
praia  Sangano
A vinte léguas da ilha das Cabras, encontrou uma ponta onde os habitantes locais pescavam em canoas a que chamou de “Ponta das Camboas”, [Cabo de S. Brás] [Esmeraldo de situ orbis 1502– Duarte Pacheco Pereira] lat. 9º 58’ 30” Sul.
 
 
 baía do cabo S. Brás
Esmeraldo de situ orbis, liv.III, Cap. 2º, Duarte Pacheco Pereira:
.
“ 
Passando vinte léguas além da Ilha das cabras está um ponta que chamam a ponta das Camboas e este nome lhe puseram porque quando Dieguo Caão Cavaleiro criado del Rei Dom João que Deus tem, esta terra descobriu, achou ali umas Camboas em que os negros pescavam e por isso lhe pôs o dito nome; e esta ponta é muito apracelada e além desta acharam um Rio muito pequeno à maneira desteiro e aqui não há comércio nem coisa digna de ser escrita somente que esta ponta jaz com a dita Ilha das cabras nor-noroeste e sul -sudeste e tem as ditas vinte léguas da rota e se aparta em latitude da linha equinocial contra o pólo antárctico dez graus e meio”.
A 22 milhas náuticas da Ponta das Camboascabo S. Brás, atingiu a foz dum rio, o  rio Longa, 10º 14’ Lat. Sul a fim de fazer aguada.
foz do rio Longa
À latitude Sul 10º 45’ , entrou no “Golfo de S. Lourenço” [10 de Agosto 1483] [mapa mundi Henricus Martelus Germano (1489)] Benguela à Velha, actual Porto Amboim.
baía de Porto Amboim
praia Porto Amboim
Esmeraldo de situ orbis 1502– Duarte Pacheco Pereira;

Jaz a Ponta das Camboas e a Ponta de São Lourenço norte e sul e tem vinte léguas na rota e esta terra toda é muito baixa e não é de tanto arvoredo como atrás fica”.
Mais a Sul o rio Catumbela, “Rio do Paúl” 12º 26’ 42” lat. Sul [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86],10 km a Sul do Lobito, onde fez aguada. Em plena estação do “cacimbo”, as águas do rio encontravam-se limpas, livres da sujidade das águas barrentas da época estival!

foz  rio Catumbela
rio Catumbela, região interior na Catumbela,10 Km da foz
Além da ilha de Luanda, a viagem foi rápida. Em vinte dias a guarnição navegou 368 milhas náuticas, rio Loge [rio da Madalena] ao rio Catumbela [ rio do Paul]
A 15 de Agosto de 1483 ancorou na “Angra de Stª Maria ”, 12º 35’ 24” lat. Sul, actual baía de Benguela, praia morena [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86, a fim de aparelhar as caravelas e folgar, por ser abrigo e porto seguro.
baía de Benguela, praia Morena, vista para Sul 
Sombreiro visto da região da Caota, sentido Sul/Norte
A esta  latitude, deparou-se uma forte corrente marítima fria vinda do Sul, “  Corrente Fria de Benguela”.

De salientar, a enorme influência exercida:

A Corrente Fria de Benguela, é uma corrente de águas frias acompanhadas de ventos frios que se movem no sentido Sul - Norte (contrária aos ponteiros do relógio) e que banham a costa ocidental meridional de África, desde o Cabo de Boa Esperança, passando pela Costa dos Esqueletos na Namíbia, pela Costa de Angola, até atingir  o Equador, onde vira bruscamente para Oeste, transformando-se na Corrente Equatorial Sul.
A Corrente Fria de Benguela tem origem no Oceano Glaciar Antárctico, alarga-se à medida que se dirige para Norte, chegando a atingir 300 Km de largura ao largo de Benguela.
O ponto de encontro dos oceanos, Atlântico Sul e Índico é também onde a Corrente Fria de Benguela encontra a Corrente Quente das Agulhas ao largo do Cabo de Boa Esperança.
O  encontro resulta numa mistura atribulada de águas e ventos quentes e frios, cuja diversidade dá lugar uma instabilidade acentuada de clima, a uma fauna marinha abundante, variada de peixes, aves marinhas e mamíferos marinhos.
O impacto da Corrente Fria de Benguela na costa de Angola é manifestado pelas condições desérticas da Costa dos Esqueletos e da Costa do Namibe, semi - áridas a Sul de Benguela, dos nevoeiros persistentes ao largo da costa meridional angolana.
Correntes marinhas são rios de água salgada, com temperaturas diferentes daquelas circunstantes, que correm no mar, segundo uma direcção bem precisa.
Uma enorme massa de água baixa dos pólos, fria, pesada, ao fundo do oceano, rumo ao Equador.
O deslocamento chama à superfície a água aquecida pelos raios do Sol, que é mais leve.
Tem-se, assim, um ciclo contínuo:
Dos Pólos ao Equador, fria e pesada.
Do Equador, aos Pólos, quente e superficial.
As correntes marinhas são devidas, além das diferenças de temperatura e de salinidade, de densidade, sobretudo aos ventos de estação, constantes ou a longo período, como os alísios e as monções.

costa marítima de Angola, da baía de Benguela à baía de Moçâmedes, Namibe
Esmeraldo de situ orbis de 1502– Duarte Pacheco Pereira;
“ Além da ponta  de São Lourenço da qual atrás no derradeiro Item do segundo capítulo desta terceiro livro é escrito e começa uma angra de Santa Maria e ali vai à costa dali por diante direita e em dezoito léguas de caminho contando da angra de São Lourenço….”.
A 20 de Agosto, zarpou para Sul. Reconheceu oCanal de Alter Pedroso” lat. 12º 53’ Sul. rio Capololo/Caporolo, [mapa de Cristóforo Soligo (1485/86)].
Caota e baía Azul,  Sul de Benguela 
rio Caporolo ou Capololo
Foi dado à Ponta Choca ou Sombreiro, o nome de Castelo de Alter Pedroso?! Eis a dúvida. A carta geográfica de Soligo revela o nome de um Canal ou o nome duma espécie de Castelo?!
Entrando numa baía abrigada de ventos e correntes, à vista de um ilhéu rochoso (280mx120 m), "ilhéu de Pina" a meio Km de distância da costa, avistou o “Cabo do Lobo”, [mapa de Cristóforo Soligo (1485/86) –“ Cabo de Stº Augustini”,[mapa mundi Henricus Martelus Germano (1489)] – “Ponta Preta”, [Esmeraldo de situ orbis, de 1502 – Duarte Pacheco Pereira]; actual cabo de Stª Maria, latitude 13º 25’ 13,62 " Sul  e longitude 12º 32' 01,9" Estel, onde a 28 de Agosto de 1483 ergueu o padrão de Stº. Agostinho, seguida de celebração de missa.
 cabo Stª Maria 
vista da baía e cabo Stª Maria
iluminura  assentamento padrão  Stº. Agostinho, cabo Stª. Maria
ERA DA CREAÇÃ DO MUDO DE SEIS MIL BJLXXXJ ANOS DO NACIMENTO DE NOSSO SENHOR JESHU DE MIL CCCLXXXJJ ANOS O MUJ ALTO MUJ EICELETE PODEROSO PRINCIPE ELREY DÕ JOAM SEGUNDO DE PORTUGAL MÃDOU DESCOBRIR ESTA TERRA E POER ESTES PADRÕES POR DIOGO CÃO ESCUDEIRO DE SUA CASA”.
 Na era da criação do mundo de 6681 anos, do nascimento de Nosso Senhor Jesus de 1482 anos, o mui alto mui excelente e poderoso príncipe, el-rei D. João II de Portugal, mandou descobrir esta terra e pôr estes padrões por Diogo Cão, escudeiro de sua casa"
 padrão  Stº. Agostinho, sociedade Geografia Lisboa,  a flor de lis e os escudetes laterais virados ao centro.

De 1383 a Março de 1485
Nos reinados de D. João I, D. Duarte e D. Afonso V as armas reais apresentavam poucas alterações, sendo de notar as primeiras referências aos escudetes como “quinas”.
- Fundo branco
- Cinco escudetes azuis dispostos em cruz -os laterais apontados ao centro-
- Os escudetes possuíam cinco besantes (dois pontos - um ponto - dois pontos)
- Bordadura vermelha
- Diversos castelos dourados na bordadura
- Flor de Lis,  quatro pontas da cruz verde florestada da Ordem de Avis dispostas em cruz na   bordadura
baía  do cabo Stª Maria e o ilhéu dos Pássaros
Esmeraldo de situ orbis 1502 – Duarte Pacheco Pereira
“..em diante faz a terra uma ponta de nome ponta preta por quanto se faz ali uma manilha negra e a esta ponta lhe puseram este nome, e jaz a ponta de São Lourenço com a ponta negra norte e sul e tem as ditas dezoito léguas na Rota e esta terra não é de tanto arvoredo como que atrás fica e esta ponta preta se aparta em latitude da linha equinocial contra o pólo antárctico treze graus e dois terços".

A 27 milhas náuticas (50 Km) para Sul do cabo de Stª Maria, entrou numa larga baía conhecida mais tarde por angra de João de Lisboa, “actual baía de Lucira Grande”, onde tomou a latitude do lugar (14º) 13º 52’ lat. Sul [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86].
Lucira Grande
baía de Lucira Grande, Ao fundo o cabo Stª Marta
baía  Lucira Grande, vista para  Norte
A 5,5 milhas náuticas para Oeste da baía de Lucira Grandeo cabo de Stª Marta, que o dobrou para Sul até à ponta Grossa das Salinas” em S. Nicolau, designada de “Pontalva”, ou ponta Branca, 14º 11’ lat. Sul [mapa de Cristóforo Soligo 1485/86].
  ponta Grossa das Salinas, Bentiaba
Para Sudeste da Ponta Sul das Salinas reconheceu:
ponta Sul do rio Piambo, da baía Mariquita ou Furado.
praia Furado
ponta Sul da baía de Baba
baía Baba
baía  Mucuio
A ponta da Pedra Gigante da baía das Pipas
praia baía das Pipas
A ponta do Bambarol da foz do rio Giraúl. 
ponta Redonda do Giraúl, da baía de MoçâmedesNamibe, latitude 15º 7' 36'' Sul, corre para Este e Nordeste.
ponta Redonda do Farol do Giraúl, baía de Moçâmedes, Namibe
Um espesso manto de nevoeiro retirou toda a visibilidade da baía e região envolvente, dificultando deste modo a navegação  prosseguir a sua rota.


porto mineiro do Saco Giraúl e baía de Mocâmedes, Namibe
A guarnição terminou ali a  1ª viagem de exploração marítima.
Animá-los-ia certamente, a vontade de prosseguir e desvendar o mistério da rota Oriental que os levasse até à Índia.
Convencidos da aproximação do “Promontório “Prassum”, do Mapa de Fra Mauro, onde começa o golfo arábico, decidiu regressar. Foi impossível continuar a exploração da costa ainda desconhecida. “Prassum”, cabo situado pela geografia ptolemaica no troço meridional da costa africana oriental.
Zarpando para Norte, algum tempo depois reentrou no estuário do rio Zaire [rio Poderoso], ancorando no porto de M´ Pinda, para recolher os dois emissários, um dos quais se chamava Martim Afonso, meses antes, Maio/Junho de 1483, os largara nas imediações de Nóqui perto da residência [M’ Banza] do Manicongo.
Não os encontrando, tanto em M´Pinda, 10 km da foz, como depois em Nóqui, 170 km da foz, supô-los cativos ou mortos.
Diogo Cão decidiu então, velejar para Portugal em Novembro de 1483. Não deixou sair do navio quatro homens, dos mais importantes, um dos quais era o Caçuta, que o visitavam com muita confiança e amizade.
«...e, polla muyta tardança sua pareceu ao capitão que deuião ser captiuos ou mortos (os embaixadores) e vendo que os negros da terra se fiauam delle, e entrauão já nos nauios, determinou não esperar os cristãos que mandara, e partir-se com alguns daquelles negros, e assi o fez». (crónica de El-Rei D. João II, Garcia de Resende, Cap. CLV).
Por acenos, o navegador disse aos homens da terra que os levava  para os mostrar ao rei de Portugal e  que provavelmente dentro de quinze luas, os voltaria a trazer, deixando ali, como prova de sua boa fé os portugueses enviados ao Manicongo.
Durante a viagem de regresso, o capitão tratou os hóspedes com mostras de grande respeito e amizade, ensinando-os a falar português.

Chegada a Portugal – Março/Abril de 1484

Quando chegaram a Portugal, foram levados à presença d’el-rei, os quais responderam a tudo o que D. João II perguntou, com muita admiração e contentamento de todos.
O Príncipe Perfeito, reconhecendo a sua apurada noção de justiça, fez o maior lisonjeiro e acolhimento.
El-Rei cumulou-os de atenções e dádivas, mandou a todos dar bom trato e ensinamento.
Para que os portugueses cativos no Congo não padecessem d’ algum mal enviaria Diogo Caão numa segunda viagem com ricas ofertas para o Manicongo, pensando convertê-lo num fidelíssimo aliado de Portugal, criando o desejo de fazê-lo cristão.
Os homens trazidos por Diogo Cão foram tratados, tanto na viagem como depois em Lisboa, com humanos desvelos, sendo instruídos na fé cristã.
Por eles veio o Príncipe Perfeito a enviar ao Manicongo “um presente rico de myutas, e boas cousas, e lhe mandou offerecer sua amisade e descubrir sua vontade, que era desejar sua saluação, conuidandoo com razões, e amoestações pera a Fee de Jesu Christo nosso Senhor, encomendandolhe que deixasse os idolos, e feitiçarias que tinha, e adorauão em seu Reyno, dandolhe pera isso muytas, e boas razões, que elle podesse entender, e dito de maneira que elle se não escandalizasse polla erronia, e idolatria em que viuia, que nisso teue el Rey muyto resguardado, e temperança pero com brandura o prouocar” [Crónica de el-rei D. João II, Garcia de Resende, Cap. CLV].
Uma vez chegado, D. João II, reconhecendo os serviços prestados, “..... Diogo Cão, assi tanto nas partes da Guiné como em outros lugares nos tem mui bem servido, em especial em esta ida onde o enviamos a descobrir terra nova nas ditas partes da Guiné, de onde ora veio...”, Carta régia de 4.04.1484, concedeu-lhe uma tença anual de 10.000 reais brancos.

Brasão de armas concedido a Diogo Cão por D. João II. (Iluminura da obra seiscentista conhecida por Livro do Armeiro Mor, da autoria de João de Gross que se encontra no Arquivo Nacional da Torre do Tombo – Lisboa). Note-se que nas armas figuram dois padrões.
Seis dias depois 14.IV.1484, foi-lhe passado carta de enobrecimento, em que se atende não só os seus serviços, mas também aos de seu avô, Gonçalo Cão, no tempo de D. João I, nas lutas contra Castela, e aos de seu pai, Álvaro Fernandes Cão no reinado de D. Afonso V.
Feito nobre de cota das armas, “....os quais ele e os que dele descendem, por linha direita de legítimo matrimónio gerados, queremos e havemos por bem que tragam, pode usar as armas a que se referem na rub de Cão...”
Em português moderno o documento que notabiliza o valoroso navegador:
«Dom João II …A quantos esta nossa carta virem fazemos saber que considerando nós como os virtuosos nosso Senhor para sempre outorga glória, e que assim em semelhança e imitação os bons Reis e príncipes, pois na terra, de sua mão não têm seu lugar e principado, devem dar honra aos que por virtude e serviços merecem, por onde os outros se chamem a bem fazer: Portanto, havendo nós respeito como Diogo Cão, Cavaleiro de nossa Casa, é dela merecedor assim pelos serviços que Gonçalo Cão, seu  avó fez a El-Rei dom João, meu tresavô, dando-lhe Badalhouce no tempo das guerras que havia El-Rei de Castela com o dito Senhor, e bem assim os que seu pai fez a El-Rei meu Senhor e Pai que  Deus tem, e por conseguinte aos que ele Diogo Cão fez ao dito Rei meu Senhor e a nós nas partes d’ África e também nas da Guiné, assim na paz como na guerra, e em especial nas ditas partes da Guiné, onde o ora enviámos a descobrir por serviço de Deus e trabalho da aumentação da nossa Santa Fé Católica, bem e acrescentamento de nossos reinos se haver e o fazer mui bem, e cumprir em tudo o que lhe mandamos, e assim nisto como noutros serviços obrar como homem esforçado, leal e desejador do nosso serviço e honra, e querendo-lhe isto em alguma parte galardoar como razão fazer aos que tais serviços fazem, e por lhe isso mesmo fazer mercê: Temos por bem e nos praz de nosso próprio motu, certa ciência e poder absoluto o separarmos, do número de plebeu e habilitamos e fazemos nobre de cota d’ armas. E lhe damos e outorgamos estas armas neste escudo pintadas, ordenadas por Portugal nosso rei d’ armas, as quais ele e os que dele descenderem por linha direita de legítimo matrimónio gerados, queremos e havemos por bem que tragam, como coisas próprias assim em cota d’ armas, elmo e escudo, como em todas as outras coisas em que os nobres e filhos d’ algo d’ antiga linhagem podem trazer.
E assim mesmo para desafiar, reptar, responder em corte e fora dela, e entrar em liças, raias, campos, batalhas, transes e em qualquer outros lugares de nobreza e honra, assim por mar como por terra, em paz e em guerra, e em tudo e por tudo gouvir de todas as honras, privilégios, liberdades, isenções e franquezas de que os ditos nobres e filhos d’ algo podem gouvir e o dito tão inteiramente como eles fazer. E porém rogamos e encomendamos ao Príncipe meu sobre todos muito amado e prezado filho, e aos outros que devemos rogar e encomendar, e mandamos a todos os corregedores, fidalgos, cavaleiros e escudeiros, e quaisquer outras justiças e pessoas que isto houverem de ver que hajam o dito Diogo Cão por nobre de cota d’ armas e os que dele descenderem como dito é, deixando-lhes trazer as ditas armas e  gouvir inteiramente de todas as ditas honras, isenções e franquezas sem lhe indo nem consentindo ir contra ele em parte nem em todo, em nenhuma maneira que seja, porquanto nossa mercê e vontade é o haveremos por nobre de cota d’ armas como em cima é dito. E suprimos e havemos por supridas quaisquer cláusulas que para esta nossa carta de enobrecimento ser mais firme e de vigor sejam necessárias e minguem em ele. E por lembrança nossa e segurança sua e de seus descendentes mandamos passar esta dita carta signada por nós e selada de nosso selo. E mandamos ao dito rei de armas que a registe em seu livro com as ditas armas para ele e os outros saberem como o dito Diogo Cão é nobre de cota d’ armas e fazer o que a seu ofício pertence. Dada na nossa vila de Santarém aos 14 dias do mês de Abril. Nicolau Eannes a dez, 1484»    
Grande foi a satisfação de D. João II ao tomar conhecimento dos resultados da exploração realizada por Diogo Cão; e logo um amplo galardão a traduz.
Nas duas cartas régias de 8 e 14 de Abril de 1484, o navegador foi dito «cavaleiro da nossa casa», enquanto no padrão de S. Agostinho aparece apenas como escudeiro; a elevação de categoria foi o primeiro acto régio de recompensa.
Análise do mapa/ carta geográfica  de Cristóforo Soligo - 
1ª viagem de exploração marítima da guarnição de Diogo Cão, à costa ocidental africana além do paralelo/ latitude 2º Sul 
A carta geográfica de Cristóforo [Cristóvão] Soligo, é o primeiro documento cartográfico do trecho da costa [orla marítima] ocidental africana da lat. 2º. Sul [Cabo Stª Catarina] no Gabão até aos 15º 8’ de lat. Sul [ Ponta Redonda  do Giraul ] da Baía de Moçâmedes, Namibe em Angola.
O traçado da costa ocidental marítima africana, inclui os actuais países da Nigéria, Camarões, Guiné Equatorial, as ilhas de Fernão Pó, [ilha Formosa] e S. Tomé e Príncipe, também a costa marítima do Gabão, Congo Brazaville, enclave de Cabinda, Congo Zaire e dois terços da actual  costa de Angola.  Inclui as ilhas de Luanda e do Mussulo, e términus na Ponta Redonda do Giraul,  da Baía de Moçâmedes, Namibe Angola.
Depois da latitude 2º Sul, o registo sucessivo de;
Angra “, [Sette Cama – Gabão] – 2º 30’ lat. Sul.
Munda“, [Baía da Mayumba – Gabão] – 3º 22’ lat. Sul
Duas moitas”, [Mamas de Banda – Gabão] – 3º 47´lat. Sul
“A Praia Formosa”, [ Luango – Brazaville] – 4º 38’ lat. Sul
praia  Loango, Congo Brazaville
A Terra da Praia Formosa de São Domingos”, [Ponta Negra – Brazaville]. 4º46’30’’Sul 
praia Ponta Negra
Ponta Branca”, [Lândana - enclave de Cabinda] – 5º 13’ lat. Sul
foz  rio Chiloango, Lândana
Ponta da Barreira Vermelha”, [Cacongo – enclave de Cabinda] 5º 14’ lat. Sul
Cacongo, Cabinda
Cabo do Paúl”, [MuandaRepública Popular do Zaire Kinshasa] 5º 56’ lat. Sul 
praia  Muanda, República Democrática do Congo
O rio Poderoso", o estuário do rio Zaire ou Congo e percurso superior.
A curiosidade de navegar pelo rio, despertou à guarnição de Diogo Caão, o ensejo de descobrir por esta via fluvial duma passagem até Quilóa, no oceano Índico, costa oriental africana. Ver  Mapa de Fra Mauro.
foz rio Zaire, Ponta do Padrão, península extrema margem esquerda
A guarnição conduziu os emissários até às imediações de Nóqui, lugar mais próximo da M’ Banza do rei do Congo, residente para Sudeste de Nóqui, no interior das terras na margem esquerda do rio a 20 léguas, 100 Km de distância.

rio Zaire,  região Pedra do Feitiço
A paisagem arborizada das margens do rio, constituída por centenas de canais [muílas ou mangais], despertou a curiosidade e o fascínio dos marinheiros.
Aves exóticas, papagaios e outras, cruzam as margens do rio. Jacarés e hipopótamos  habitam  os canais ou muílas de acesso ao rio Zaire.
península extrema margem esquerda. foz rio Zaire, Ponta do Padrão
O cartógrafo assinalou duas cruzes, uma na margem esquerda junto à foz do rio Zaire [rio Poderoso], outra no cabo de Stª Maria [cabo do Lobo]. A primeira o padrão de S. Jorge, a segunda o padrão de Stº. Agostinho.
réplica padrão  S. Jorge, Ponta do Padrão, foz rio Zaire
Os nomes dos padrões configuram a toponímia das datas da chegada [23 de Abril e 28 de Agosto de 1483].
À actual costa de Angola, a meados de Julho de 1483, reconheceu o “Cabo Redondo”, -7º 15’ 54” latitude Sul,  município do N’ Zeto – Ambrizete.
cabo  farol  N´Zeto, Ambrizete
A 23 de Julho de 1483, chegou à foz do rio Loge, “rio da Madalena”, – 7º 48’ 40” lat. Sul – onde fez aguada, explorando  a baía adjacente à actual vila do Ambriz.
barra lagoa das salinas Ambriz, foto Boléo
Ao rio Dande, chamou-se  “rio de Fernão Vaz” [monte de barro] – 8º 28’ 5” lat. Sul.
foz  rio Dande
À baía onde desagua o rio Bengo o de “Angra Grande” – 8º 45’ 7” lat. Sul.
Chegados à ilha de Luanda “ilha das Cabras”, -8º 45’ 39” lat. Sul – avistou rebanhos de cabras e homens na apanha do zimbo, concha ou búzio servindo de moeda de troca no Reino do Congo.

ilha Luanda
Era  uma espécie de feudo do reino do Congo, de enorme importância financeira. Ali viviam muitas pessoas, espalhados por algumas povoações de pescadores.
ilha  Mussulo
Contornadas as ilhas de Luanda e do Mussulo, a guarnição avistou o “Monte Alto” lat. 9º 19’ Sul. Navegando ao largo da costa não observou o famoso rio Cuanza.
montes da Lua,  Sul de Luanda
foz rio Quanza
Aproximando-se da costa, a 32 milhas náuticas , 60 Km da ilha do Mussulo, 20 Km da foz do rio Cuanza acostou à praia de Sangano, “Terra das Duas Pontas”– lat 9º 33’ Sul.
praia Sangano
Navegando ao largo do cabo Ledo com terra à vista, alcançou o cabo S. Brás, “Ponta das Camboas”, -9º 58’ 21” lat. Sul –). 
cabo  S. Brás
A 5 milhas náuticas para Sul do cabo S. Brás, ancorou as caravelas junto à  foz do rio Lomba a fim de fazer aguada.
foz  rio Longa
No dia 10 de Agosto de 1483 à latitude 10º 45’ 18 Sul, entrou no “Golfo de S. Lourenço”, Benguela à VelhaPorto Amboim
baía de Porto Amboim


rio Cuvo ou Queve
A 8 milhas náuticas a Sul do rio Lomba atingiu o rio Cuvo ou Queve.
restinga Lobito
flamingos  área do Lobito
Afastados de terra,  alcançou a meados de Agosto a foz do rio Catumbela “rio do Paul”, – 12º 26’ 21” lat. Sul – 10 km a Sul da cidade do  Lobito, cuja restinga não foi avistada.
foz  rio Catumbela
Soligo, assinala as ilhas de Luanda e Mussulo, como sendo o ponto mediano - ponto equidistante entre os padrões:  do rio Zaire [rio Poderoso] e do cabo de Stª Maria [ cabo do Lobo].
O percurso da costa marítima para Sul das ilhas de Luanda e Mussulo, até cabo de Stª Maria, é superior duas vezes, ao percurso da costa marítima da foz do rio Zaire às mesmas ilhas.
A exploração da costa para Sul do rio Zaire às ilhas de Luanda e Mussulo, decorreu em ventos e correntes marítimas desfavoráveis à navegação, a guarnição efectuou um melhor reconhecimento da costa.
Para Sul da ilha de Luanda e do Mussulo, os ventos dominantes de Sudoeste, associados à “Corrente Fria de Benguela”, propiciou às caravelas navegar em ziguezague e à bolina, enclinamento para bombordo, por forma a tornar a navegação  mais veloz. 
A guarnição  não efectuou um  melhor reconhecimento da costa marítima.
A derrota do trecho da costa marítima  da  [ ilha de Luanda  ao  rio Catumbela], efectuou-se em 10 dias.
Chegados ao rio Catumbela de águas limpas, a guarnição fez aguada..
A restinga do Lobito situada a 10 km a Norte do rio Catumbela, não foi avistada, a guarnição  navegava  ao largo da costa.
A 15 de Agosto a guarnição entrou na “Angra de Santa Maria ”, – 12º 34’ 21” lat. Sul – praia Morena de Benguela.
praia morena, baía de Benguela 
Por ser abrigo e porto seguro, a guarnição fundeou as caravelas. 
Apetrechando as caravelas de lenha, limpeza do forro dos cascos (de limos e teredo), muito activo em águas quentes, beneficiou a reparação do calafeto, do massame, das velas e mastreação.
A 20 de Agosto zarpou para Sudoeste, contornando o Sombreiroa Baía Farta, o rio Capulolo ou Capurolo a que deram o nome de Canal dalter Pedroso” -12º 55’ 51” lat. Sul.
rio Capulolo ou Capurolo
À latitude de 13º 26’ Sul, atingiu o “cabo do Lobo”, actual cabo de Stª. Maria -, onde a 28 de Agosto de 1483, ergueu o Padrão de Stº. Agostinho.
cabo  Stª. Maria
farol cabo Stª Maria
baía Stª Maria e o ilhéu de Pina
baía e cabo Stª Maria
Navegando 27 milhas náuticas para Sul (1 milha náutica = 1850 metros) entrou na baía  Lucira Grande, 13º 52’ latitude Sul, onde tomou a altura da passagem meridiana do Sol 14º (graus) registando a latitude local. 
 baía Lucira Grande e cabo de Stª Marta ao fundo e direita
Lucira Grande
Contornando a baía em direcção a Oeste, a 5,4 milhas náuticas dobrou o cabo de Stª Marta para Sul.
costa marítima a Sul do cabo de Stª Marca
costa marítima no Inamangano

praia da baía dos Elefantes
À actual Ponta Grossa ou Ponta Sul da Baía das Salinas, designou “Pontalva”, ponta branca – 14º 11’ lat. Sul.
 
ponta Sul baía das Salinas, S. Nicolau e foz do rio Bentiaba

 praia do Chapéu Armado
A Sudeste da Ponta das Salinas "Bentiaba" , constata-se a delineação de quatro saliências ou pontas de terra que entram pelo mar, constituindo entre elas quatro baías.

A primeira a Ponta Sul do rio PiamboPonta da Mariquita ou Furado
baía Piambo
praia  Mariquita ou Furado
praia baía Piambo
A segunda, a Ponta Sul da Baía de Baba.
baía  Baba
Mucuio
baía Mucuio
A terceira a Ponta da Pedra Gigante da Baía das Pipas
praia  baía das Pipas
A quarta a Ponta Bambarol da foz do rio Giraúl
ponta Bambarol,  foz do rio Giraul
Finalmente, a delimitação de um cabo redondo extremo Sul da mapa, a Ponta Redonda do Farol do Giraúl, Norte da Baía de MoçâmedesNamibe em Angola, para Leste  0,8 Km e Nordeste 2,5 Km, à latitude 15º 08' Sul. Da ponta do farol ao porto mineiro a orla marítima tem 3,3 Km. 
baía de Moçâmedes,  no horizonte o farol da Ponta Redonda do Farol do Giraúl, vista da ponta Grossa ou Pau, Noronha
A guarnição entrou numa larga baía, baía de Moçâmedes - Namibe, sem dar por isso.
 farol Ponta Redonda Giraul, vista do Bambarol sentido Norte/Sul
No mapa de Soligo, o extremo Sul, está assinalado por um cabo redondo (12)  o traçado da orla marítima  depois do cabo define uma linha na direcção do ponto cardeal Nordeste e desaparece. O cabo redondo desenhado, corresponde ao actual Ponta Redondo do Farol do Giraúl, da baía de Moçâmedes, Namibe, Angola.. 
 Ver fotografia seguinte da baía de Moçâmedes, Namibe
Notar o espesso manto nevoeiro envolvente.
Posição (a) ………ponto referencial das caravelas vindas no sentido Norte/Sul
Posição (b)……….aproximação à baía do Saco, porto mineiro
Ponto  ( c ) …….setas indicativas da corrente fria de Benguela, sentido oposto aos ponteiro do relógio, isto é Sul/Norte.
Ponto (1) …………Ponta Redonda do Giraul, onde e localiza o farol sinalização marítima.
Ponto (2)………... Ponta Grossa ou de Noronha
Ponto (3) ………...Confluência ou inflexão costa marítima, no porto mineiro do saco Giraul.
baía de Moçâmedes, Namibe 
A guarnição dobrou a actual Ponta Redonda do Farol do Giraúlda baía de Moçâmedes – Namibe – Angola.(1e bordejou a orla marítima   pouco mais de 1 Km . Da ponta onde se encontra o  farol de sinalização marítima, ao porto mineiro do Giraul, são 3,3 Km.
A orla marítima a partir do  porto mineiro do Saco do Giraúl (3), faz uma inflexão abrupta. Segue para Sudeste, Sul,  Oeste e Noroeste, até à Ponta Grossa ou  Noronha (2),  formando a baía de Moçâmedes.  Do  farol da Ponta Redonda do Giraúl, à ponta Grossa ou Noronha, são 15 Km aproximados. 
Porque motivo, a guarnição nesta 1ª viagem de exploração marítima,  não avistou o ponto de inflexão (3),  da  costa   da baía de Moçâmedes?!:
Quando aí chegou,  Setembro de 1483  viu-se confrontada por idênticas circunstâncias, nevoeiro cerrado!
ponta Redonda do farol Giraúl, baía de Moçâmedes, Namibe
A corrente marítima de Benguela, corre no sentido Sul/Norte ponto (c) , contrária aos ponteiros do relógio.
Apesar das dificuldades adversas à navegação, [nevoeiro cerrado e correnteza marítima alterada, ondulação contra os rochedos do Ponta Redonda do Farol do Giraúl, a guarnição mudou o rumo. 

Da direcção Sul  que levava posição (a), velas a meio pano,  tomou rumo ponto cardeal  Este, duas quartas de bombordo 90º graus, [lado esquerdo das caravelas].
baía de Moçâmedes vista da Ponta Redonda do farol Giraul, no horizonte a ponta Grossa  ou Noronha
À vista dos rochedos altos e pontiagudos da Ponta Redonda do Farol do Giraúl (1), para Leste 1 km, e para  Nordeste 2 km, aproximação à posição  (b) .
Na posição (b) , não avistou o ponto de inflexão (3), confluência da extracção do minério e porto mineiro do Saco Giraúl,  bem como a  extensão da orla marítima que passa pela foz do rio Bero, da cidade de Moçâmedes, Namibe do Saco Sul, do Porto Cais  e  Ponta Grossa, Pau ou  Noronha(2), formando a baía de Moçâmedes, devido ao espesso manto de nevoeiro cerrado que na altura se fazia sentir.
A carta de Soligo, mostra inequivocamente o desenho dum cabo extremo, a continuidade da linha da costa no sentido do Nordeste num limite claramente definido.
 baía de Moçâmedes, Namibe, vista do porto mineiro  do saco Giraul
Não se vê qualquer sinal de inversão do traçado da orla marítima para Sul ou Sudeste, o que indicia a nossa teoria descrita.
Não obstante as condições climatéricas de instabilidade, acresce o facto da guarnição se encontrar num mar incógnito, vulnerável e desconhecido. Não iria arriscar, navegando pelo nevoeiro por tempo indeterminado.
Uma vez que, os navios não podiam avançar, a guarnição viu-se constrangida a retroceder.
Dando meia volta à posição  ponto (b) , quatro quartas para estibordo [ lado direito das embarcações], efectuou uma manobra de 180 graus, retomando a navegação de velas a todo o pano em direcção a Oeste, posição (a) , a fim de  se fazer ao mar oceano.
De ventos de feição e da corrente marítima vinda do Sul, zarpou a Norte, deixando para trás o  tempo nebuloso.
Encontrada a latitude do cabo, 15º” 8’ Sul,  verificou corresponder à aproximação do “Promontório Prassum” do mapa de “Fra Mauro”, extremo Sul de África, onde começava o golfo arábico.
Iludida pela descoberta do extremo Sul do continente africano,  a guarnição ficou animada.
As portas do oceano Índico estavam definitivamente abertas?...
O regresso ao reino, passando pelo rio Zaire para recuperar os dois emissários que antes os enviara ao Manicongo, que em lugar deles trouxe 4 africanos, terminou seis meses depois no pátrio Tejo, princípios de Abril de 1484.
A aproximação ao promontório Prassum do Mapa de Fra Mauro foi anunciada ao rei D. João II de Portugal.
O monarca português encheu-se de contentamento e alegria.
A certeza desse convencimento está patente na oração de obediência ao Papa, proferida por Fernandes Lucena no dia 11 de Dezembro de 1485:
os portugueses estão a alguns dias de viagem de explorar o Golfo arábico, onde reinos e povos que habitam a Ásia, mal conhecidos de nós por notícias muito incertas, praticam escrupulosamente a fé santíssima do Salvador, efectivamente, descoberta já uma parte enormíssima da costa africana, chegaram os nossos no ano passado até perto do Promontório Prassum “.

2 comentários:

  1. Dear sir
    my name is Martino Sacchi. Your work about Diogo Cao is really interesting. I'm writing a book abok Age of Discoveries, and your ideas help me. I've a question: is it possibile to see Spitzkuppe from Ponta do Faralhones? And where is exactely Dias' Angra das Voltas?
    My mail address is: martino.sacchi@libero.it
    Than you
    Martino sacchi

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  2. Um magnífico e raríssimo documento que merecer ser bem divulgado especialmente pelos nossos jovens.

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